Imagine um humano sendo montado abruptamente, por vezes às esporadas. Machuca? A resposta deveria indicar um alerta. Mas, pelo que apurei nos bastidores da Câmara Municipal de Gravataí, a pergunta sequer deverá ser feita em voz alta pelos parlamentares no plenário. O risco real — e quase iminente — é que o Projeto de Lei nº 80/2026, de autoria da vereadora Márcia Becker (PSDB), nem sequer chegue ao painel eletrônico para votação. A tendência desenhada nos bastidores é a de que a matéria seja barrada e enterrada ainda nas comissões internas da Casa.
Se isso se confirmar, assistiremos a mais um episódio em que o parlamento tenta blindar a si mesmo do incômodo de encarar o Zeitgeist — o espírito do tempo.
Merecia, isso sim, restar espaço para Márcia expor no telão as mais de 3 mil fotos e vídeos que compilou de gineteadas Rio Grande do Sul afora. Inclusive de cavalo que desmaiou e recebeu chutes.
Diferente do texto anterior (o PL 48/2026, que cobria a utilização de animais em espetáculos de forma genérica e foi retirado para adequações), a nova proposta protocolada pela vereadora da causa animal de Gravataí em 23 de julho foca no coração da controvérsia. O PL 80/2026 é direto: proíbe expressamente a prática de gineteadas e provas que promovam a derrubada de animais em rodeios e eventos similares no município de Gravataí.
A proposta estabelece sanções administrativas severas: responsabilização legal, que torna infratores tanto o responsável pelo alvará do evento quanto a autoridade ou servidor público que conceder a licença; além da previsão de aplicação de multa e determinação de cessação imediata da prática sob pena de interdição do evento, com dobra do valor da multa em caso de reincidência.
O grande diferencial do projeto, contudo, reside em sua justificativa técnica e científica. Com base nos estudos da doutora Irvênia Prada (professora titular emérita da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP) e análises de médicos veterinários, o texto disseca a biologia da dor e do sofrimento impostos aos equinos e bovinos.
Aborda a ‘fisiologia do pânico’, ao detalhar que o ato de corcovear não é celebração ou demonstração de bravura do animal, mas uma resposta desesperada de sobrevivência. Diante do estresse, o organismo do equino desencadeia a Síndrome de Emergência de Canon, manifestando midríase (dilatação das pupilas por pânico), sialorreia (salivação excessiva), taquicardia, vasoconstrição e hipertensão arterial.
Explica a ‘tortura pré-arena’, mostrando que o sofrimento começa bem antes da apresentação. Envolve o confinamento em bretes estreitos, a amarração em palanques com os olhos vendados, a exposição a ruídos ensurdecedores que agridem uma audição incomparavelmente mais sensível que a humana, e a privação do sono normal de 12 horas — reduzido para escassas 3 ou 4 horas durante os eventos.
E evidencia lesões físicas e a ilusão das esporas. O texto científico demonstra que a gineteada causa traumatismos internos, lesões de coluna, deslocamentos de vértebras, rupturas musculares e fraturas resultantes de quedas e choques contra as grades. Desmistifica também a tese da “espora inofensiva”: golpeados na região do pescoço e baixo-ventre ao ritmo do pulo, os animais sofrem dor e lesões intensas, independentemente de as rosetas serem ou não pontiagudas.
Como reforça a justificativa da vereadora: “Não há diploma legal capaz de alterar a natureza das coisas e dos fatos. Não há norma que possa legitimar como esporte ou cultura uma prática de natureza violenta”.
Mesmo diante de um embasamento científico tão denso, a apuração do Seguinte: indica que o projeto pode ser sepultado sem debate público. A tendência é que comissões internas da Câmara declarem o projeto inconstitucional, impedindo que ele vá a plenário.
Trata-se de um erro tático e ético. O papel de um Legislativo não é fugir dos debates desconfortáveis, mas mediá-los. Impedir a votação em plenário é uma tentativa vã de conter uma maré que já transbordou.
Como escrevi ao analisar o recuo recente do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) — que se viu forçado a editar a Portaria nº 18/2026 para proibir esporas nazarenas e choques —, as instituições tradicionalistas só se movem quando tensionadas. O recuo do MTG foi uma confissão velada de que o modelo antigo de exploração animal está com os dias contados. E ele só mudou porque ativistas e parlamentares corajosos colocaram o dedo na ferida.
O argumento de que a gineteada deve ser preservada por constituir “tradição” ou “prática campeira” não resiste à história e nem aos fatos. Como bem aponta a justificativa do PL 80/2026, arrancar um animal de seu ambiente, amarrá-lo vendado a um poste e castigá-lo com esporas enquanto a plateia grita jamais fez parte da rotina de trabalho na lida do campo. É espetáculo. É uso do sofrimento alheio como entretenimento.
A história humana é vasta em práticas cruéis defendidas sob o manto da cultura. Em 2008, quando Gravataí discutiu e aprovou a proibição de circos com animais — proposta pela então vereadora Anabel Lorenzi —, os discursos inflamados eram idênticos. Falava-se em “tradição cênica”, em “fim da cultura” e em “exagero de eco-chatos”.
Escrevi, na época, que os vereadores que achavam bonito ver leões e tigres encarcerados em jaulas deveriam passar uma tarde trancados em uma delas sob o sol do Centro de Gravataí. Aplausos dos transeuntes teriam. Hoje, a ideia de um circo com animais nos parece bizarra, primitiva, grotesca.
A escravidão também foi defendida por séculos com argumentos econômicos e culturais. Quase toda transformação ética relevante da humanidade começou sendo acusada de vandalizar a tradição local. O que muda não é a biologia do animal — que continua sentindo dor exatamente como nós —, mas a percepção coletiva da sociedade.
Schopenhauer escreveu que “o homem fez da Terra o inferno dos animais”. A gineteada é uma das expressões dessa afirmação. Transformar a dor de um ser senciente em evento festivo é a permanência de um modelo ético falido.
O paradoxo de Márcia Becker e a vitória que não depende do painel
Márcia Becker carrega um paradoxo raro na política: ela atua sabendo que a defesa intransigente da causa animal muitas vezes retira votos de setores conservadores em vez de somá-los. Mas é exatamente isso que confere credibilidade à sua trajetória. Não é marketing, porque é candidata a deputada federal: é convicção, atesto.
Mesmo que o PL 80/2026 seja engavetado nas comissões ou venha a ser derrotado no plenário, a vereadora cumpriu seu papel ao expor a anatomia do trauma e constranger o sadismo travestido de espetáculo.
Nem toda vitória política acontece no painel eletrônico da Câmara. Algumas acontecem nas mentes das pessoas, nas discussões de mesa de jantar, na consciência dos jovens que começam a olhar para uma arena e enxergar pavor em vez de festa. O debate sobre a causa animal nunca termina no dia de uma sessão legislativa. É uma construção contínua.
Ao fim, se a Câmara de Gravataí optar por engavetar o projeto sem votá-lo, estará apenas registrando o medo de seus parlamentares diante do debate moral. Mas não impedirá a reflexão. O tema voltará a cada denúncia, a cada vídeo de maus-tratos e a cada nova tentativa de normalizar o injustificável.
O Zeitgeist não caminha para trás. E manter a reflexão viva — incomodando as velhas certezas — já é a maior das vitórias.
Para apoiar abaixo-assinado pelo fim das gineteadas clique aqui.
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