Seis anos depois de a Organização Mundial da Saúde declarar, em 11 de março de 2020, que o mundo vivia uma pandemia, Gravataí respira um ar diferente, mas não necessariamente mais consciente.
Os números mais recentes ajudam a contar parte da história. Em 2026, o município não registra casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por Covid. Em 2025, foram 332 casos, com 14 internações graves e dois óbitos. A vacinação segue disponível, mas longe do ideal: 9.082 doses aplicadas em 2025. No acumulado desde 2021, são 753.254 aplicações.
Os dados sugerem controle. A memória, não.
Gravataí carrega mais de mil mortos — 1.124 vidas interrompidas. Famílias que seguem incompletas. Histórias que não entraram em boletins epidemiológicos recentes porque não cabem em gráficos de normalidade.
No auge da pandemia, a cidade viu o que muitos hoje preferem esquecer: UTI lotada, hospital de campanha abarrotado, enterros sem despedida. Um container de corpos ao lado do Hospital Dom João Becker virou símbolo involuntário de uma tragédia que não cabia mais dentro das estruturas formais.
A média chegou a seis mortes por dia.
E, ainda assim, há quem trate o período como página virada — talvez porque virar a página dispense o incômodo de ler o que está escrito nela.
A própria Organização Mundial da Saúde deixou claro, lá atrás, que a classificação de pandemia não dizia respeito apenas à gravidade da doença, mas à velocidade de sua disseminação e, sobretudo, à falta de ação coordenada. No Brasil, isso se traduziu em uma tragédia anunciada: mais de 716 mil mortos.
Em Gravataí, aplicando parâmetros da CPI da Covid, ao menos uma em cada quatro mortes poderia ter sido evitada. Algo próximo de 500 pessoas. Não é opinião. São números. Os fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos.
E é aqui que este artigo deixa de ser apenas retrospectiva e passa a ser incômodo.
Porque o vírus perdeu força, mas uma de suas sequelas segue ativa: o negacionismo. A desconfiança na ciência, alimentada durante a pandemia, não desapareceu com ela. Pelo contrário. Em 2025, o Brasil utilizou menos de 40% das vacinas distribuídas pelo Ministério da Saúde. Gravataí acompanha essa tendência de baixa adesão.
A ‘covidiotia’ virou doença crônica nacional; e internacional.
O país ainda registra mortes. Em janeiro deste ano, ao menos 29 brasileiros morreram por Covid, o vírus mais letal entre os identificados no período entre síndromes respiratórias graves. A pandemia acabou no papel; o vírus, não.
Em Gravataí, há ao menos um esforço — ainda que incompleto — de preservar a memória. Existe um plano da gestão do prefeito Luiz Zaffalon, a partir de projeto tornado lei após sugestão de alunos do Colégio Dom Feliciano, para a criação de um memorial às vítimas da Covid-19, na Praça Praça Leonel de Moura Brizola, em frente ao hospital que foi epicentro da crise.
A proposta previa um concurso com artistas locais ainda neste ano. Mas o projeto foi adiado após decreto municipal de corte de gastos e congelamento de despesas, publicado neste mês.
O memorial, por ora, segue no campo das intenções — justamente quando a memória começa a rarear. E talvez não haja ironia maior.
Porque, se a pandemia ensinou algo, foi o custo de ignorar evidências, de substituir ciência por crença, de tratar a morte como estatística e não como ausência.
Ao fim, seis anos depois, Gravataí tem menos casos, menos internações, menos urgência. Mas segue com a mesma pergunta em aberto: o que será feito com aquilo que não pode — e não deve — ser esquecido?
Como “o segredo de aborrecer é dizer tudo” (Voltaire), é preciso dar nome à entidade maligna, para, como em O Exorcista (1973), exorcizar o demônio que possuia Regan. No filme, era Pazuzu. No Brasil da pandemia, reputo foi Jair Messias Bolsonaro.
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