Quando resta evidente que não há Mágico de Oz no gabinete principal da Prefeitura capaz de fazer evaporar uma frustração de receita de R$ 100 milhões com um passe de mágica, restam dois caminhos: a revolta nas redes antissociais ou a organização pragmática da vida real. A sociedade civil de Gravataí decidiu pelo segundo.
Na sede da OAB Subseção de Gravataí, líderes de mais de uma dezena de entidades representativas se reuniram para fundar o MobiGravataí. A proposta, aprovada por unanimidade, nasce com o selo de ser uma mobilização permanente, plural e apartidária para debater os rumos da cidade e construir uma agenda própria do setor produtivo e social com o poder público.
Mas o tom da largada não é festivo; é de urgência fiscal.
O primeiro encaminhamento deliberado pelo grupo é convidar o prefeito Luiz Zaffalon para uma reunião formal. A pauta única e inescapável: o Decreto de Contingenciamento nº 24.522/2026, baixado pelo município em agosto e que colocou a gestão pública em marcha à ré nas despesas discricionárias.
A iniciativa da OAB e das entidades não surge no vácuo. Ela é a resposta direta ao choque de realidade exposto nas entranhas das contas públicas — o que já reportei e analisei em Sem Mágico de Oz: O ‘sincericídio’ de Zaffa expõe as vísceras das contas de Gravataí e o choque de realidade para 2027 e Os detalhes do decreto de corte de gastos que aperta as despesas da Prefeitura de Gravataí.
Para compreender o nascimento do MobiGravataí, é preciso recuar alguns passos e encarar a ideologia dos números que desenhou o aperto fiscal atual.
Como detalhei no Seguinte:, quando o ‘Zaffa Mãos de Tesoura’ acionou a segunda fase do plano de cortes, o município vivia o epicentro de uma tempestade perfeita. A relação entre a despesa corrente e a receita corrente de Gravataí atingiu a marca crítica de 88,29%, enquadrando a prefeitura no artigo 167-A da Constituição e impondo um teto de ferro para o gasto público.
A conta do drama traz cicatrizes conhecidas: o Valor Adicionado Fiscal (VAF) geral de Gravataí despencou 15%, empurrado pela assustadora retração de 42% no VAF da General Motors — a tradução numérica e dolorosa da nossa histórica ‘GMdependência’. Para piorar, a ameaça de encerramento das operações da fábrica de pneus Prometeon (herdeira da Pirelli) e os impactos acumulados da queda no repasse do ICMS estadual morderam, pelos cálculos do governo, R$ 100 milhões do caixa do município apenas em 2026.
A resposta do Executivo foi o decreto de tesoura pesada: meta de redução de 40% nos contratos custeados com recursos livres; reavaliação e corte de até 50% em contratos da saúde excedentes ao piso constitucional; avaliação de corte de 10% no valor bruto da folha de cargos em comissão (CCs) e emergenciais; e fim de eventos, coffee breaks, horas extras e diárias, além de cotas rígidas de combustível e renegociação de todos os aluguéis de imóveis.
O sincericídio de Zaffa — ao abrir os números para os setores organizados e avisar que sem cortes a prefeitura não manteria nem o básico — deixou claro que o caixa próprio para investimentos em 2026 e 2027 é zero. E é justamente aqui que o MobiGravataí encontra seu sentido de existir.
Estavam lá na OAB, sentados à mesma mesa, representantes do Conselho Regional de Contabilidade (CRC-RS), Consepro, Observatório Social, Sindilojas, Associação Comercial das Moradas do Vale (ACOMOV), Rotary, Liga de Combate ao Câncer, sindicatos e associações de moradores. Lideranças que potencialmente vão sentir a dor da contenção: o comerciante que teme o esfriamento da economia local, o contador que lê a frustração do tributo, o cidadão que teme a queda na qualidade dos serviços essenciais — apesar de o prefeito, na prestação de contas do fim do mundo, ter explicado que os cortes acontecem justamente para manter os serviços básicos funcionando.
Fato é que, ao propor o MobiGravataí, a OAB Gravataí retoma a ideia sugerida pelo próprio Zaffa, durante a prestação de contas do Executivo: a de que as entidades da sociedade civil precisam assumir o protagonismo da agenda de desenvolvimento da cidade, sem depender da tutela ou do agrado do governante de plantão.
“Não é um problema só do prefeito. Sem cortes, não conseguiremos manter serviços essenciais” e “Em dois anos pego o boné e vou embora, se tiver boné ainda…”, foram duas declarações do prefeito no anúncio do decreto, em 15 de setembro.
A ideia é que, se a prefeitura está de mãos atadas pelo limite da Lei de Responsabilidade Fiscal e pela queda nas receitas industriais, cabe à sociedade organizada ajudar a mapear as prioridades, fiscalizar a aplicação dos recursos e, principalmente, articular emendas e apoios políticos em Porto Alegre e Brasília para garantir que obras estruturantes não parem.
Sem ilusionismo na estrada de tijolos amarelos
O leitor habitual da coluna lembra da metáfora que usei, inspirada em fala do presidente da Câmara, Dilamar Soares, o Dila, ao analisar o rombo fiscal de Gravataí. No clássico O Mágico de Oz, Dorothy e seus companheiros descobrem que não há nenhuma entidade mágica por trás da cortina capaz de resolver seus problemas instantaneamente.
O Espantalho, o Homem de Lata e o Leão só conseguem superar as adversidades porque decidem caminhar juntos ao longo da estrada de tijolos amarelos, somando inteligência, empatia e coragem.
O MobiGravataí é a tentativa de construir essa aliança no mundo real da aldeia.
Ao convidar o prefeito para explicar os fundamentos, impactos e perspectivas do Decreto de Contingenciamento, as entidades mostram que abandonaram o papel de meras espectadoras de camarote. Elas querem saber onde a tesoura vai cortar, mas também onde a sociedade pode somar forças para evitar a paralisia do município.
Resta aguardar para ver se a estrada de tijolos amarelos será construída tijolo a tijolo, numa mesma direção, ou se cada força vai querer direcionar o caminho à direita, à esquerda, aos extremos ou ao centro, ou mesmo levar o tijolo social para casa, como se bastasse resolver o próprio problema ou ganhar um palanque para apontar os vilões de sempre das redes antissociais: os políticos e a imprensa.





