A política costuma transformar crises em torcida organizada. Ainda mais em tempos de redes antissociais, onde cada conflito precisa virar Gre-Nal instantâneo, meme, corte de vídeo e teste de fidelidade ideológica. Mas há momentos em que a realidade entra na sala e obriga todo mundo a baixar um pouco o tom, para não restar todos no ‘cantinho do castigo’.
A relação entre o governo Luiz Zaffalon e o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública Municipal de Gravataí (SPMG), que vinha numa espiral de desgaste, ataques e desconfiança mútua, parece viver justamente esse instante.
Não significa paz. Nem reconciliação. Muito menos concordância. Mas talvez exista agora algo raro e necessário: a percepção de que continuar apenas brigando — e ignorando — não resolve o tamanho do problema.
O manifesto apresentado pelo SPMG na Câmara de Vereadores na terça-feira passada endureceu o ambiente político. A categoria levou à tribuna acusações de precarização, assédio, sobrecarga e retirada de direitos. O governo reagiu dizendo que tenta reorganizar uma rede educacional afundada em indicadores constrangedores.
A crise cresceu. Mas, paradoxalmente, foi justamente o agravamento político que ajudou a empurrar as partes para a mesa.
Acerta o prefeito Zaffa ao agendar a reunião com o sindicato.
Politicamente, ao menos segura um movimento grevista que, conforme o Seguinte: apurou, já tinha até peças de campanha produzidas nos bastidores.
Zaffa vive talvez o pior momento de popularidade do governo, atravessado pela crise financeira do município e uma sensação crescente de aperto nos serviços públicos. Uma greve na educação funcionaria como gasolina jogada num ambiente já inflamável.
Nesse cenário, merece destaque o papel do presidente da Câmara, Dilamar Soares, o Dila, na construção da reaproximação. Não por acaso, o prefeito o convidou para participar da mesa de negociações.
Dila opera como uma espécie de fiador político do diálogo. Tem trânsito entre vereadores governistas, mantém boa relação com a vereadora Vitalina Gonçalves, eleita pela categoria, e ajuda a oferecer algum grau de confiança num ambiente tomado por ruídos.
O próprio prefeito, que chamo de ‘sincericida’, explicou os motivos que o levaram a cancelar reuniões anteriores. Disse que, em junho do ano passado, um encontro foi desmarcado após greve e críticas em carro de som na frente do gabinete. Depois, nova reunião teria caído após “ataques sincronizados” nas redes sociais. Agora tenta reabrir a conversa.
E talvez exista aí uma compreensão política importante: governo e sindicato podem continuar brigando à vontade, mas os números da educação não esperam o fim da disputa.
E os números são assustadores.
A tragédia começa logo no primeiro ano do ensino fundamental. Dos 2.427 alunos avaliados pela rede municipal, 74,6% encerraram o ano com defasagem para ler e escrever. É uma emergência educacional.
No segundo ano, quando a alfabetização já deveria estar consolidada, 44,8% ainda apresentam defasagem de fluência. No terceiro, persistem problemas graves de leitura e matemática. No quarto ano, a matemática começa a desabar junto com a interpretação de texto. No oitavo e nono anos, mais da metade dos estudantes apresenta defasagem matemática.
A conta chega no fim da trajetória escolar. Os alunos deixam a rede municipal rumo ao ensino médio estadual com dificuldades para ler, interpretar textos, escrever e resolver problemas matemáticos básicos.
Os indicadores do Ideb apenas transformam a sensação em estatística oficial. Gravataí aparece com 5.6 nas séries iniciais e 4.4 nas séries finais, abaixo das médias do Rio Grande do Sul e do Brasil, apesar de ser a quarta economia gaúcha.
É aqui que a crise entre governo e sindicato deixa de ser apenas disputa corporativa ou embate político. Ela passa a ser uma discussão sobre o futuro das crianças.
O ‘sindicato invisível’
A secretária da Educação, Aurelise Braun, reafirmou ao Seguinte: que a exigência de hora-atividade presencial “não é castigo”, mas tentativa de “fazer diferente” e reorganizar planejamento pedagógico e melhorar resultados.
A frase mais forte da secretária talvez tenha sido outra: “Há o sindicato dos professores, mas e o sindicato do aluno?”
A provocação ajuda a entender o tamanho do drama, mas também carrega um risco. Não concordo quando a secretária estabelece uma espécie de divisão entre “sindicato dos professores” e “sindicato dos alunos”, como se a gestão automaticamente ocupasse o lugar de representante das crianças.
Não funciona assim. O sindicato dos alunos é a sociedade. São as famílias. São os próprios estudantes. E esse ‘sindicato invisível’ vai julgar tanto o governo quanto os professores pelo resultado final.
A sociedade não vai perguntar quem venceu a guerra de notas oficiais, cards de Instagram ou discursos na tribuna e carro de som. Vai perguntar por que metade das crianças não consegue aprender no tempo adequado. Vai perguntar por que uma cidade rica convive com índices educacionais tão pobres. Vai perguntar por que alunos avançam de ano acumulando dificuldades que depois explodem no ensino médio e na vida adulta.
O governo tem razão quando afirma que os números atuais são insustentáveis. O sindicato tem razão quando alerta para desgaste, condições de trabalho e necessidade de valorização docente.
As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. Aliás, provavelmente são. Por isso, a reunião marcada para o próximo dia 22 talvez tenha importância maior do que a política imediata costuma enxergar.
Não se trata apenas de evitar greve. Nem apenas de preservar popularidade. Nem apenas de impedir que a Câmara vire palco permanente de conflito. Trata-se da necessidade de um pacto. Um pacto mínimo.
Um entendimento de que Gravataí não conseguirá melhorar Ideb, alfabetização e aprendizagem sem professores minimamente valorizados — e também não conseguirá melhorar os indicadores mantendo práticas que há décadas produzem resultados ruins.
Ao Seguinte:, o próprio Zaffa admitiu algo raro para um governante:
– O modelo praticado por décadas, inclusive por dois anos no meu governo, deu nesta tragédia.
A frase importa porque rompe parcialmente com aquela lógica clássica de empurrar a culpa apenas para antecessores, sindicato ou sistema. Os dados são ruins demais para permitirem conforto ideológico.
A educação de Gravataí chegou naquele ponto em que todos os lados têm alguma parcela de responsabilidade — e nenhum deles conseguirá resolver sozinho.
Ao fim, talvez a cidade esteja descobrindo algo desconfortável: o verdadeiro adversário não é o sindicato. Nem o governo. É a defasagem educacional. E ela já virou grande demais para caber apenas numa guerra política.
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