Condenado por estelionato e contrabando na região de Uruguaiana, ainda na década passada, o homem, hoje com 45 anos, pouco antes de ter sua pena indultada, foi autorizado pela Justiça Federal a fazer uma viagem a Las Vegas. Este e outros tantos destinos turístico se tornariam rotineiros nos anos seguintes. Da fronteira, ele mudou suas atividades financeiras para Cachoeirinha e outros municípios da região metropolitana. Conseguiu, por pelo menos cinco anos, ficar distante dos olhos da justiça, mas não estava longe do crime. Na manhã da última quinta, em Cachoeirinha, foi um dos alvos principais da Operação Planum, desencadeada pela Polícia Federal, e que derrubou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro para o tráfico de drogas.
— É o principal operador do esquema. Nenhum valor da organização criminosa no Rio Grande do Sul circulava sem o conhecimento dele — diz o delegado Roger Soares Cardoso.
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Ao longo de uma década, é possível rastrear a abertura de diversas empresas por ele e, mais recentemente, em nome de pessoas próximas — do ramo de calçados a roupas e lingeries, até sociedades e investimentos em construtoras e empreendedoras da região. Eram, conforme investigou a PF, fachada para o banco paralelo aberto pelo grupo criminoso que recebia cocaína da Bolívia e repassava à Europa pelos portos catarinenses.
A PF não revela a identidade dos quatro suspeitos presos entre Cachoeirinha e Gravataí, mas os investigadores asseguram: era daqui o principal operador do banco paralelo mantido no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Cabia a este homem e às pessoas ligadas a ele abrir contas bancárias em instituições reais, organizar o fluxo do dinheiro e fazer os contatos para o bando. Além disso, a ocultação de bens e a lavagem de dinheiro também cabia a ele enquanto o principal líder do bando segue preso em Charqueadas.
— Todos os presos em Cachoeirinha e Gravataí fazem parte do ramo criado por este investigado — afirma o delegado.
Apartamento era escritório
Entre os presos, além do alvo principal, estaria pelo menos um empresário do ramo da construção civil em Cachoeirinha. O próprio agente financeiro chegou a criar a sua construtora, ao menos no papel, em 2009. O endereço original da empresa era em São Paulo, mas ultimamente — antes de uma enxurrada de ações judiciais de cobrança e despejo —, operava em um apartamento residencial próximo à prefeitura de Cachoeirinha. Neste local, o homem também operaria como agiota e, possivelmente, fosse mais do que isso, já que, conforme a investigação, o banco paralelo era controlado por doleiros daqui e de São Paulo.
Na mesma rua, em sociedade com a companheira, tinha uma loja de roupas, como chegou a informar à polícia depois de uma ação em 2017, especializada na importação de lingeries da China.
Conforme a investigação da PF, as empresas em nomes de diversos "laranjas" eram parte fundamental na operação do banco do pó que, em dois anos e meio, movimentou pelo menos R$ 1,4 bilhão. A partir das pessoas jurídicas, eram abertas contas bancárias a serem usadas para a circulação do dinheiro sujo do tráfico, incluindo remessas para fora do Brasil e de lá para cá. Ao todo, a PF estima que 500 contas foram abertas. Na operação, 121 contas jurídicas e 57 de pessoas físicas foram bloqueadas.
Prisão no litoral
A casa do operador financeiro, e de todo o topo da quadrilha, começou a cair em agosto do ano passado, quando uma ação conjunta entre a Brigada Militar e a Polícia Civil apreendeu R$ 83 mil em um casarão de Tramandaí e, durante a abordagem, um dos suspeitos ainda teria oferecido um suborno de R$ 1 milhão. Havia oito pessoas na casa que, àquela altura, estava no alvo da Polícia Federal. Estavam lá o homem apontado como o líder da quadrilha, que estava foragido na época, e o seu fiel escudeiro financeiro — mantendo uma loja de roupas também no litoral norte —, além de dois colombianos.
Meses depois daquela ação, o agente financeiro recebeu liberdade. Durante o processo, pelo menos uma testemunha de Cachoeirinha prestou depoimento e, na quinta, estaria entre os alvos da PF por agir em sociedade nos investimentos do suspeito.
No local, os policiais apreenderam uma série de documentos falsos, veículos e ferramentas que, julgavam, fazer parte da preparação para um roubo a banco. Esta suspeita não se confirmou. Na verdade, era principalmente no litoral que a cocaína era preparada em blocos de granito e concreto para ser carregada até Santa Catarina. Isso depois da primeira parte do esquema de tráfico, quando aviões traziam, em média, 500kg de cocaína por viagem, até a região central do Estado, onde a quadrilha mantinha fazendas com pistas de pouso.
O traficante apontado como líder do bando, e que teria ligações com o Comando Vermelho, já era procurado pela polícia argentina por manter, na região de Corrientes, uma operação semelhante, com pistas de pouso em uma fazenda. Este homem está preso em Charqueadas e, segundo o delegado Roger Cardoso, seguia dando ordens à quadrilha.






