39 das 42 equipes diretivas da rede municipal de Cachoeirinha foram até a Câmara de Vereadores, na tarde desta terça-feira (2), para entregar pessoalmente um manifesto em defesa da educação pública — e, sobretudo, contra a instabilidade institucional provocada pelos dois processos de impeachment que hoje ameaçam o mandato do prefeito Cristian Wasem (MDB) e do vice Delegado João Paulo Martins (PP).
Uniformizados com camisetas alusivas ao movimento, diretores, vice-diretores e coordenadores da Secretaria de Educação também acompanharam a sessão plenária.
O manifesto entregue aos vereadores é direto:
“Reafirmamos nosso compromisso com a continuidade das ações e projetos educacionais que visam ao fortalecimento da qualidade da educação em Cachoeirinha nos últimos três anos”.
E faz o alerta que, no tom e no contexto, mira o coração da crise:
“Pedimos que o Poder Legislativo exerça suas prerrogativas com responsabilidade e serenidade, assegurando um processo transparente, justo e respeitoso ao devido processo legal, indispensável para a estabilidade institucional e o bom funcionamento dos serviços públicos”.
A mensagem implícita é óbvia: a educação — área sensível, carregada de indicadores e dependente de continuidade — está sentindo os efeitos da guerra política.
E, ao ocupar a Câmara, a categoria envia o recado de que “não aceitará retrocessos”.
A mobilização acontece justamente quando os dois impeachments voltam a caminhar ao mesmo tempo
A manifestação dos diretores chega num momento simbólico: os dois processos de impeachment – o 1.0 e o 2.0 – retomaram suas instruções simultaneamente, após decisões judiciais que reverteram — na sequência de 48 horas — o que seria uma, nos últimos 30 dias, rara ‘noite sem impeachments’ vivida pela cidade.
A situação de momento é:
Impeachment 1.0: liberado novamente
O juiz Cássio Benvenutti de Castro, da 2ª Vara Cível, autorizou na quinta-feira (27) a retomada imediata do processo após o prazo de cinco dias úteis para análise dos documentos do TCE e da Justiça Eleitoral.
A instrução, que estava suspensa, volta agora com oitivas, coleta de provas e novos prazos de defesa.
Impeachment 2.0: já havia voltado no dia anterior
Na quarta (26), o juiz Ramiro Kalil, da 1ª Vara Cível, já havia revogado a suspensão do Impeachment 2.0, entendendo que a Comissão Processante ampliou o prazo para apresentação de testemunhas pelo vice-prefeito.
O resultado: os dois pedidos de cassação avançam juntos e no mesmo ritmo — cenário que pressiona o governo e amplia o desgaste público.
O que está em jogo? Educação virou personagem da crise
A participação dos diretores não é só ato simbólico. É diagnóstico: a crise política, jurídica e institucional começa a atingir áreas estruturantes do município.
A pauta da educação é especialmente sensível porque aparece no centro de uma das acusações do Impeachment 1.0: supostas irregularidades na compra de telas interativas. Foi, inclusive, um dos motivos citados para abertura do processo que avançou por 13 votos a 4.
No Impeachment 2.0, mais robusto e com oito eixos de denúncia, há desde alegações de ameaças políticas a contratações suspeitas, pagamentos sem empenho e “superávits fictícios” — acusações que incluem tanto prefeito quanto vice.
E, como escrevi na última reportagem, a cada falha processual corrigida, diminui a margem para alegações futuras de nulidade — exatamente o caminho que a cassada prefeita Rita Sanco (PT), em Gravataí, tentou em 2011, sem sucesso.
A política da instabilidade permanente
A cena política está tão fragmentada que, em apenas três dias, Cachoeirinha registrou:
- terça (25): suspensão do Impeachment 2.0;
- quarta (26), manhã: suspensão do Impeachment 1.0;
- quarta (26), tarde: Impeachment 2.0 liberado;
- quinta (27): Impeachment 1.0 liberado.
Por algumas horas, a cidade viveu a ‘utopia’ — ou ironia — de não ter nenhum processo de cassação ativo. Mas durou pouco. A frase já virou quase uma crônica política: Cachoeirinha não dorme nem uma noite sem impeachments.
A mobilização dos diretores, portanto, precisa ser lida no ambiente de um Executivo politicamente fragilizado, um Legislativo em guerra aberta e um serviço público que tenta manter a normalidade apesar das tensões.
É reação institucional de quem vê avanços recentes sob risco de descontinuidade.
O que pode acontecer agora
Com os dois processos correndo, as comissões devem:
- reagendar oitivas;
- retomar diligências;
- reabrir prazos de defesa;
- enviar peças ao Ministério Público;
- e, se mantido o ritmo, levar um ou os dois pedidos de cassação ao plenário ainda neste ano.
Para cassar prefeito e vice, são necessários 12 dos 17 votos — número já registrado nas admissibilidades.
Enquanto isso, diretores e servidores deixam claro que, se a política não consegue um mínimo de estabilidade, eles pretendem ocupar o espaço — e ser o ponto de equilíbrio.
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