Depois de dias de tensão institucional e leitura política pesada nos bastidores, Prefeitura de Cachoeirinha, Associação Empresarial (ACC) e Centro das Indústrias (CIC) ensaiaram — e publicizaram — um armistício.
Em reunião realizada na manhã desta terça-feira (20), a prefeita interina Jussara Caçapava recebeu dirigentes das duas entidades empresariais para alinhar versões, corrigir uma comunicação oficial e, sobretudo, baixar a temperatura em torno do caso que colocou sob investigação cerca de R$ 1 milhão em repasses públicos à Feira de Negócios e Inovação de Cachoeirinha (FniC).
A nova nota da Prefeitura, cuidadosamente redigida, deixa claro que o encontro teve como objetivo reafirmar cooperação institucional e esclarecer uma informação equivocada divulgada anteriormente pelos canais oficiais do governo.
Ao contrário do que havia sido publicado, os valores questionados pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS) foram, sim, repassados à ACC e ao CIC, por meio de conta bancária específica, exclusivamente para a realização das edições 2024 e 2025 da feira.
A correção não é um detalhe burocrático. É estratégica.
Como revelou o Seguinte: tratou em Ao colocar o milhão para FniC sob investigação, Jussara atinge possível candidatura no pós-impeachment de Cachoeirinha; entenda, o memorando nº 766-1/2026, assinado por Jussara, determinou o envio imediato de documentos à Procuradoria-Geral do Município e ao Controle Interno para apurar “possíveis irregularidades” nos repasses da FniC, com menção expressa a eventual ressarcimento ao erário.
Naquele momento, o gesto extrapolou o campo administrativo e ganhou densidade política, atingindo diretamente duas entidades que haviam se posicionado contra o impeachment do ex-prefeito Cristian Wasem — e, por tabela, alimentando especulações sobre uma eventual candidatura da presidente do CIC, Neiva Bilhar, em uma eleição suplementar.
A nova nota da Prefeitura tenta reposicionar o episódio.
Segundo o texto, os encaminhamentos feitos após os apontamentos do TCE-RS têm caráter técnico, preventivo e administrativo, “sem qualquer juízo prévio” sobre ACC e CIC. A apuração, sustenta o governo interino, segue os princípios da legalidade, transparência e responsabilidade na gestão dos recursos públicos.
Tradução política: não era ataque, era protocolo.
O encontro desta terça-feira serviu também para algo mais amplo: recompor pontes. Prefeitura e entidades reafirmaram compromisso com a cooperação institucional, com foco no desenvolvimento econômico, inovação e geração de empregos.
A Administração Municipal fez questão de destacar o “papel histórico e representativo” da ACC e do CIC e prometeu manter diálogo permanente e atuação colaborativa — um discurso que contrasta com o ambiente de confronto que se instalou após a divulgação do memorando.
Estiveram presentes, além de Jussara, o secretário de Desenvolvimento Econômico, Vinicius Ferreira, assessores do gabinete, dirigentes atuais e ex-dirigentes das entidades empresariais e vereadores, sinalizando que o gesto não foi improvisado nem restrito ao plano técnico.
Nada indica, porém, que o caso esteja encerrado. A Prefeitura reafirma que seguirá acompanhando os apontamentos do TCE e que a boa governança exige controle, mesmo quando os parceiros são tradicionais e politicamente influentes.
A diferença é o tom.
Sai a comunicação ambígua que alimentava leituras de perseguição política. Entra a narrativa de correção administrativa e cooperação institucional.
Ao fim, nas tensões pós-impeachment, governo e entidades ajustam-se à institucionalidade, ao menos. A lupa sobre o “milhão da FniC” continua. Mas, ao menos por ora, o confronto aberto deu lugar a um cessar-fogo formal — daqueles que pode até não apagar o conflito, mas, inegavelmente, o administram.






