Acerta o prefeito de Canoas, Airton Souza (PL), em trabalhar com a ‘ideologia dos números’, mas também com a ‘ideologia da tragédia’, quando trata do déficit bilionário de Canoas. Os conceitos sobre estas ‘ideologias’ são meus, não dele. E tento explicar neste artigo.
Ao podcast Outro Olhar, do jornalista Cleber Benvegnú, o prefeito dividiu o bilhão entre a conta do passado e a conta da enchente de 2024.
– Amenizamos um pouco. Com muita austeridade – disse, aparentemente minimizando a projeção ambiciosa já anunciada pelo governo de zerar até 2027 ao menos a conta pré-enchente.
É um diagnóstico raro e honesto.
Ao admitir um déficit que se aproxima de R$ 500 milhões, dobrado pelos efeitos devastadores da enchente de 2024, Airton faz o que muitos evitam: expõe o tamanho real do problema. Sem maquiagem, sem lacração de rede antissocial.
Insisto: o caso de Canoas não é apenas fiscal. É quase geológico.
Uma cidade que já vinha pressionada por déficits recorrentes — entre R$ 300 milhões e R$ 450 milhões nos últimos anos — foi atingida por uma catástrofe que alagou até 70% do território e, quando se soma o público ao privado, gerou perdas próximas de R$ 900 milhões. Uma bomba não atômica, mas de água, sobre uma estrutura já fragilizada.
E isso muda tudo. Antes da água, havia a conta. Depois da água, houve a fatura. E nem entro aqui na crise política que obriga prefeitos a voar até os tribunais de Brasília para não cair da cadeira.
A enchente não apenas destruiu casas, empresas e infraestrutura. Ela corroeu a base econômica da cidade: reduziu arrecadação, aumentou gastos emergenciais e empurrou Canoas para um cenário onde ajuste fiscal e reconstrução precisa coexistir. O que, na prática, significa andar sobre as águas na gestão pública.
De um lado, o esforço técnico: uma economia de até R$ 14 milhões por mês com contingenciamento, a revisão de contratos e cortes estruturais, a projeção de reduzir o déficit para cerca de R$ 250 milhões, além da meta de zerar o rombo até 2027.
Do outro, a realidade concreta: hospital inundado e crise na rede hospitalar, milhares de famílias recomeçando do zero, infraestrutura urbana em processo de reerguimento e — sob o fantasma da depressão que assombra tragédias — pressão social por respostas rápidas.
Certo ou errado, trabalho com um conceito, que insisto neste artigo: Prefeitura não é banco.
Não pode, simplesmente e com o perdão pela infâmia, “fechar a torneira”. Não atinge o ‘espírito público’ apenas agir como o gerente do banco que diz para o pobre que ele só vai ter seu empréstimo caso comprove não ser necessário.
É aqui que a gestão de Airton se torna mais complexa.
Ao mesmo tempo em que corta gastos, a prefeitura mantém políticas que, em outro contexto, poderiam ser vistas como expansionistas, como a tarifa zero no transporte público (custando cerca de R$ 6 milhões por mês), ou obras de proteção contra cheias com recursos próprios, como o dique do Mato Grande, além de, principalmente, a manutenção de serviços essenciais, especialmente numa rede hospitalar que ajuda a salvar Porto Alegre e a região metropolitana do caos.
É uma equação que desafia qualquer manual clássico de ajuste fiscal. Aí, insisto mais uma vez: Canoas não é um caso clássico.
A tragédia como variável econômica
O que chamo ‘ideologia da tragédia’ não é retórica. É uma variável concreta de gestão.
A enchente criou uma dívida invisível: famílias endividadas, empresas fragilizadas, aumento da judicialização por indenizações e perda de patrimônio acumulado por décadas.
Essa conta não aparece integralmente no orçamento, mas pressiona cada decisão.
E, nesse ponto, Canoas se aproxima de um debate nacional. E aqui temos um daqueles ‘Grandes Lances dos Piores Momentos’ da política. Ao menos da política que ignora os fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos.
O ministro Fernando Haddad tem insistido que déficits não podem ser analisados isoladamente, sem considerar heranças fiscais e necessidades sociais. Ao justificar o cenário do governo Lula, ele fala em “regularizar contas” enquanto mantém políticas públicas, como o Bolsa Família, ou Minha Casa Minha Vida, que restavam com orçamentos zerados pela gestão anterior.
Airton, de um partido adversário, o PL de Bolsonaro, faz algo semelhante em escala municipal.
Sem discurso ideológico. Por necessidade.
Se há uma marca da atual gestão, ela não está apenas nos números. Está no método.
Airton construiu uma estratégia baseada em diálogo institucional com governo estadual, federal e diferentes atores políticos. Em um cenário de baixa capacidade de investimento (cerca de 6% do orçamento), isso não é escolha. É condição de sobrevivência administrativa.
Sem Brasília e sem o Piratini, Canoas não fecha a conta. Simples assim.
O risco: o ajuste que não pode sufocar
O plano de zerar o déficit até 2027 é ousado. Perdoe-me o secretário da Fazenda, Victor Lopes Ávila, e o secretário de Governo, João Portella — de quem por mais de década conheço de perto a intimidade com os números, tão afiada quanto o domínio que tem das finanças de Canoas —, mas há um risco evidente: o de que o ajuste, se levado ao limite, acabe comprometendo justamente a recuperação da cidade.
Insisto pela terceira vez: Canoas não precisa apenas equilibrar contas. Precisa reconstruir uma cidade. E isso custa.
Canoas virou um laboratório involuntário de gestão pública em cenário extremo, com déficit estrutural, catástrofe climática, pressão social, necessidade de investimento e limitação fiscal.
A resposta de Airton tem sido combinar rigor fiscal com manutenção de políticas públicas, numa aparente tentativa de equilibrar planilha e realidade. Não é um caminho confortável. Mas talvez seja o único possível.
Porque, ao fim, entre a ‘ideologia dos números’ e a ‘ideologia da tragédia’, há algo que nenhuma planilha resolve sozinha: a vida real.
Órgãos de controle, como os tribunais de contas, hão de entender — ou deveriam.
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