RAFAEL MARTINELLI

A esquerda se uniu em Gravataí por Lula e Brizola. Mas De Leon não “fez o L” na foto; uma análise — e a anedota

A foto foi publicada em post do PT de Gravataí

O ‘L’ não feito roubou — ao menos nos bastidores — a notícia dos canhotos de Gravataí.

Uma postagem divulgada pelo PT anunciava a formação de uma frente política local em apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva e à pré-candidatura de Juliana Brizola ao governo do Rio Grande do Sul.

Na foto estavam a vereadora Vitalina Gonçalves (PT), o ex-vereador Thiago De Leon (PDT), o decano pedetista José Amaro Hilgert, além de dirigentes locais do PV (Calebe Guimarães), PSOL (Renato Linck) e PCdoB (Carina Arteira). O PSB também integra a articulação, embora seu presidente municipal, Luis Stumpf, não estivesse presente no encontro por questões particulares.

O objetivo político da imagem era simbolizar a unidade da esquerda e da centro-esquerda em Gravataí após a aliança estadual construída em torno de Juliana Brizola, apoiada pelo PT depois da retirada da pré-candidatura de Edegar Pretto.

Só que a política raramente é apenas o que está escrito na legenda. A dúvida dos bastidores passou a ser outra: por que De Leon não “fez o L”?

Pode parecer detalhe para quem olha de fora. Não é. Depois da publicação do post, recebi inúmeros prints de políticos e eleitores — de diferentes lados da ferradura ideológica — apontando exatamente para isso.

Todos olhando para a mesma coisa: enquanto os demais participantes reproduziam o gesto associado a Lula, De Leon aparecia sem fazê-lo.

Gesto também é linguagem. E ausência de gesto vira discurso. Na política, os ausentes são mortos temporários, como dizia Millôr.

Enviei mensagem a De Leon pedindo manifestação. Fiquei no vácuo. O que também faz parte do personagem. Já o chamei de “esfinge de 28 anos”. Hoje, aos 30, continua sendo a “esfinge de 30”.

De Leon costuma se manifestar publicamente quando isso lhe interessa politicamente. E evita entrar em polêmicas que não seja ele próprio o criador.

Perguntei então a Amaro sobre o episódio. Ele respondeu que De Leon “fez o L” em outras fotos do encontro, mas justamente aquela acabou sendo a imagem selecionada para divulgação. Não soube explicar o motivo da escolha.

Já Vitalina reafirmou ao Seguinte: que a unidade construída existe “em torno de Brizola, Lula, Pimenta e Manuela”.

A percepção, minha inclusive, foi inevitável: De Leon quis mandar algum tipo de sinal?

A dúvida cresce justamente por causa de sua trajetória política recente — um verdadeiro ‘Norte via Sul’, como já defini em outras análises, fazendo uma analogia com a linha da Sogil das antigas.

Depois de uma puberdade política simpática ao PSOL, De Leon migrou para o PDT e, ao longo dos anos, caminhou cada vez mais da esquerda clássica em direção ao centro. Quase um ‘extremo-centrismo’.

Na eleição de 2024, chegou a alimentar expectativas de integrar o BOM — o Bloco de Oposição Municipal — formado exatamente pelos mesmos partidos de esquerda que agora aparecem unidos na frente Lula-Brizola. Mas tomou outro caminho.

Virou candidato a vice-prefeito de Marco Alba, político de centro-direita que admite ter votado em Jair Bolsonaro na última eleição presidencial. Ainda que naquele formato que apelidei de ‘bolsonarismo envergonhado’: sempre justificando o voto pela simpatia a Paulo Guedes.

Na época, defini a chapa como ‘MarxDonalds’.

A ironia continua viva porque resume justamente a contradição que até hoje acompanha De Leon: um político que tenta dialogar simultaneamente com campos ideológicos diferentes sem assumir completamente nenhum deles.

Depois, já no governo Eduardo Leite, De Leon virou secretário adjunto da Secretaria de Trabalho e Desenvolvimento Profissional do Estado — justamente após anos de críticas ao governador, especialmente nas pautas ligadas ao funcionalismo público. Chegou inclusive a assumir interinamente a secretaria.

Ao deixar o governo estadual, entrou imediatamente em modo campanha. É pré-candidato a deputado estadual. Voltou ao tom oposicionista e passou a publicar vídeos criticando o prefeito Luiz Zaffalon — aliado político de Leite.

Críticas que, registre-se, não fazia enquanto ocupava cargo no governo estadual.

E é exatamente aí que, reputo, mora o risco político para De Leon. Ele precisa cuidar para não parecer apenas oportunista ideológico. Porque a política tolera reposicionamento. O que ela costuma punir é a sensação de cálculo excessivamente visível. E o “L” ausente acaba entrando justamente nessa conta simbólica.

Edegar Pretto seguiu a decisão de Lula de apoiar Juliana Brizola. Não esconde a aliança. Não omite a candidata. Comprou publicamente a estratégia.

De Leon talvez precise entender que, ao entrar numa frente explicitamente lulista, existe um gesto mínimo esperado: “fazer o L”.

É do jogo. Até porque existe uma oportunidade eleitoral concreta aí. A esquerda gravataiense não possui hoje uma candidatura local à Assembleia Legislativa. Há espaço político disponível. Campo aberto. Mas ocupar esse espaço exige nitidez.

Ainda mais numa cidade onde pesquisas internas mostram algo curioso: embora Lula e Bolsonaro tenham rejeições elevadas, o bolsonarismo segue mais forte eleitoralmente do que o lulismo — ainda que menos dominante do que aparenta no termômetro das redes antissociais.

É justamente nesse ambiente que De Leon parece tentar operar: não afastar completamente o eleitor de esquerda, sem também repelir o eleitor antipetista moderado.

A questão é que ficar em cima do muro pode funcionar por um tempo. Mas geralmente cobra preço quando chega a hora do voto.

Tem uma anedota russa que ajuda a entender isso.

Conta-se que um camarada sai do gabinete de Stalin murmurando:

– Que canalha bigodudo…

Beria ouviu e imediatamente relatou a frase.

Stalin então manda chamar o camarada e pergunta:

– A quem você se referia?

O camarada responde:

– A Hitler, é claro.

Stalin então olha para Beria:

– E a quem você se referia, camarada Beria?

Ao fim, De Leon talvez queira ser justamente o camarada da anedota. Dizer para cada eleitor exatamente o que cada eleitor deseja ouvir.

Para alguns, bastaria murmurar “descondenado”, já que, de certa forma, também vale para Bolsonaro, hoje em espécie de SPA domiciliar judicializado.

Mas existe um risco nisso tudo. O de terminar como Beria. Porque chega um momento em que o eleitor quer saber qual é, afinal, sua posição pública.

E tem eleitor que é como Stalin.

Mata. Na urna, claro.

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