In memory we trust.
Então, lembremos, às vésperas de uma eleição sob a polêmica envolvendo Nossa Senhora, CNBB, católicos, evangélicos e presidenciáveis. O ano era 2018. Enquanto o Brasil estreava a “polarização” (sem um dos extremos), entre o lulismo preso sem provas e o bolsonarismo esfaqueado, Gravataí vivenciou a sua própria versão de uma cruzada eleitoral.
Na época, a Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria — instituição à frente do tradicional Colégio Dom Feliciano e que por meio século operou milagres no Hospital Dom João Becker — sentiu a necessidade inédita de emitir uma nota pública de posicionamento “sobre o momento atual brasileiro”.
Naquele manifesto simples e doce, fundamentado nos ensinamentos de Jesus e na herança de sua fundadora, a Bem-Aventurada Bárbara Maix, as religiosas saíram em defesa da vida, da misericórdia, da verdade e do Estado Democrático de Direito, rejeitando abertamente a violência, o racismo, a tortura e a ditadura.
Em 18 de outubro daquele ano, analisei a manifestação em Como entendi nota das Irmãs do Dom Feliciano sobre eleições.
O contraste entre a voz serena das freiras e a fúria das redes antissociais expôs um novo normal. Postar frases humanistas de Dom Pedro Casaldáliga — “na dúvida, fique ao lado dos pobres” — ou defender que a prioridade pública deve ser o olhar para os mais vulneráveis tornou-se foco para insultos e intolerância. A cidade que pensa assistiu, atônita, a pilares éticos centenários sendo atacados pelo fanatismo político.
Quatro anos depois, em 2022, o germe da intolerância em solo gravataiense avançou para a perseguição econômica direta. O método seguiu velhas e sombrias cartilhas da história: listas com “comerciantes e profissionais liberais esquerdistas” passaram a circular em grupos de WhatsApp acompanhadas pelo boicote cego — “Eu não vou comprar mais nem uma bala”. Uma tática amoral e criminosa (enquadrada como injúria eleitoral no artigo 326 do Código Eleitoral) que remeteu diretamente às práticas de segregação civil e econômica impostas às minorias na Alemanha dos anos 1930. Era a demonstração cabal do que Hannah Arendt conceituou como a “banalidade do mal”: o preconceito e o cancelamento praticados por cidadãos comuns, no seu cotidiano, sob a justificativa do dever ou da fé.
Hoje, às vésperas de mais uma disputa eleitoral decisiva, a “guerra santa” tomou conta do debate nacional, atingindo o ápice do absurdo.
Tudo ganhou tração após declarações da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) prometendo, em um subjetivo tom triunfalista neopentecostal, que seu primeiro ato de governo seria um decreto proclamando que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Nos bastidores da fé e da política, a retórica caiu como uma provocação direta à tradição católica e à devoção mariana. Como observou o analista político Roque Citadini, no meio neopentecostal fundamentalista, essa promessa é lida como uma vitória sobre o que definem como “idolatria”, visando ao apagamento simbólico de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil.
O apocalipse se insinuou quando a jornalista Maria Cristina Fernandes, da GloboNews, relatou o mal-estar e a reação que corria nos bastidores católicos diante desse avanço teocrático. A informação jornalística resgatava a memória de uma pauta histórica e real de um apóstolo do ‘Evangelistão’: o Projeto de Lei nº 493/2007, de autoria do ex-deputado Professor Victório Galli — depois assessor de Jair Bolsonaro —, que tentava retirar de Nossa Senhora o título de padroeira oficial do país para torná-la “padroeira apenas dos católicos”.
Em vez do debate político maduro, acionou-se a máquina de triturar reputações, o aparelhamento das togas e a censura estatal.
A reação jurídica aos questionamentos sobre a figura da Padroeira descambou para o que o jornalista Reinaldo Azevedo classificou como uma autêntica “comédia de erros” — ou uma barafunda digna dos episódios de A Compadecida.
Entrou em cena primeiro o ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) André Mendonça. Atendendo de forma monocrática ao pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, o “terrivelmente evangélico” ordenou a remoção em bloco de mais de 1.100 publicações na internet. Entre elas, análises jornalísticas, comentários e postagens humorísticas — como a do comediante Antonio Tabet: “A família miliciana odeia tanto mulher preta que resolveu atacar Nossa Senhora”. Flávio Bolsonaro vestiu a carapuça e Mendonça promoveu, como descreve o jornalista, um “postcídio em massa”, praticando censura prévia escancarada contra os artigos 5º e 220 da Constituição Federal.
Acionado por meio da Reclamação 95.295 no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Flávio Dino cassou a liminar de Mendonça e restabeleceu a liberdade de expressão e a autoridade da ADPF 130 (que pôs fim à Lei de Imprensa). Em sua decisão, deu um choque de legalidade ao lembrar que não cabe ao Poder Judiciário inventar presunções subjetivas para antecipar censuras preventivas.
Contudo, a restauração das garantias durou pouco. A defesa da campanha bolsonarista buscou um relator de conveniência e acionou o ministro Luiz Fux por meio de petições incidentais na ADPF 403 e no RE 1.057.258 — processos que tratam do artigo 19 do Marco Civil da Internet.
O “In Fux we Trust” da Lava Jato aceitou a tese e autoproclamou-se uma espécie de “relator universal” da internet no país, como também descreve Reinaldo Azevedo. Em decisão monocrática tomada na calada da noite, cassou a liminar de Dino sob o pretexto de “evitar risco sistêmico” às eleições, ressuscitando a mordaça e a exclusão em massa das 1.125 postagens. Como pontuou o jornalista, criou-se um paradoxo institucional: o mesmo Fux que se mostrou leniente e complacente com articulações golpistas e com os invasores que depredaram os tribunais em 8 de janeiro agora se revela implacável contra comediantes e cidadãos que fazem sátiras sobre o uso político da religião.
Para agravar o clima de conluio institucional, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, chegou a enviar um ofício ao presidente do STF, Edson Fachin, queixando-se de uma suposta “captura institucional” promovida por Dino e sua turma (não a “Turma do KM”, das mensagens de Don Vorcaro) — e marcando julgamento sobre o tema para esta quarta-feira (30), no TSE.
Como ponderou o jornalista Renato Rovai, a sequência de atropelos e o silenciamento impostos pela Justiça Eleitoral e por Fux expõem o tamanho do risco defensivo da democracia brasileira. O silenciamento das vozes críticas e os ataques direcionados até mesmo à Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) mostram que a instrumentalização da fé não reconhece limites éticos nem constitucionais.
Ao fim, resta este artigo para lembrar. Reputo que, quando as Irmãs do Dom Feliciano escreveram em 2018 que “Ainda é tempo”, deixaram uma advertência que reverbera com precisão absoluta hoje.





