A nomeação de Flávia Casotti para a direção jurídica da Prefeitura de Cachoeirinha permite interpretações preguiçosas. Porque existe uma análise fácil, automática e quase condicionada no ambiente político local: resumir tudo ao fato da advogada ser casada com André Lima, todo poderoso ex-assessor especial do governo do prefeito cassado Cristian Wasem e presidente do MDB de Cachoeirinha.
Só que essa leitura, além de simplista, erra o alvo principal do movimento feito pela prefeita Jussara Caçapava (Avante). E erra feio.
Não porque André seja irrelevante politicamente. Não é. Citá-lo numa análise política é inevitável. Durante anos, foi um dos operadores mais influentes da política local, sobretudo no núcleo duro do governo Cristian. Ainda mantém musculatura partidária, relações institucionais e trânsito político.
Mas a nomeação de Flávia não nasce de uma lógica clássica de loteamento político, troca de apoio ou composição partidária. Não foi isso que aconteceu. O que houve, na prática, foi um movimento muito mais jurídico, institucional e simbólico do que propriamente partidário.
A própria origem do convite mostra isso. Flávia se inscreveu em uma concorrência pública para contratação emergencial de assessores jurídicos da prefeitura. Segundo relatou ao portal O Repórter, o currículo chamou atenção da prefeita. A partir dali surgiu o convite para assumir a direção jurídica do município.
Isso muda completamente a leitura política do caso. Porque a narrativa de “acomodação política” perde força diante de um fato objetivo: Flávia já chegava tecnicamente credenciada antes mesmo do convite político existir.
E há outro ponto que parte da política local parece ignorar — talvez deliberadamente. Reduzir Flávia à condição de “mulher do André Lima” guarda algo de profundamente injusto e até machista na análise. Afinal, ela possui trajetória própria, capital institucional próprio e uma construção pessoal que independe do marido.
Não estamos falando de uma figura desconhecida alçada ao cargo apenas por relações familiares. Estamos falando da presidente da Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil em Cachoeirinha, primeira mulher a ocupar o posto e reeleita para um segundo mandato consecutivo. Uma advogada com trânsito consolidado em setores empresariais, jurídicos e políticos da cidade.
Ela construiu estrela própria. Ignorar isso seria intelectualmente desonesto.
E, do ponto de vista administrativo, é difícil argumentar que a escolha tenha sido ruim. Ao contrário. Num governo atravessado por turbulência institucional, ameaçado por uma possível cassação eleitoral e mergulhado novamente no ambiente tóxico de insegurança política crônica que Cachoeirinha conhece tão bem, colocar a presidente da OAB na direção jurídica também comunica uma mensagem política importante: “Existe seriedade institucional aqui”.
E isso tem peso. Especialmente no momento em que Jussara enfrenta aquilo que defini dias atrás como a ‘loteria de toga’ após a decisão da Justiça Eleitoral que cassou, em primeira instância, os diplomas dela e do vice-prefeito Mano do Parque.
A sentença da juíza eleitoral Suélen Caetano de Oliveira entendeu que vídeos publicados nas redes sociais de Jussara durante o período em que exercia interinamente a prefeitura configuraram abuso de poder político e uso indevido da máquina pública. A decisão ainda cabe recurso ao TRE-RS e ao TSE. A prefeita segue no cargo.
O caso transformou novamente Cachoeirinha naquele eterno ‘Dia da Marmota’ (como no filme) institucional — cassações, recursos, suplementares, judicialização e a sensação permanente de que as eleições continuam depois das urnas.
Neste ambiente, reforçar o núcleo jurídico do governo não é apenas uma necessidade técnica. É sobrevivência política. E talvez aí esteja o verdadeiro significado da chegada de Flávia. Ela não serve apenas como advogada. Serve como sinal institucional. Serve como blindagem de credibilidade. Serve como ponte.
Porque existe ainda um componente social e político pouco debatido fora dos bastidores: Flávia possui trânsito em setores que historicamente olham com certa resistência para o governo Jussara — especialmente parcelas empresariais e segmentos tradicionais da elite política local que ainda carregam preconceito com a origem popular da prefeita.
A política também opera por símbolos sociais. E Flávia ajuda a romper algumas dessas barreiras.
Ao mesmo tempo, a reorganização interna do jurídico mostra que Jussara tenta profissionalizar mais sua estrutura num momento crítico. Flávia trabalhará ao lado de Cláudio Ávila, até então assessor especial do gabinete, que passa a exercer uma assessoria estratégica na área jurídica, por onde deverão passar pareceres e análises técnicas do governo.
Há ali claramente uma tentativa de centralização técnica e fortalecimento jurídico num momento em que cada decisão administrativa passou a carregar potencial risco eleitoral.
E aí sim André Lima reaparece no radar político — mas por outro motivo. Não pela nomeação da esposa. E sim pelo impacto indireto disso dentro do MDB.
Porque, ainda que a escolha de Flávia não decorra de negociação partidária, é inevitável que o movimento produza ruído político interno. Principalmente em um ambiente local extremamente polarizado, onde qualquer aproximação com o governo Jussara tende a gerar tensão.
André provavelmente enfrentará dificuldades crescentes para manter o controle político do MDB local. Mas isso é consequência colateral. Não a origem da nomeação.
Ao fim, o erro da análise política local talvez esteja justamente em tentar encaixar um movimento institucional complexo dentro da velha lógica simplificada da política de balcão.
Nem tudo é troca de apoio. Nem tudo é loteamento.
Às vezes — embora Cachoeirinha tenha desaprendido a acreditar nisso — uma nomeação pode simplesmente ser técnica, estratégica e politicamente inteligente ao mesmo tempo.






