RAFAEL MARTINELLI

O Cidadão Davi: Por que o ‘Zaffa do Zaffa’ teve a firma reconhecida para a sucessão de 2028 em Gravataí

Davi com o filho, Ávila e Dimas, recebendo na Câmara o título de cidadão

Em noite de pesos pesados da política de Gravataí recebendo o título de cidadão gravataiense, a indicação de Davi Severgnini (PSD) em sessão solene nesta quarta-feira (22) merece análise própria. A indicação veio do vereador Cláudio Ávila (Avante), o que também guarda simbologia, ao lado das ausências temporárias, que me fazem lembrar Millôr: “os ausentes são mortos temporários”.

Davi, hoje secretário de Desenvolvimento Urbano do RS, e trabalhando a dois andares do governador Eduardo Leite (PSD) no Palácio Piratini — em uma das pastas mais poderosas do Estado no pós-catástrofe climática, resgatando Gravataí ao primeiro escalão gaúcho após 16 anos —, cumpriu 14 anos em funções estratégicas na prefeitura de Gravataí, 11 deles comandando o cofre público na Secretaria da Fazenda, onde mantinha a senha do ‘cartão black’ municipal.

Como ele próprio fez questão de lembrar, passou pelo governo interino do falecido Acimar da Silva (MDB), pelos dois mandatos de Marco Alba (MDB) e chegou ao segundo mandato com Luiz Zaffalon (PSD). “Homem público com quem caminho por 14 anos”, disse, referindo-se ao prefeito, com quem ficou após o rompimento de Zaffa com Marco, o ‘Grande Eleitor’ de sua primeira eleição, naquela que batizei de III Guerra Política de Gravataí — a Primeira foi entre Abílio e os Oliveiras, a Segunda entre Bordignon e Stasinski.

Não só permaneceu ao lado de Zaffa, como foi o fiador da maior aliança política da história moderna do município, com 11 partidos, 14 vereadores e o apoio do segundo colocado na eleição anterior, Dimas Costa (PSD), entregando 51,17% dos votos válidos em 2024 contra gigantes das urnas como Alba e Bordignon. Até pedir demissão do governo, em um momento de estresse com o prefeito — saindo em fevereiro sem despedida formal, sem foto protocolar, mas prometendo dedicação ao projeto do grupo.

– O Davi é uma unanimidade em Gravataí – disse Zaffa, ao nominar os demais indicados, ao receber sua própria honraria.

O fato é que Davi volta, desta vez publicamente, para onde não saiu: a corrida pela sucessão na eleição de 2028. Que já antecipei nos bastidores, em artigos anteriores, quando um grupo de vereadores se reuniu na casa do então já deputado estadual Dimas Costa (PSD) para estancar rumores de racha, e depois, quando a primeira agenda de Davi como secretário de Leite foi no gabinete do prefeito de Gravataí, ao lado de Zaffa e Dimas. Movimento que ganhou contornos práticos de gestão recentemente, quando Davi assinou com Zaffa convênios de mais de R$ 20 milhões em obras, viabilizando o acesso ao Instituto de Tecnologia e Computação (ITEC) — a ‘Caltech gaúcha’, aposta privada de R$ 400 milhões para transformar a matriz econômica local.

– O Davi é meu candidato – sempre repete Dimas, que no discurso de agradecimento de Davi recebeu deferência como aquele que chamo de ‘embaixador’ do governador Eduardo Leite (PSD) em Gravataí.

Davi é, nesta eleição, ao lado de Zaffa, fiador da pré-candidatura de Dimas a deputado estadual.

E, como também já descrevi em artigos anteriores, experimenta uma aparente reconstrução da proximidade com Zaffa, com gestos de ambos os lados. Antes do afastamento de bastidores, eu chamava Davi de ‘Zaffa do Zaffa’, por também ser um outsider das urnas, como foi Zaffa em sua primeira eleição.

A indicação por Ávila também guarda seu símbolo, para além da justificativa de que “foi o melhor secretário da Fazenda da história de Gravataí” e “em dois meses no governo estadual já trouxe R$ 20 milhões” para o município. O vereador é um dos principais articuladores da Câmara. Não por acaso, já recebeu do comunicador Chico Pereira a alcunha de “encantador de serpentes”. Se há algum movimento político, barulhento ou silencioso, no parlamento, há de se identificar o sibilar do pungi soprado pelo advogado e também assessor especial da prefeita de Cachoeirinha, Jussara Caçapava.

E o pungi anda tocando, pelo que apurei.

Dois anos até a eleição de 2028 representam uma eternidade na política. Mas a construção de candidatura em uma cidade que carrega o sobrenome GM, ganhou como apelido Mercado Livre e tem sido o principal destino de investimentos em logística no Rio Grande do Sul, não permite aventuras de véspera. Os movimentos já estão acontecendo.

O momento indica que vereadores da base do governo respeitarão a opinião da caneta bic e do cafezinho quente do prefeito na escolha da cabeça de chapa, mas se articulam para que o vice saia da Câmara.

Neste contexto, as semanas que circundam a indicação do título para Davi isolaram uma personagem que sempre aparecia no topo das listas para vice: Bombeiro Batista (Republicanos), vereador mais votado nas duas últimas eleições e com uma pré-candidatura a deputado estadual que divide a base de Zaffa (que tem Dimas como seu escolhido).

Na aprovação do título, Bombeiro não votou. Exatamente no momento em que se votava a honraria para Davi, entre 21 escolhas, a internet do vereador teria falhado. Por motivos que só ele pode explicar, Davi ajudou a trazer o episódio à memória ao, em seu agradecimento ontem, dizer que foi aprovado por “quase” todos os vereadores. Bombeiro ter saído do plenário antes do discurso de Davi, apesar de antes tê-lo cumprimentado, não colabora para uma leitura de que coincidências acontecem na política.

– Está isolado – resume um vereador, sob a condição de anonimato, revelando também a desconfiança de que o parlamentar emite sinais à oposição representada por Marco Alba, que deve ser o principal adversário do grupo de Zaffa em 2028.

Ao fim, Davi, com o título, “é de Gravataí”. E, no cartório da política, teve reconhecida a firma de que pode ser o ‘Zaffa do Zaffa’, mesmo que tenha na órbita do governo nomes de peso, como Dimas, que diz que, eleito deputado em 2026, não concorre e apoia Davi; o atual vice-prefeito Dr. Levi Melo (Podemos); o presidente da Câmara Dilamar Soares (Podemos), o Dila; e até o ex-deputado federal Jones Martins (MDB), outro que recebeu título de cidadão na noite de ontem e, ao elogiar Zaffa por ter “devolvido diálogo” à política de Gravataí, afirmou pela primeira vez publicamente que não concorda com a decisão de seu partido — e de Marco Alba e da deputada estadual Patrícia Alba — de fazer oposição ao governo.

Se quando chegou à prefeitura lá em 2013, em perfil que escrevi sobre ele, Davi pediu para não mencionar que fora paraquedista profissional na juventude, para não parecer que ‘caiu de paraquedas’, o tempo, o trabalho, as articulações e entregas — hoje postadas em redes sociais que não tinha até poucos meses — trataram de acionar o ripcord. Fato é que o verbo foi dito, a firma foi reconhecida, e o quadro de 2028 começa a pousar no terreno da base do governo Zaffa II.


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