É o subterrâneo do extremismo — com suspeito de Canoas — exposto até no Fantástico. A divulgação de uma rigorosa investigação da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) trouxe à tona um plano com o cheiro das redes antissociais: a articulação de atentados violentos previstos para o período eleitoral deste ano, com alvos estratégicos em Brasília, incluindo a exploração de artefatos explosivos no Palácio do Planalto e no edifício onde está previsto o debate de segundo turno entre os candidatos à Presidência da República.
A operação, denominada Rede Interrompida, cumpriu mandados de busca e apreensão em oito cidades espalhadas por cinco estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Pernambuco. Como já escrevi em artigo anterior no Seguinte:, o caso ganha contornos de urgência local: um dos alvos da ação é um morador de Canoas.
Trata-se de um jovem de 23 anos, desempregado, sem antecedentes criminais e morador do bairro Rio Branco. Na residência do investigado, a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) apreendeu a capa de um colete balístico, material que seguiu para perícia.
Mas o que se escondia por trás do perfil digital desse e de outros investigados espalhados pelo país não era mero desabafo de redes sociais ou prática inofensiva. Era a engenharia minuciosa da violência antidemocrática.
Conforme detalhado domingo em reportagem do Fantástico, a investigação partiu de um monitoramento rigoroso do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, em articulação com a PCDF, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e as polícias civis dos estados.
Os investigados — homens com idades entre 19 e 31 anos — utilizavam grupos restritos no aplicativo Telegram e ambientes da dark web. O grupo principal contava com mais de 600 integrantes; aqueles que demonstravam maior grau de radicalização eram triados e migravam para uma célula restrita de 46 pessoas. Ali, o tom deixava de ser meramente ideológico e passava a ser instrucional.
Entre o material compartilhado, os policiais e peritos identificaram manuais e instruções táticas, com guias para a fabricação caseira de explosivos, coquetéis Molotov e cálculo de custos e insumos para os ataques; mapeamento e plantas baixas, com troca de mapas e modelos tridimensionais dos edifícios da Praça dos Três Poderes, com destaque para a planta baixa do Palácio do Planalto, acompanhada de instruções sobre pontos de entrada e rotas de fuga; um plano contra o debate do 2º turno, com mensagens explícitas discutindo a exploração de bombas no prédio onde ocorrerá o debate presencial entre os presidenciáveis; e a identificação com ideologia de ódio, a partir da abundância de conteúdos misóginos, homofóbicos, racistas e de apologia ao neonazismo — um dos grupos utilizava inclusive a foto de Adolf Hitler na imagem de perfil.
Em Brasília, as buscas apreenderam armas e a bandeira confederada — símbolo historicamente associado ao supremacismo e ao segregacionismo. Entre os demais alvos, figura até mesmo um seminarista ligado a um mosteiro em Pernambuco.
Como resumiu o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, a sociedade não pode minimizar tais condutas: “Não eram práticas inocentes. O que estava ali sendo engendrado eram atentados sérios. O sentimento do extremismo será sempre contra o pluralismo”.
Os investigados responderão por associação criminosa, incitação ao crime, apologia e distribuição de material nazista, além de enquadramento na Lei de Terrorismo — cujas penas podem chegar a 30 anos de reclusão.
Do ‘Punhal’ ao ‘Tiu França’ — e a explosão como presente de Natal
Para compreender o alcance e a gravidade da Operação Rede Interrompida, é preciso afastar o reducionismo analítico. Este plano não surge no vácuo, tampouco pode ser lido como um “fato isolado” de mentes perturbadas. Ele é fruto direto de uma engrenagem golpista e extremista que vem sendo alimentada no Brasil nos últimos anos.
Basta rebobinar a fita da nossa história recente. Só para restar em 4 episódios:
1. Dezembro de 2022: A noite de caos e violência em Brasília após a diplomação da chapa eleita, Lula e Alckmin, com tentativa de invasão da sede da Polícia Federal e ônibus incendiados.
2. Véspera de Natal de 2022: A tentativa de explodir um caminhão-tanque carregado de combustível nas imediações do Aeroporto de Brasília, arquitetada por frequentadores dos acampamentos golpistas na frente dos quartéis.
3. O ‘Punhal Verde e Amarelo’: Documento elaborado em novembro de 2022 por integrantes das forças especiais do Exército, que desenhou minuciosamente o sequestro e assassinato do presidente eleito, de seu vice e do ministro Alexandre de Moraes para impor uma ruptura institucional.
4. Novembro de 2024: O atentado promovido por Francisco Wanderley Luiz, o “Tiu França” — candidato derrotado a vereador pelo PL —, que detonou explosivos na Praça dos Três Poderes e se autoexplodiu diante do STF.
Como venho sustentando em artigos anteriores, ao me associar às análises dos jornalistas Reinaldo Azevedo e Leonardo Sakamoto, a tentativa de vender a tese da “pacificação nacional” por meio da anistia ou da passada de pano sobre os arquitetos do golpe de 2022/2023 é uma falsa solução. Trata-se da solução bastarda para uma impostura chamada “polarização”.
Não há equivalência moral entre democratas e fascistas. Do ponto de vista prático, pouco importa se o executor da ponta tem desvios psicológicos ou se age como ‘lobo solitário’. O exemplo e o incentivo que vêm de cima ativam os gatilhos para que sujeitos comuns — seja o chaveiro de Santa Catarina, o eletricista de Samambaia ou o jovem de 23 anos do bairro Rio Branco, em Canoas — encontrem um sentido para a sua paranoia e acreditem estar agindo como “heróis” ou “mártires”.
Ao fim, tal como a impunidade das lideranças da ditadura militar de 1964 deixou sementes que germinaram na tentativa de golpe recente, a condescendência com aqueles que atentaram contra o Estado Democrático de Direito serviria apenas para subsidiar uma permanente fábrica de terroristas para as próximas décadas.
A verdadeira pacificação do país não virá do esquecimento, do diálogo fingido ou do perdão aos golpistas sob a desculpa de “abaixar a temperatura”. O país só se pacificará quando todos os que resolveram empreender uma guerra contra as instituições — dos mentores intelectuais e financiadores fardados aos operários civis radicalizados no Telegram — pagarem rigorosamente por seus crimes na forma da lei.
O fato de hoje os principais envolvidos na trama golpista de 2022 e 2023 responderem a processos, estarem presos ou cumprindo pena manda um sinal institucional indispensável. Mostra que o Estado brasileiro, através de suas polícias, da Inteligência e do Judiciário, decidiu que “não vai pagar para ver”.
A desarticulação da célula extremista nesta semana prova que a vigilância precisa ser permanente. Para que a democracia brasileira não continue refém de alucinados com manuais de bomba em mãos, a resposta das instituições deve continuar sendo a mesma: aplicação inflexível da lei, sem espaço para a impunidade.






