A gestão da hoje prefeita de Cachoeirinha, Jussara Caçapava, à frente da presidência da Câmara de Vereadores em 2025, recebeu um certificado de excelência em compras públicas concedido pelo Portal de Compras Públicas, plataforma privada voltada à realização de processos licitatórios entre empresas e órgãos públicos.
O reconhecimento ocorre meses depois de um dos períodos mais turbulentos da política recente de Cachoeirinha, marcado por pedidos cruzados de impeachment, acusações de irregularidades em contratos da Câmara, investigações policiais e uma guerra institucional aberta entre Executivo e Legislativo.
O Portal de Compras Públicas é uma das principais plataformas digitais privadas do país para realização de pregões eletrônicos, dispensas de licitação e processos de contratação pública. Funciona como um marketplace que conecta administrações públicas e fornecedores privados, operando em conformidade com a Nova Lei de Licitações (14.133/2021). A ferramenta é utilizada por prefeituras, câmaras municipais, hospitais e outros órgãos públicos para publicação de editais, recebimento de propostas e realização de disputas online.
Foi justamente no ambiente das compras públicas que se concentrou parte central da crise política de 2025 em Cachoeirinha.
À época presidente da Câmara, Jussara virou alvo de um pedido de impeachment protocolado pelo então prefeito Cristian Wasem. Aquele que chamei ‘Impeachment 3.0’ apontava supostas irregularidades em contratos do Legislativo envolvendo obras, publicidade, serviços terceirizados e dispensas de licitação.
O dossiê apresentado pelo prefeito tinha mais de 30 páginas e citava possíveis violações à Lei de Licitações, contratos emergenciais considerados suspeitos, supostos conflitos de interesse, ausência de documentos técnicos e falhas em processos de transparência.
No auge da crise, Cristian afirmou que levaria as denúncias ao Ministério Público, ao Tribunal de Contas do Estado e à Polícia Civil. A ofensiva política acontecia em paralelo aos dois processos de impeachment que ameaçavam os mandatos dele e do vice-prefeito Delegado João Paulo Martins — cenário que colocava Jussara na linha sucessória da Prefeitura.
A tensão aumentou quando a então presidente da Câmara foi intimada a prestar depoimento no Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Contra a Administração Pública (Dercap). Na ocasião, sua defesa afirmou haver tentativa de “construção artificial de narrativa” e acusou adversários de instrumentalização política das investigações.
Jussara sustentava que desconhecia os fatos investigados relativos a contratos de 2024 — período em que não presidia o Legislativo — e negava irregularidades nos atos praticados em 2025.
No campo político, porém, o impeachment contra ela não prosperou. A Câmara rejeitou a admissibilidade do processo por 10 votos a 5, impedindo o avanço da investigação político-administrativa no Legislativo. Na prática, os vereadores barraram a abertura formal do processo de cassação.
Já no campo policial, embora tenha sido intimada a depor no Dercap em meio ao auge da crise institucional, Jussara não foi indiciada até o momento.
Ao fim, é justamente nesse contraste que a premiação recebida agora ganha peso político e simbólico.
Enquanto adversários apontavam suspeitas sobre contratos da Câmara e tentavam transformar o tema em peça central da guerra política de Cachoeirinha, uma plataforma privada especializada em licitações reconheceu a gestão do Legislativo comandada por Jussara pela excelência em compras públicas.
O reconhecimento, evidentemente, não apaga o ambiente de crise que marcou 2025 — nem invalida questionamentos políticos feitos à época. Também não funciona como chancela judicial ou certificação absoluta de regularidade administrativa.
Mas o fato concreto é que, até aqui, as denúncias apresentadas pelo então prefeito não avançaram no Parlamento, tampouco resultaram em indiciamento policial da hoje prefeita.
E, paralelamente a isso, a gestão da Câmara sob comando de Jussara recebeu de um dos principais portais privados do setor um certificado de excelência justamente na área que esteve no centro da guerra política: as compras públicas.






