Um memorando assinado pela prefeita interina de Cachoeirinha, no dia 14 de janeiro, resta além da revisão de contratos em curso no novo governo. Tem potencial eleitoral.
Jussara Caçapava determinou a apuração de possíveis irregularidades em repasses de cerca de R$ 1 milhão à Associação Comercial de Cachoeirinha (ACC) — recursos destinados à realização da Feira de Negócios e Inovação de Cachoeirinha (FniC), em parceria com o Centro das Indústrias de Cachoeirinha (CIC).
Formalmente, o caso nasce de documentos do Controle Interno Municipal e de apontamentos do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS), que indicam inconformidades relevantes na destinação e execução dos recursos públicos.
Substancialmente, porém, a decisão também dialoga com o ambiente pré-eleitoral que se desenha na cidade após a cassação do prefeito Cristian Wasem por impeachment.
O memorando nº 766-1/2026 aponta “possíveis irregularidades envolvendo repasses à ACC, no montante aproximado de R$ 1.000.000,00”, determinando o envio imediato da documentação à Procuradoria-Geral do Município e à Unidade Central de Controle Interno, com orientação explícita para apurar responsabilidades e buscar eventual ressarcimento ao erário, nos exatos termos dos apontamentos do TCE e do próprio Controle Interno.
Na prática, a prefeita interina coloca sob suspeita um dos maiores repasses realizados para eventos empresariais na cidade — e isso não ocorre em um vácuo político.
Nos bastidores, circulam rumores de que a presidente do CIC, Neiva Bilhar, poderia vir a ser a candidata a prefeita em uma eleição suplementar neste ano, com o apoio direto de Cristian.
Não é um detalhe irrelevante.
Tanto o CIC quanto a ACC se posicionaram publicamente contra o impeachment que derrubou o ex-prefeito, alinhando-se politicamente a um governo que agora passa a ter seus principais atos reexaminados.
Ao mandar apurar o “milhão da FniC”, Jussara responde politicamente a esse cenário. Não com discurso, mas com papel timbrado, carimbo e encaminhamento aos órgãos de controle.
A mensagem é objetiva: não haverá blindagem institucional nem zonas de conforto herdadas da gestão cassada.
Como blindagem para interpretações de perseguição política, Jussara tem “comunicado de auditoria” do TCE. CLIQUE AQUI para ler o documento completo, a que o Seguinte: teve acesso.
A nota oficial da Prefeitura reforça esse enquadramento.
Sob o título “Transparência”, o governo interino informa que as medidas adotadas visam proteger o erário e cumprir determinações do TCE-RS, com acompanhamento direto do Gabinete da Prefeita.
Todos os relatórios, pareceres e despachos das apurações deverão passar pelo crivo do comando político da Prefeitura, o que amplia o peso das decisões.
Embora o memorando também trate de contratos com outras empresas — principalmente na área da saúde, além de apontamentos relativos às contas de 2022 e 2023 — é o caso da FniC que concentra maior carga simbólica e política.
Um evento vitrine do empresariado local, financiado com dinheiro público, agora submetido a uma lupa institucional em pleno rearranjo de forças na cidade.
Nota da FniC contesta apuração e afirma regularidade
Após a divulgação da medida, o Comitê Organizador da Feira de Negócios e Inovação de Cachoeirinha divulgou nota oficial contestando o enquadramento dado pela Prefeitura. O Comitê é formado pela Diretoria da Associação Empresarial de Cachoeirinha (ACC) e pelo Centro das Indústrias de Cachoeirinha (CIC).
Segundo a manifestação, os repasses de cerca de R$ 1 milhão referem-se à organização e à realização de “um dos maiores eventos de negócios do Rio Grande do Sul” nos anos de 2024 e 2025. A FniC teria reunido mais de 130 expositores e gerado, apenas durante os quatro dias de evento, mais de R$ 6 milhões em negócios.
A nota sustenta que a comunicação da Prefeitura, embora trate de uma “determinação de apuração”, “não condiz com a realidade dos fatos”, não menciona a FniC nominalmente e omite que o próprio Município também figurou como realizador do evento.
O Comitê afirma ainda que toda a prestação de contas foi realizada “dentro dos mais rigorosos critérios de ética, transparência e exatidão”, princípios que, segundo o texto, norteiam a atuação das duas entidades há mais de 40 anos.
ACC e CIC dizem permanecer à disposição dos órgãos competentes para esclarecimentos e apurações, desde que “baseadas em fatos verdadeiros”, e reafirmam apoio a iniciativas voltadas à organização e ao fortalecimento da administração pública.
Bilhar e a bola 8
O discurso oficial fala em “organização administrativa, correção de distorções e reconstrução da credibilidade da gestão municipal”.
Reputo, porém, tem — involuntariamente ou não — seu alvo eleitoral.
Ao fim, se Neiva Bilhar em algum momento cogitou concorrer, já pode estar repensando, ao experimentar a exposição que traz concorrer a um cargo público.
Com o perdão pelo trocadilho infame, fato é que, seja político de carreira ou outsider, quem se candidata a uma prefeitura inevitavelmente se coloca como a bola 8 no bilhar.






