A presidente da Câmara de Cachoeirinha, Jussara Caçapava (Avante), reagiu nesta quinta-feira (11) à divulgação de que foi intimada a depor no Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Contra a Administração Pública (Dercap), da Polícia Civil. A oitiva, marcada para hoje, ocorre em meio ao momento mais explosivo da crise institucional que atinge o município desde a queda do ex-prefeito Miki Breier (PSB), em 2021.
A defesa da vereadora divulgou nota afirmando “total tranquilidade” diante da investigação e classificou a repercussão pública da intimação — divulgada por diversos veículos antes mesmo do depoimento — como tentativa de “construção artificial de narrativa” e possível uso indevido da estrutura estatal para fins políticos.
Segundo a nota, Jussara “desconhece completamente os fatos investigados”, que envolveriam contratações de 2024 — período em que ela ainda não presidia o Legislativo: o presidente era Édison Cordeiro (Republicanos), aliado do governo que votou contra a admissibilidade dos impeachments — e atos de 2025, ano no qual, segundo sua defesa, “não há qualquer irregularidade”.
A polêmica se instala porque a intimação chega no epicentro dos dois processos de impeachment que podem cassar o prefeito Cristian Wasem (MDB) e o vice Delegado João Paulo Martins (PP) ainda em 2025.
Se os mandatos forem derrubados, quem assume a Prefeitura é justamente Jussara Caçapava.
O cenário se tornou ainda mais tenso porque a intimação ocorre duas semanas depois de Cristian apresentar pessoalmente um pedido de impeachment contra a presidente — o chamado Impeachment 3.0 — rejeitado por 10 votos a 5 pelo Legislativo.
O prefeito também havia dito ao Seguinte: que levaria aos “órgãos policiais e judiciais” suas denúncias sobre supostas irregularidades em obras da Câmara.
É neste ambiente — um tabuleiro em que qualquer detalhe pode alterar o equilíbrio de votos que decide o futuro político de três autoridades máximas do município — que a intimação de Jussara chega.
“Divulgação padronizada revela uso político”, diz defesa
A nota assinada por Cláudio Ávila Advogados, escritório que representa a presidente, afirma que a divulgação antecipada da intimação revela “possível utilização indevida da estrutura estatal para fins políticos” e cita um áudio vazado do vice-prefeito, no qual ele teria afirmado que usaria influência sobre forças policiais para interferir nas apurações conduzidas pelo Parlamento.
Também menciona que a atual gestão convive “com figuras historicamente associadas a práticas ilícitas e com episódios envolvendo lideranças do crime organizado”, citando aliados do prefeito.
A defesa afirma que Jussara manterá postura institucional e aguardará o depoimento “com serenidade”.
Procurada pelo Seguinte: para comentar a nota da presidente, a defesa do prefeito e vice manifestou que “não tem o que falar sobre fatos da Câmara”.
Impeachments, denúncias cruzadas e 47 testemunhas
A intimação chega numa semana decisiva da crise política.
Os dois impeachments contra Cristian e João Paulo estão em fase de instrução, com 47 testemunhas sendo ouvidas entre defesa e acusação.
Para entender:
Impeachment 1.0
Mantém três acusações contra o prefeito:
– irregularidades na comunicação pública;
– falhas em repasses durante as enchentes de 2024;
– possíveis inconsistências na compra de telas interativas.
O vice já foi excluído deste processo.
Impeachment 2.0
O mais robusto: 64 páginas que descrevem:
– ameaças e coação contra vereadores;
– contratações suspeitas;
– pedaladas no IPREC;
– supostos pagamentos sem empenho;
– e imputações diretas ao vice envolvendo contratos emergenciais.
Para cassação, são necessários 12 votos entre 17 — número atingido nas admissibilidades.
Cristian e João Paulo precisam de seis votos para escapar. E é neste cálculo que o tabuleiro político se reorganiza.
Com o PT — decisivo e com potencial de aproximação do governo como mostrou ordem de início de obras nesta terça-feira — sendo cotado como fiador da sobrevivência do prefeito, qualquer movimento que fragilize Jussara tem evidentemente impacto político. E qualquer movimento que fragilize o prefeito, também.
O jogo é de milímetros.
A presidente vê retaliação política
Além da nota do advogado, Jussara já havia acusado Cristian, em declarações anteriores ao Seguinte:, de promover assédio político, violência de gênero e ataques orquestrados contra mulheres do Legislativo.
Ela sustenta que o prefeito tenta construir uma narrativa para atingi-la no momento em que seu voto — agora impedido pelas comissões processantes — poderia ser decisivo no futuro dos impeachments.
A presidente insiste que “todos os factoides serão rebatidos com documento e técnica” e que não comentará o mérito das acusações contra o prefeito para “não influenciar colegas”.
Já o prefeito, ao apresentar as denúncias, considerou os fatos “gravíssimo” e “embaixo do nariz” dos vereadores.
O rito, o voto e a luz gasta
Cachoeirinha vive sua maior crise institucional desde 2021, ano do afastamento do prefeito Miki pelo TJ e a posterior cassação, ao lado vice, Maurício Medeiros (MDB), pelo TER, o que teve como conseqüência uma eleição suplementar — mesmo cenário que se repetiria agora em caso de perda de mandatos por Cristian e Delegado.
O que começou como disputa política se transformou em guerra aberta entre Executivo e Legislativo, com acusações cruzadas, liminares derrubando e restabelecendo impeachments e um clima em que uma intimação vira terremoto nas redes sociais e bastidores da política — principalmente quando atinge quem pode virar prefeita.
Fato é que o município assiste diariamente a uma batalha jurídica, política e narrativa que tem prazo para terminar: o julgamento dos impeachments, previsto para acontecer entre dezembro e janeiro.
Até lá, cada movimento importa. E, como já escrevi antes, em Cachoeirinha é difícil completar um dia sem que a crise acrescente um novo capítulo explosivo.
Ontem foi a vez da intimação.
Hoje será a vez do depoimento.
Até que, no fim do processo, será a vez do voto.
Quem já acompanhou processos de impeachment sabe que o importante são os ritos legais e o humor dos políticos, que se traduz em “sim” ou “não” na hora da votação das cassações.
A instrução do processo — com as oitivas e os relatórios finais, seja indicando irregularidades ou não — só serve para gastar luz e hora extra de servidores.
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