Há projetos que atravessam gestões. Outros atravessam décadas. O do rebaixamento do Trensurb em Canoas estava no PAC de 2011. Caro. Parado. Engavetado. Airton Souza decidiu fazer o que prefeitos precisam fazer quando o custo inviabiliza o sonho: mudar o sonho. Em vez de rebaixar 2,4 quilômetros da linha na região da estação Mathias Velho, sugeriu elevar.
Mais simples. Mais barato. Mais exequível.
E, ao que tudo indica, politicamente circulou bem.
O prefeito esteve em Brasília e levou a pauta ao Ministério das Cidades. Reuniu-se com o secretário nacional de Mobilidade Urbana, Denis Andia, com o presidente da Trensurb, Nazur Garcia, e com o vereador Gabriel Constantino.
O Ministério sinalizou apoio e demonstrou abertura para construir o projeto em conjunto com a Prefeitura. Mais: reconheceu que a estrutura atual do trem interfere diretamente no fluxo viário e na integração entre bairros, prejudicando o deslocamento da população.
Ficou encaminhada reunião técnica presencial ainda em março para iniciar formalmente a elaboração do projeto e viabilizar o enquadramento em linhas de financiamento federais.
Traduzindo: saiu do discurso e entrou no cronograma.
Em março do ano passado, Airton procurou a Trensurb com uma provocação técnica. O projeto original previa o rebaixamento do trem — solução estrutural, porém de custo elevado.
– Sugeri elevação. Chamaram os técnicos. Em novembro vieram aqui com projeto digital, dizendo que há possibilidade técnica e custa menos da metade do rebaixamento – relatou o prefeito.
Menos da metade.
Airton já afirmou que pretende protocolar o projeto no Ministério das Cidades e buscar inclusão no PAC do governo federal. Quando o ministro Renan Filho esteve em Canoas, apresentou a ideia e recebeu a sinalização de que haveria acompanhamento político até o ministro das Cidades.
Portas abertas.
Outra, da ‘obra invisível’
A grande obra de Airton continua sendo invisível — diálogo institucional.
Prefeito pelo PL, partido de oposição formal ao governo Lula, ele tem escolhido a ponte em vez da trincheira. Conversa com Brasília. Chama Paulo Pimenta de “parceiro”. Conversa com o Piratini. Recebe Eduardo Leite sem soberba. Conversa com quem precisa conversar.
No caso do Trensurb, isso faz diferença.
O rebaixamento era um projeto grandioso. Também era financeiramente inalcançável no curto prazo. A elevação não tem o mesmo simbolismo monumental — mas pode ter mais chance de sair do papel.
E há um detalhe político relevante: ao defender celeridade na construção da solução, tanto o Ministério quanto a Prefeitura alinham discurso técnico. O problema deixou de ser bandeira local e virou pauta federativa.
Se avançar, a elevação do trecho pode redefinir o eixo urbano de Canoas, reduzir gargalos históricos e integrar bairros que hoje convivem com a barreira física da linha férrea.
Não é obra de selfie. É obra de estrutura.
Airton já disse que dedicará seus dias de mandato a isso. Pode parecer ambição excessiva. Pode ser estratégia. Mas, em Brasília, a ideia encontrou algo difícil: receptividade técnica e sinal verde político.
No Brasil de polarizações automáticas, talvez a maior inovação seja propor algo mais barato — e conversar com quem decide.
A elevação ainda não saiu do papel. Mas, pela primeira vez em anos, o projeto parece ter deixado de estar rebaixado.
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