Guardo-me o direito de achar a perfeição
Uma ciência chata que transparece soberba e carência
Guardo-me o direito de permanecer o mesmo
Enquanto vocês transmutam em iluminação e transcendência
Guardo-me o direito de estar a esmo
De ser o asno tocado por um anjo
Que prova da hipocrisia, mas não se empanturra
De ser aquele que urra
Entre os girassóis e os senhores dos anéis
Amo flores, mas prefiro quem faz os arranjos
Com suas unhas e pele machucada pela natureza
Amo aquele que faz prece por seu prédio e seus alicerces
Aquele que se ocupa de si
Os que são bons por acaso
Aquele que, pelo outro
Regride
Aquele que ajuda de forma silenciosa
Quase muda
Que não faz grande caso
De sua competência
No que quer que seja
O tear da chaga que nos chega
Nos dá direito à troça da dor que não é nossa?
Bem sei que todos jovens mimados devem ser enganados
Pra que os falsos profetas sigam seus papéis
Mas as sinopses dos livros sagrados não bastam
Nem a leitura tangerínica de Lorca e seus gazéis
É preciso ter o tato do abstrato
É preciso ter os defeitos como retratos
Pra se ter o paraíso.







