RAFAEL MARTINELLI

Como a Agência da Água e a Autoridade Metropolitana podem blindar o RS contra os ‘Super El Niños’; parabéns aos envolvidos

A maior tragédia climática da história recente do Rio Grande do Sul deixou marcas profundas, mas também impôs um alerta: a hidrodinâmica não responde a slogans e a física continua valendo — em anos eleitorais ou não. Passado o trauma imediato, o verdadeiro desafio da reconstrução não se resume a erguer barreiras isoladas ou anunciar pacotes de mitigação de curto prazo. O debate central precisa migrar da conveniência dos governos da vez para a solidez perene das políticas de Estado.

É sob essa ótica estrutural, e não partidária, que devem ser analisadas duas movimentações recentes na Assembleia Legislativa e no Palácio Piratini. Elas desenham uma mudança de patamar na forma como o Rio Grande do Sul gerencia seus recursos hídricos e protege suas populações. Não se trata de dar protagonismo a personagens políticos, mas sim de institucionalizar a gestão técnica e a coordenação metropolitana.

A aprovação do Projeto de Lei 195/2024 pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) autoriza a criação do Instituto das Águas do Rio Grande do Sul. Proposto pelo deputado Miguel Rossetto (PT), o texto cria as bases para uma autarquia com autonomia administrativa e financeira. O foco aqui é técnico e permanente: dar ao Estado a capacidade estrutural de planejar e monitorar.

Entre as atribuições desenhadas para o Instituto estão a coordenação do Plano Estadual de Recursos Hídricos, o monitoramento de águas superficiais e subterrâneas, a gestão de redes hidrometeorológicas e o apoio técnico perene aos Comitês de Bacias Hidrográficas. Além disso, caberá ao órgão a fiscalização de barragens e a mitigação dos impactos de eventos extremos, como secas e enchentes.

Como o próprio autor da proposta apontou, a estrutura visa criar uma resposta permanente de adaptação climática. Uma agência com essa envergadura retira a gestão da água da volatilidade das secretarias sazonais e estabelece uma governança baseada em dados e inteligência situacional.

O segundo pilar dessa estratégia de Estado ganhou contornos mais claros com a sinalização do governo gaúcho de que encaminhará um projeto de lei para criar a Autoridade Metropolitana. A proposta original, presente no projeto de lei 196/2025 de Rossetto, recebeu o aval do governo Eduardo Leite (PSD) por meio da Secretaria da Reconstrução Gaúcha. O objetivo é gerenciar de forma unificada o sistema de proteção contra cheias da Região Metropolitana de Porto Alegre.

Essa medida toca no ponto mais sensível da segurança regional: a coordenação. Não existe proteção plena enquanto o sistema metropolitano não estiver integralmente conectado. A água não respeita fronteiras municipais; ela não sabe onde termina Porto Alegre e começa Cachoeirinha, Canoas ou Gravataí. A água não vota, ela simplesmente encontra o seu caminho.

Atualmente, bilionários recursos federais do FIRECE estão destinados à infraestrutura e adaptação climática, mas prefeitos e comunidades sofrem com a lentidão e a fragmentação das informações. Centralizar a execução dessas obras sob uma Autoridade Metropolitana permanente garante agilidade, qualidade técnica e governança integrada. Além disso, o comitê de monitoramento proposto para acompanhar esses investimentos amplia a transparência e o controle social, blindando as obras de disputas paroquiais.

O alerta das bacias: o exemplo do Gravataí

A urgência dessa abordagem unificada fica evidente quando analisamos a vulnerabilidade de municípios lindeiros como Cachoeirinha, Canoas e Gravataí. Quando cada município tenta erguer sua barreira de forma isolada, a população com justa razão se pergunta: para onde a água irá? Essa dúvida legítima, nascida do trauma de ver cidades inteiras ilhadas, exige respostas científicas e integradas, não promessas fáceis.

O caso da Bacia do Rio Gravataí é emblemático. Trata-se de um sistema hidrológico extremamente sensível, com um desnível topográfico baixíssimo — de apenas cerca de 10 metros entre Santo Antônio da Patrulha e Porto Alegre. O ecossistema local depende de soluções complexas baseadas na preservação das “esponjas naturais”, microbarragens, ampliação de banhados e contenção do fluxo hídrico.

A lógica imediatista e o “populismo da enchente” costumam oferecer a retroescavadeira e o clamor por “desassorear tudo” como milagres hidráulicos. Mas, sem modelagem científica consistente, acelerar artificialmente o fluxo em rios de baixo desnível pode simplesmente empurrar a cheia mais rápido para jusante, piorando as inundações ou agravando o desabastecimento no verão. Por isso, intervenções na bacia exigem batimetria, modelagem hidrodinâmica e análises de longo prazo — exatamente o tipo de corpo técnico que o Instituto das Águas e a Autoridade Metropolitana devem abrigar.

Ao fim, radares, planos de contingência e aportes emergenciais são importantes ferramentas de mitigação. No entanto, nenhuma dessas medidas provisórias substitui a solidez de instituições desenhadas para durar décadas. Ao concordar com a criação de uma agência reguladora de águas e de uma autoridade metropolitana para as cheias, as forças políticas do Rio Grande do Sul começam a compreender que o enfrentamento à crise climática exige perenidade.

O tempo dos governantes é medido em mandatos; o tempo da natureza e da física opera em outra escala. Se o Estado deseja não ser surpreendido novamente, precisa fixar na lei e na técnica a engenharia de sua sobrevivência.

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