RAFAEL MARTINELLI

Entre a superação da medicina e a benção do rádio: Podemos confirma Dr. Levi a federal e Paulinho ‘do Zambiasi’ a estadual por Gravataí

Levi e Paulinho, na convenção do Podemos RS

Há momentos em que a política insiste em ser apenas o que é: ata, prazo, quórum e palanque. Mas há outros em que o rito partidário se curva diante de algo infinitamente maior. Na tarde de sábado (25), o auditório da Convenção Estadual do Podemos-RS, em Porto Alegre, carimbou a homologação oficial de Dr. Levi Melo como candidato a deputado federal e de Paulinho da Farmácia a deputado estadual. Formalmente, um ato eleitoral. Mas, para quem acompanha a cena de Gravataí de perto, foi o capítulo definitivo de uma história que começou com a suspensão da própria vida.

A cena do médico de 35 anos de atuação, vice-prefeito reeleito ao lado de Luiz Zaffalon (PSD), subindo ao microfone sobre uma cadeira de rodas é uma imagem que não cabe no pragmatismo do marketing partidário. Não há muito tempo, como registrei nesta coluna quando Levi regressou ao gabinete, a principal dúvida de Gravataí não era eleitoral; era sobre a sua sobrevivência. Acometido no final do ano passado por uma severa mielite transversa autoimune — uma inflamação devastadora e imprevisível da medula espinhal —, Levi enfrentou 78 dias de internação, UTI, choque séptico e a rotina brutal de quem precisou reaprender a viver.

Quando disse na convenção que deseja “ser o representante do Vale do Gravataí, uma região que há mais de 20 anos não tem um deputado federal eleito”, Dr. Levi expôs uma ferida histórica da Aldeia. O último parlamentar com domicílio eleitoral na cidade a conquistar uma cadeira titular no Congresso foi Edir Oliveira, no distante pleito de 1998. De lá para cá, o município de 300 mil habitantes acostumou-se a ser praça de recolhimento de votos para forasteiros e suplentes — alguns que, como brinco, tem rodagem em Gravataí por cruzar a Freeway em direção ao Litoral.

Ao colocar no topo de sua plataforma a saúde, a segurança e a acessibilidade — pauta que agora sente na pele no seu dia a dia de reabilitação e uso diário de cadeira de rodas —, Levi converte a sua travessia médica em ativo público. Ele volta à cena não apenas como o “cara hiperativo” das jornadas de 16 horas, mas como alguém revestido por um capital simbólico raro na política contemporânea: a estima transversal. Quando voltou ao governo, o próprio Zaffa desarmou o discurso institucional para chamá-lo de “homem decente, ponderado, de muita civilidade e amigo fiel”. Essa aura gera uma rara zona de apaziguamento na cidade, mesmo Zaffa tenha como seus candidatos Dimas Costa (PSD) à Assembleia Legislativa e Juvir Costella (MDB) à Câmara dos Deputados.

Ao lado de Levi, a homologação do vereador Paulinho da Farmácia à Assembleia Legislativa amarra o tabuleiro do Podemos de forma estratégica. Paulinho finca pé como o candidato estadual do partido no município, apostando em dobradinha local e natural com Levi, mas jogando alto numa dobradinha preferencial com Sérgio Zambiasi — figura histórica da comunicação gaúcha, de quem é amigo, colega de rádio e assessor informal há mais de uma década.

O partido também confirmou apoio à candidatura de Luciano Zucco (PL) para governador do Estado e Silvana Covatti (PP) para vice, e à de Ubiratan Sanderson (PL) e Marcel Van Hattem (Novo) na disputa pelas duas cadeiras ao Senado.

Em março, quando o vice-prefeito ainda enfrentava o ápice de sua reabilitação neurológica, escrevi que a política sempre volta, mas que a vida vinha primeiro. Hoje, a convenção do Podemos prova que a política voltou por completo. A fisioterapia continua, as limitações motoras exigem adaptações diárias, mas a máquina partidária agora está oficialmente ligada.

Ao fim, a candidatura de Dr. Levi não garante a quebra do jejum de duas décadas sem um deputado federal eleito por Gravataí — as urnas operam por matemáticas complexas de legenda e nominata. Mas a homologação de seu nome, sobre rodas e com a voz firme de quem venceu a UTI, manda um recado direto ao eleitorado: para quem esteve no limite da existência, encarar uma campanha para Brasília é apenas mais uma etapa do processo de estar, plenamente, vivo.


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