RAFAEL MARTINELLI

Com novos CCs nos gabinetes e gestão técnica fortalecida, Câmara de Gravataí aprova reforma administrativa por unanimidade; entenda

A Câmara de Vereadores de Gravataí aprovou por unanimidade a reforma administrativa que reestrutura a organização interna do Legislativo, cria novos cargos e institui um modelo de gestão baseado em planejamento, governança e departamentalização. O projeto, de origem da Mesa Diretora, foi votado com acordo de líderes de todos os partidos.

O impacto financeiro estimado é de até R$ 3,1 milhões até 2028, conforme a projeção orçamentária anexada ao projeto. A reforma entra em vigor no mês subsequente à promulgação pelo prefeito Luiz Zaffalon.

Coube ao vice-presidente Hiago Pacheco (PP), no exercício da presidência — já que Dilamar Soares (Podemos) está como prefeito interino até o dia 2 — conduzir formalmente a tramitação. Mas foi Dila quem fez questão de explicar publicamente o projeto que prometera desde a eleição à presidência da Casa.

O que muda na prática

A nova lei, o Projeto de Lei 18/2026, institui uma estrutura dividida entre Administração Superior e Administração Executiva, com criação e reorganização de departamentos estratégicos.

Entre as principais mudanças:

1. Criação de 21 cargos comissionados (CCs) nos gabinetes parlamentares, um por vereador, com salário de R$ 5.032,50 e exigência de nível médio;

2. Transformação dos atuais assessores parlamentares concursados — criados após o TAC de 2015 — em oficiais legislativos, que passam a atuar na estrutura administrativa;

3. Criação da Assessoria de Gestão e Governança, vinculada à Presidência;

4. Instituição do Departamento de Planejamento e Controle Financeiro, com setores de Compras, Licitações, Contabilidade, Tesouraria e Contratos;

5. Criação do Departamento de Comunicação e Memória, responsável pela imagem institucional e preservação histórica;

6. Fortalecimento do Departamento de Recursos Humanos e da Secretaria-Geral, cujas chefias serão funções gratificadas exercidas exclusivamente por servidores efetivos.

O desenho organizacional aposta em uma administração paritária: funções estratégicas como Finanças, Planejamento e Governança passam a ser exercidas por servidores do quadro efetivo; já os cargos de natureza política — como Direção-Geral e Procuradoria-Geral — permanecem comissionados.

CLIQUE AQUI para acessar a íntegra do projeto de reforma.

CLIQUE AQUI para acessar o anexo com a descrição dos cargos.

Abaixo, veja o organograma.

Governança para não “reiniciar a cada ano”

Servidor efetivo que assumirá a função de Gestão e Governança, Diego Saldanha explica que o diagnóstico era claro: havia déficit técnico na administração, o que comprometia continuidade e planejamento.

– A gestão da Câmara é anual. A cada troca de presidente, havia ruptura de projetos. O norte da reforma é que a Câmara permanece, independentemente da troca de gestões – afirma.

Segundo ele, a departamentalização responde a apontamentos históricos dos órgãos de controle e cria ferramentas para cobrança de resultados:

– É uma profissionalização da Câmara. A gestão política continua existindo, mas há agora estrutura técnica para garantir previsibilidade.

O impacto financeiro, argumenta, é inferior ao que seria necessário para realização de novos concursos públicos, uma vez que os cargos concursados existentes foram realocados para funções compatíveis com a Constituição.

O enfrentamento do TAC de 2015

A reforma também reposiciona uma herança institucional que vinha desde 2015, quando a Câmara firmou Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público para reduzir o número de comissionados.

Na ocasião, 44 cargos foram extintos e criado um cargo efetivo por gabinete, substituindo dois CCs. Na prática, porém, o modelo gerou distorções: servidores concursados, muitas vezes, ficavam ociosos quando não havia relação de confiança com o vereador da vez.

Agora, esses profissionais passam a atuar na estrutura administrativa como oficiais legislativos. Nos gabinetes, retorna a figura do assessor de indicação política.

A Câmara ingressou com ação questionando o TAC firmado em 2015. Ainda não há decisão judicial.

Limites legais e impacto financeiro

O impacto orçamentário-financeiro total previsto é de R$ 2,16 milhões em 2026; R$ 2,99 milhões em 2027; e R$ 3,11 milhões em 2028.

Mesmo com a ampliação da estrutura, o comprometimento da despesa com pessoal permanecerá entre 1,78% e 1,86% da Receita Corrente Líquida — abaixo do limite de 6% estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Na análise constitucional, os gastos com folha ficarão entre 53% e 55% da dotação orçamentária — também dentro do teto de 70% permitido para o Legislativo municipal.

Dila sustenta que parte do custo será compensada por economia anual próxima de R$ 1 milhão, decorrente da adesão de um servidor ao Programa de Demissão Voluntária (PDV), cujo impacto foi reorganizado no planejamento.

– Estamos estruturando a Câmara conforme preceitos do TCE. Departamentalizando e projetando a Casa para os próximos 40 anos. Não temos o Selo Diamante por falta de planejamento e governança. Isso está sendo corrigido – afirma.

CLIQUE AQUI para acessar o anexo do impacto financeiro.

Entre a potencial vaia e o legado

Reformas administrativas raramente são populares. A criação de cargos — ainda que acompanhada de argumentos técnicos — tende a provocar reação nas redes sociais. Em gestões passadas, mudanças semelhantes foram rotuladas como “bonde dos cargos”.

Dila sabe. E não foge do debate.

– Foi criada comissão especial com participação de servidores do quadro. Ouvi todos. O projeto foi construído em conjunto com a Mesa Diretora e aprovado por unanimidade – destaca.

Conforme o presidente eleito para a gestão 2026, o Legislativo de Gravataí segue entre os mais econômicos da Região Metropolitana, apesar de o município ser a quarta economia do Rio Grande do Sul. A reforma tenta alinhar essa relevância econômica com uma estrutura administrativa que sustente planejamento de médio e longo prazo.

É, ao fim, uma escolha política: enfrentar o desgaste imediato para corrigir uma descontinuidade crônica.

O ‘herói incômodo’, como já chamei, aposta que a institucionalidade pesa mais que o barulho.

E que governança, embora não renda aplausos instantâneos, deixa legado.


LEIA TAMBÉM

Dila dá aula de gestão na Câmara de Gravataí

Participe de nossos canais e assine nossa NewsLetter

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Conteúdo relacionado

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Receba nossa News

Publicidade