RAFAEL MARTINELLI

Dila dá aula de gestão na Câmara de Gravataí

Dilamar Soares é presidente da Câmara na gestão 2026

Em pouco mais de um mês à frente da presidência, Dilamar Soares (Podemos), o Dila, tirou a Câmara de Vereadores de Gravataí do improviso crônico para uma lógica básica de administração pública: planejamento, governança, transparência e ambiente de trabalho minimamente digno.

Parece o óbvio. Não era — em sua própria narrativa.

Um dos primeiros gestos de Dila não foi midiático, mas simbólico. Ao descobrir que uma mesa histórica do Legislativo, datada de 1880, da época do Império, havia sido jogada em um depósito e aparecido serrada, o presidente abriu sindicância imediata.

Não se trata apenas de um móvel. Trata-se da memória institucional. Em vez de “deixa pra lá”, houve apuração. Em vez de silêncio, houve ato administrativo. É o tipo de gesto que revela como será o resto da gestão.

Na sequência, vieram ações que expõem o grau de abandono estrutural da Casa. Oito novos aparelhos de ar-condicionado foram instalados. Servidores estavam levando ventiladores de casa — Dos Grandes Lances dos Piores Momentos, havia, inclusive, pedidos para instalação em gabinetes de integrantes da Mesa Diretora anterior.

Elevadores? Os três já ficaram fora de funcionamento ao mesmo tempo. Agora, há licitação aberta para manutenção permanente.

Internet? Instável a ponto de cair quando se ligava uma máquina de café. O servidor será trocado, e os arquivos passarão a ser armazenados em nuvem.

São medidas prosaicas, quase constrangedoras de listar. Mas que dizem muito sobre como restava a Câmara.

A retomada da TV Câmara desde a primeira sessão do ano foi o marco mais visível — e mais político — do primeiro mês.

Como já registrado, estava tudo parado desde junho. Dila fez uma contratação emergencial, assumiu o risco administrativo e político e deixou claro: a contratação será suspensa assim que a empresa vencedora da licitação for homologada.

Mais do que isso: as reuniões das comissões permanentes também passaram a ser transmitidas ao vivo. É nelas que projetos são analisados, pareceres são construídos e decisões relevantes amadurecem longe do plenário.

Abrir esse espaço é, novamente, decisão política.

Para completar, as comissões agora contam com assessoria jurídica, profissionalizando um processo que antes dependia quase exclusivamente da boa vontade — ou da precariedade — das assessorias parlamentares.

Estão sendo retomados um 0800 da Ouvidoria, nunca colocado em funcionamento, e projetos antigos já pagos: catracas na entrada e acessibilidade.

O “não vou passar pano”

Na assessoria direta da presidência, além do diretor-geral Diego Pereira, com currículo de ex-secretário municipal de Obras, e do procurador-geral José Luís Blaszak, ex-juiz de Tribunal Regional Eleitoral, Dila promoveu dois advogados negros — Joel Pacheco e Alex Kilage — que já eram servidores da Casa, mas ocupavam outras funções.

Não foi marketing externo: foi reconhecimento interno.

Os novos cargos comissionados que forem indicados por vereadores para gabinetes passarão, obrigatoriamente, por curso da Escola do Legislativo.

O recado é simples: cargo político não é licença para despreparo.

Na Procuradoria da Mulher, outra virada. O órgão agora tem servidora designada, uma assessora parlamentar concursada, com formação em Psicologia, dedicada ao atendimento e à escuta de depoimentos, além de estagiária.

Antes, era quase ficção institucional.

E quando chegaram relatos informais de assédio moral e sexual dentro da Câmara, Dila avisou, em reunião de líderes: vai instalar câmeras nos elevadores.

– Caso haja denúncia formal, não vou passar pano para ninguém, mesmo que seja vereador – disse, indo além: postou vídeo em suas redes sociais com a advertência.

A frase resume a gestão que ele próprio definiu como a do “por favor” e do “muito obrigado” — civilidade, com limite.

A pauta do combate à violência contra a mulher virou eixo da presidência. Está em preparação uma campanha institucional contra o feminicídio, além da instalação de bancos vermelhos no plenário — símbolo internacional criado na Itália e oficializado no Brasil pela Lei 14.942/2024.

Para março, Mês da Mulher, Dila delegou às três vereadoras a organização da programação e quer mulheres presidindo as sessões solenes.

Em um Parlamento historicamente masculino, o gesto é político.

Os R$ 40 milhões e o papel higiênico fininho

Talvez o diagnóstico mais grave: não havia estrutura mínima de planejamento e compras.

Um orçamento de R$ 40 milhões — sendo R$ 12 milhões reservados para a nova Câmara e R$ 3,5 milhões para investimentos em 2026 — era operado com um único servidor no setor de compras.

Foi necessário criar um organograma com departamentos de planejamento e governança, manutenção e patrimônio histórico, além de estruturar um departamento de compras que praticamente inexistia.

Toda segunda-feira, promove reunião com diretores. A cada 15 dias, líderes partidários. Compartilha as decisões e anúncios com o restante da Mesa Diretora: Hiago Pacheco (PP), vice-presidente; Márcia Becker (PSDB), primeira secretária; e Fábio Ávila (Republicanos), segundo secretário.

Não era regra.

– A Câmara não tem o Selo Diamante por não cumprir exigências de planejamento – lembra Dila, referindo-se ao índice do Programa Nacional de Transparência Pública.

Não está “inventando a roda”, expressão sua. Está fazendo o básico.

Até o papel higiênico melhorou. E o sabonete deixou de ser diluído em água. Pode parecer anedótico. Não é. É sinal de quem olha para a instituição por dentro.

O dia em que a Câmara pediu desculpas à Assembleia

Dila também iniciou o que chama de “resgate institucional”: agendas com Judiciário, Ministério Público, Tribunal de Contas, OAB, Acigra, Sindilojas.

Foi até o presidente da Assembleia Legislativa, Pepe Vargas, onde, em nome da Câmara, pediu desculpas pela gestão anterior ter negado o uso do plenário à AL em duas oportunidades.

Gestos que não aparecem em planilha, mas pesam politicamente.

Dila tem recebido elogios de funcionários, aliados, adversários e até desafetos históricos. Cláudio Ávila (UB) elogiou a TV Câmara. Vitalina Gonçalves (PT) destacou a Procuradoria da Mulher e a nomeação dos advogados negros. Anna Beatriz (PSD), com quem tem relação familiar distante, elogiou a atenção às mulheres.

Uma procuradora concursada resumiu, em reunião frente a vereadores: “Estou há 10 anos aqui e nunca vi isso”.

No horizonte há, porém, uma polêmica anunciada: a reforma administrativa que pode criar mais um cargo político por gabinete e regulamentar diárias. Promessa feita aos vereadores.

A criação dos cargos passa pelo plenário. As diárias, não.

Dila sabe. E não foge da responsabilidade.

– Tudo o que o Tribunal de Contas apontou ao longo dos anos está sendo resolvido. Vou usar o orçamento que temos, com bom ambiente corporativo. A Câmara não terá nada além do tamanho que merece o parlamento da quarta economia gaúcha – diz, garantindo transparência a todos os atos.

Ao fim, o ‘herói incômodo’ virou gestor. E, no primeiro mês, deu aula.

Dia 18, assume como prefeito nas férias de Luiz Zaffalon (PSD), já que o vice-prefeito, Dr. Levi Melo (Podemos), teve renovada licença-saúde pelos próximos quatro meses.

Resta preparar a casca para suportar a inevitável exposição nas redes sociais frente a pautas impopulares. Cargos e diárias nunca passam incólumes.


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