Davi Severgnini — ex-secretário da Fazenda de Gravataí por 11 anos, peça-chave na sucessão municipal para 2028 e secretário de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano do Estado — reagiu a uma fake news publicada nesta terça-feira (29) por comunicador de Gravataí.
A matéria apontava que Davi estaria deixando o governo Eduardo Leite e se afastando definitivamente da vida pública para “cuidar da saúde” e retomar a advocacia, citando supostas confidências de que ele “não queria mais saber de política”.
A fonte é sempre aquela do off protegido pela desonestidade intelectual: o “círculo íntimo” — mesmo que a veracidade da informação esteja mais próxima ao que remete, no imaginário de quinta série, a expressão entre aspas.
Em entrevista exclusiva ao Seguinte:, o secretário de Estado deixou de lado sua característica discrição, combinando a revelação de um drama pessoal com uma conexão de alto peso político.
“Não sou daqueles que expõem estado de saúde em praça pública para faturar eleitoralmente buscando empatia das pessoas”, disse, em uma primeira fala que, no decorrer da entrevista, obviamente busca representar uma bala achada, não perdida.
A narrativa até então guardada sob sigilo familiar veio à tona com detalhes pedagógicos. Em abril deste ano, ao investigar um cálculo na vesícula, uma ressonância identificou um nódulo no pâncreas. A biópsia confirmou um tumor neuroendócrino — o mesmo tipo raro que acometeu Steve Jobs (que optou por não operar) —, no seu caso de grau 2 (intermediário). “Eu, minha esposa e meu filho optamos pela cirurgia. Era um tumor do tipo em que a descoberta ao acaso, antes dos sintomas, é a única chance real de cura. Resolvi aproveitar a oportunidade que o destino me deu e retirar o tumor antes que fosse tarde demais”, conta, sobre a intervenção no pâncreas, realizada em agosto.
Conforme informou Davi, em sua sala na Sedur, o laudo médico é de “curado”, sem necessidade de radioterapia e sob acompanhamento preventivo semestral.
Reputo que o abjeto da fake news, contudo, não reside apenas na imprecisão técnica sobre um pedido de demissão do governo, mas no efeito social da desinformação. “Independentemente da motivação política, a matéria mentirosa do blogueiro me faz sentir na pele o preconceito social que sentem aqueles que enfrentam o câncer. Te tiram da vida pública, te colocam num limbo social”, lamentou Davi. “Fosse um câncer, enfrentaria”.
Ao contextualizar a origem do ataque, Davi não tratou o episódio como um mero erro jornalístico, mas como extensão de um modus operandi que já está sob investigação da Polícia Civil. “São tempos de gabinete do ódio na prefeitura, mas não supunha que os tentáculos do gabinete do vice-prefeito ultrapassavam os limites do Centro Administrativo. Não há como dissociar”, disse.
A acusação ressoa as recentes investigações da Operação Persona, deflagrada pelo Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DERCC). Como registrei e analisei no Seguinte: em uma série de artigos, a operação mirou uma servidora ocupante de cargo em comissão (CC) na assessoria do gabinete do vice-prefeito Dr. Levi Melo — e dirigente partidária —, suspeita de gerenciar perfis falsos impulsionados para ataques não só políticos, mas pessoais e contra a família do então deputado estadual Dimas Costa e outros políticos da base aliada do prefeito Luiz Zaffalon.
A gravidade daquele enredo culminou com a exoneração da assessora por Zaffa — gesto necessário para proteger a máquina pública da suspeita de ter sua estrutura ou sinal de internet instrumentalizados para crimes cibernéticos.
“Pergunto: qual postagem o blogueiro fez sobre a operação policial e o inquérito envolvendo o gabinete do vice-prefeito?”, instiga Davi. “Agora, comete uma fake news contra mim”.
O episódio acontece enquanto circulam no meio político informações de que Dimas Costa, de quem Davi é aliado, constituiu advogado para ter acesso ao inquérito; algo óbvio e natural para uma vítima.
Procurado pelo Seguinte:, o vice-prefeito disse não ter nada a ver com a publicação. “Tenho uma baita relação com Davi. Ambos estamos nos recuperando. Não existe gabinete do ódio”, disse Levi, que também se recupera de uma doença rara, a mielite auto-imune.
Fato é que, se a intenção dos operadores de bastidor era rifar prematuramente o nome de Davi das urnas e dos gabinetes, aí a bala foi perdida. Quem conhece a trajetória do gaúcho de Três Passos — que nos 14 anos de gestão municipal foi o ‘gerentão’ do cofre, o ‘Zaffa do Zaffa’ e o arquiteto da megacoligação de 11 partidos que reelegeu Zaffalon (e Levi) em 2024 — sabe que a articulação é o seu habitat natural.
Desmentindo ponto por ponto a tese da aposentadoria forçada, Davi confirmou: continua na coordenação da campanha de Gabriel Souza ao Governo do Estado, na liderança da candidatura de Dimas Costa a deputado estadual e com suas pretensões públicas em pleno curso; ao receber o título de Cidadão Gravataiense na Câmara de Vereadores, teve reconhecida no cartório da política a sua assinatura para a sucessão municipal.
“Desde outubro de 2024 trabalho pela eleição do Dimas, cumprindo um acordo que ajudou a reeleger o governo. Algo que o prefeito Zaffa também faz. E em 2028 vamos eleger quem melhor representa nosso projeto político”, assegurou, reiterando o pacto do grupo político que conecta o Palácio Piratini ao Centro Administrativo de Gravataí — e fez Dimas apoiar a reeleição e não concorrer a prefeito.
Ao fim, que a Legião da Má Vontade é uma instituição consolidada da política, todos sabemos. Agora, secar a saúde de alguém para faturar politicamente é uma modalidade que se inaugura em Gravataí — ao menos na história recente, salvo engano.
A política pode até ser o reino do pragmatismo e da discórdia, aquilo que chamo de ‘estreitamento de inimizades’, mas quando a luta contra um tumor vira munição para subjugar o outro, a fronteira do aceitável não é apenas ultrapassada: ela é soterrada pela canalhice.
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