O prefeito Airton Souza colocou prazo — e pressão — sobre o principal símbolo da reconstrução de Canoas após a enchente de 2024:
– Devemos entregar até o fim deste mês o Muro da Cassol, a primeira obra de reconstrução do Rio Grande do Sul.
A declaração transforma uma obra ainda em fase final em peça central de uma narrativa maior: a de que Canoas pode sair na frente na reconstrução do sistema de proteção contra cheias. Mas o anúncio vem acompanhado de um alerta político e fiscal: a cidade ainda depende de mais recursos estaduais e federais para concluir o conjunto completo de obras.
Com cerca de 89% de execução, o chamado Muro da Cassol é hoje a estrutura mais avançada do sistema de contenção da cidade. Localizado no bairro Rio Branco, o trecho ficou marcado como o ponto por onde a água invadiu a cidade em 2024. Agora, volta ao centro do debate — como vitrine da reconstrução.
O vice-prefeito Rodrigo Busato resume o peso simbólico da obra:
– O que estamos erguendo agora não é só um muro, é uma barreira totalmente projetada para conter cheias.
Busato vai além: trata o projeto como um divisor de águas na gestão.
– Mais do que um muro, um marco para reconstrução de Canoas.
A obra, com cerca de 108 metros de extensão e 6,5 metros de altura, entra na fase final — com concretagem, interligações com o dique do Rio Branco e ajustes estruturais em área sensível, próxima a uma adutora.
Apesar do protagonismo do Cassol, ele é apenas uma peça de um sistema maior. Segundo a Prefeitura, Canoas tem hoje obras em todos os diques existentes (Rio Branco, Mathias Velho e Niterói), construção de um novo dique no Mato Grande, modernização das oito casas de bombas e previsão de novas unidades.
– Todas as obras de reconstrução estão em andamento – afirma Airton.
Ele detalha o estágio de algumas frentes: “Niterói está 83% pronto”, “No Mato Grande estamos fazendo apenas com recursos da Prefeitura”, “Seguimos tentando aportes com os governos federal e estadual” e “O Rio Branco segue em andamento”.

A conta não fecha sem Brasília e Piratini
O número resume o tamanho do desafio: mais de R$ 500 milhões previstos para todo o sistema. É aqui que o discurso técnico vira político.
A reconstrução de Canoas — que teve cerca de 180 mil pessoas afetadas e 70% do território alagado — depende diretamente de repasses externos. Parte dos recursos já veio: cerca de R$ 179 milhões autorizados pelo Estado e aproximadamente R$ 68 milhões já repassados.
Mas nem todas as obras estão cobertas. Ainda exigem articulação — marca do estilo político de Airton. Prefeito do PL, ele mantém diálogo com o governo federal e estadual, mesmo em campos ideológicos opostos, em uma estratégia que ele próprio resume como necessidade, não escolha.
A conta é simples: com cerca de 6% do orçamento livre para investimento, Canoas não reconstrói diques sozinha.
O que está em jogo não é apenas uma obra isolada.
O projeto de reconstrução prevê um cinturão de diques em toda a Região Metropolitana de Porto Alegre, incluindo a zona norte da Capital e cidades como Cachoeirinha e Gravataí, com diques orçados em R$ 100 milhões cada e ainda em fase de atualização dos projetos.
A lógica é atualizar um sistema antigo, que falhou diante da enchente de 2024. Na prática, isso envolve elevar, reforçar e estender diques, reconstruir trechos rompidos, integrar muros, comportas e casas de bombas e modernizar o monitoramento.
É uma tentativa de adaptar estruturas pensadas décadas atrás a eventos climáticos cada vez mais extremos.
Apesar do avanço físico das obras, a pressão segue.
Moradores atingidos cobram prazos. Técnicos alertam que para o sistema interligado funcionar é preciso a conclusão de todo cinturão de diques. E a Prefeitura tenta equilibrar execução e articulação política.
– Estamos fazendo o dever de casa – avalia Airton.
No momento, o Muro da Cassol concentra algo raro na reconstrução pós-enchente: concreto visível; e expectativa concreta.
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