RAFAEL MARTINELLI

Ao colocar o milhão para FniC sob investigação, Jussara atinge possível candidatura no pós-impeachment de Cachoeirinha; entenda

Jussara Caçapava foi eleita prefeita na eleição suplementar de 12 de maio

Um memorando assinado pela prefeita interina de Cachoeirinha, no dia 14 de janeiro, resta além da revisão de contratos em curso no novo governo. Tem potencial eleitoral.

Jussara Caçapava determinou a apuração de possíveis irregularidades em repasses de cerca de R$ 1 milhão à Associação Comercial de Cachoeirinha (ACC) — recursos destinados à realização da Feira de Negócios e Inovação de Cachoeirinha (FniC), em parceria com o Centro das Indústrias de Cachoeirinha (CIC).

Formalmente, o caso nasce de documentos do Controle Interno Municipal e de apontamentos do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS), que indicam inconformidades relevantes na destinação e execução dos recursos públicos.

Substancialmente, porém, a decisão também dialoga com o ambiente pré-eleitoral que se desenha na cidade após a cassação do prefeito Cristian Wasem por impeachment.

O memorando nº 766-1/2026 aponta “possíveis irregularidades envolvendo repasses à ACC, no montante aproximado de R$ 1.000.000,00”, determinando o envio imediato da documentação à Procuradoria-Geral do Município e à Unidade Central de Controle Interno, com orientação explícita para apurar responsabilidades e buscar eventual ressarcimento ao erário, nos exatos termos dos apontamentos do TCE e do próprio Controle Interno.

Na prática, a prefeita interina coloca sob suspeita um dos maiores repasses realizados para eventos empresariais na cidade — e isso não ocorre em um vácuo político.

Nos bastidores, circulam rumores de que a presidente do CIC, Neiva Bilhar, poderia vir a ser a candidata a prefeita em uma eleição suplementar neste ano, com o apoio direto de Cristian.

Não é um detalhe irrelevante.

Tanto o CIC quanto a ACC se posicionaram publicamente contra o impeachment que derrubou o ex-prefeito, alinhando-se politicamente a um governo que agora passa a ter seus principais atos reexaminados.

Ao mandar apurar o “milhão da FniC”, Jussara responde politicamente a esse cenário. Não com discurso, mas com papel timbrado, carimbo e encaminhamento aos órgãos de controle.

A mensagem é objetiva: não haverá blindagem institucional nem zonas de conforto herdadas da gestão cassada.

Como blindagem para interpretações de perseguição política, Jussara tem “comunicado de auditoria” do TCE. CLIQUE AQUI para ler o documento completo, a que o Seguinte: teve acesso.

A nota oficial da Prefeitura reforça esse enquadramento.

Sob o título “Transparência”, o governo interino informa que as medidas adotadas visam proteger o erário e cumprir determinações do TCE-RS, com acompanhamento direto do Gabinete da Prefeita.

Todos os relatórios, pareceres e despachos das apurações deverão passar pelo crivo do comando político da Prefeitura, o que amplia o peso das decisões.

Embora o memorando também trate de contratos com outras empresas — principalmente na área da saúde, além de apontamentos relativos às contas de 2022 e 2023 — é o caso da FniC que concentra maior carga simbólica e política.

Um evento vitrine do empresariado local, financiado com dinheiro público, agora submetido a uma lupa institucional em pleno rearranjo de forças na cidade.

Nota da FniC contesta apuração e afirma regularidade

Após a divulgação da medida, o Comitê Organizador da Feira de Negócios e Inovação de Cachoeirinha divulgou nota oficial contestando o enquadramento dado pela Prefeitura. O Comitê é formado pela Diretoria da Associação Empresarial de Cachoeirinha (ACC) e pelo Centro das Indústrias de Cachoeirinha (CIC).

Segundo a manifestação, os repasses de cerca de R$ 1 milhão referem-se à organização e à realização de “um dos maiores eventos de negócios do Rio Grande do Sul” nos anos de 2024 e 2025. A FniC teria reunido mais de 130 expositores e gerado, apenas durante os quatro dias de evento, mais de R$ 6 milhões em negócios.

A nota sustenta que a comunicação da Prefeitura, embora trate de uma “determinação de apuração”, “não condiz com a realidade dos fatos”, não menciona a FniC nominalmente e omite que o próprio Município também figurou como realizador do evento.

O Comitê afirma ainda que toda a prestação de contas foi realizada “dentro dos mais rigorosos critérios de ética, transparência e exatidão”, princípios que, segundo o texto, norteiam a atuação das duas entidades há mais de 40 anos.

ACC e CIC dizem permanecer à disposição dos órgãos competentes para esclarecimentos e apurações, desde que “baseadas em fatos verdadeiros”, e reafirmam apoio a iniciativas voltadas à organização e ao fortalecimento da administração pública.

Bilhar e a bola 8

O discurso oficial fala em “organização administrativa, correção de distorções e reconstrução da credibilidade da gestão municipal”.

Reputo, porém, tem — involuntariamente ou não — seu alvo eleitoral.

Ao fim, se Neiva Bilhar em algum momento cogitou concorrer, já pode estar repensando, ao experimentar a exposição que traz concorrer a um cargo público.

Com o perdão pelo trocadilho infame, fato é que, seja político de carreira ou outsider, quem se candidata a uma prefeitura inevitavelmente se coloca como a bola 8 no bilhar.

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