Após a publicação da reportagem do Seguinte: que mostrou nesta terça-feira documento assinado por ele próprio sugerindo acordo judicial no caso da ‘ciclovia-meme’ de Cachoeirinha, o prefeito cassado Cristian Wasem pediu, com a educação que lhe é peculiar, “direito de resposta”.
O espaço, como sempre, foi concedido, até por restar sempre aberto. Meu artigo que o ex-prefeito contesta você lê em Documento mostra: Cristian sugeriu acordo com empresa da ciclovia e agora trata como “escândalo”; veja sentença.
Na manifestação, Cristian ataca o ponto central da reportagem: a leitura de que ele teria participado da construção do acordo que hoje critica.
“Estão tentando criar uma contradição onde ela simplesmente não existe”, afirmou, em mensagem pelo WhatsApp.
Segundo ele, o memorando de 2023 — citado na reportagem — não representava decisão por acordo, mas uma consulta sobre possibilidade jurídica em um contexto específico.
“Havia uma audiência já designada, e o que eu quis saber, à época, era se existia possibilidade jurídica de conciliação. Isso é completamente diferente de decidir celebrar um acordo”, disse.
Ele sustenta que nunca formalizou o acordo — o que ocorreu neste ano, já fora de sua gestão.
Cristian afirma que sua crítica não é à existência de um acordo judicial em si, mas à forma como ele foi conduzido.
“O que eu questiono […] é de que forma chegaram aos valores pactuados e por que esse acordo foi tratado como prioridade”, escreveu.
Ele cita, como ponto central, o fato de o acordo ter sido firmado antes da conclusão de perícia judicial, que poderia — segundo ele — apontar valores menores.
“Trata-se de perguntar com responsabilidade: por que nesses valores? com base em quê?”, afirmou.
E acrescenta: “A população tem o direito de saber como decisões que envolvem milhões de reais estão sendo tomadas”.
A resposta vem na esteira da reportagem publicada hoje, que apontou que: o acordo foi homologado judicialmente em fevereiro de 2026, decisões do Tribunal de Contas e parecer do Ministério Público de Contas reconheceram valores devidos à empresa e um memorando de 2023, assinado por Cristian, indicava a composição judicial como caminho mais adequado diante do risco de derrota.
O próprio ex-prefeito não nega a existência do documento que é o ponto principal da reportagem. O que faz é reinterpretá-lo: diz que se tratava de avaliação de cenário e não de adesão à solução.
Espaço aberto — como sempre; e a ‘Pobre Cachoeirinha!’
A manifestação de Cristian também vem acompanhada de um convite ao debate.
“Se quiserem debater os fatos, eu debato com serenidade”, afirmou.
Faço um registro importante e necessário: o espaço para manifestação sempre foi concedido ao ex-prefeito, assim como à atual gestão de Jussara Caçapava, ao ex-prefeito Miki Breier, cuja gestão originou o contrato da ciclovia, e a qualquer agente público citado nessa lambança pública.
No próprio caso da ciclovia, a reportagem de hoje já trazia declarações de Cristian em tom de denúncia.
Entendo necessário o esclarecimento, porque estamos às vésperas da eleição suplementar do domingo. E narrativas de campanhas eleitorais por vezes tentam arrastar o jornalismo profissional para o terreno da briga de torcidas, ou da opinião movida a pix.
É por isso que relembro episódio da semana anterior, que reportei em Cachoeirinha pode entrar no ‘SPC das prefeituras’ por R$ 600 mil não usados na enchente pelo governo Cristian. Cristian também foi procurado e respondeu que falaria ao Seguinte: naquele dia. A resposta não veio até o momento.
Então, só para completar o parênteses, é preciso saber que a seletividade nas manifestações é prerrogativa dos políticos, não do jornalismo profissional.
Ao fim, o caso da ciclovia segue no terreno clássico da política na ‘Pobre Cachoeirinha!’, expressão que criei lá atrás, quando começou a mistura dos noticiários político e policial, no governo Miki: versões que disputam espaço sobre um mesmo conjunto de fatos.
De um lado, documentos que mostram a construção institucional de um acordo ao longo dos anos. De outro, a narrativa de que a decisão final — especialmente nos valores e no momento — precisa ser mais bem explicada.
No meio, como se fosse uma ciclovia pintada sobre um piso retrátil, a cidade.
Como opinei em Quando a ciclovia vira o maior debate eleitoral de Cachoeirinha, “criemos pânico”, quando o debate eleitoral é uma ciclovia, algo de muito errado está.






