SEGURANÇA

Investigação de esquema que usava nomes de mortos para criar identidades falsas para facções chegou a armário da BM de Cachoeirinha

Uma investigação do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) revelou um esquema que utilizava registros civis de pessoas já falecidas para criar identidades falsas destinadas a integrantes de facções criminosas e foragidos da Justiça. A apuração resultou na deflagração da Operação Dupla Face, iniciada na quarta-feira (3), com cumprimento de mandados em Cachoeirinha, Canoas e Porto Alegre.

Em Cachoeirinha, a operação teve um dos principais focos. Três mandados de busca e apreensão foram executados em endereços ligados a um policial militar investigado por suposto acesso indevido a sistemas de informação e possível repasse de dados ao grupo criminoso. As buscas ocorreram em duas residências e em um armário funcional localizado em um batalhão da Brigada Militar no município.

A ação foi coordenada pelo 2º Núcleo Regional do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) – Região Metropolitana, com apoio do Batalhão de Choque e da Corregedoria da Brigada Militar.

Segundo a investigação, os criminosos aproveitavam registros civis de pessoas falecidas, especialmente certidões de nascimento que não possuíam anotação de óbito nos sistemas consultados.

A partir desses documentos, eram criadas novas identidades aparentemente legítimas. Com os dados das pessoas mortas, os investigados conseguiam emitir documentos oficiais, abrir empresas, movimentar patrimônio e dificultar a localização de integrantes de organizações criminosas procurados pela Justiça.

Na prática, os criminosos passavam a assumir uma identidade “limpa”, vinculada a alguém que existiu, mas que já havia morrido. Isso dificultava o trabalho das autoridades e permitia que foragidos circulassem com menor risco de identificação.

De acordo com o Ministério Público, o esquema também pode ter sido utilizado para ocultação patrimonial e movimentação financeira de origem suspeita.

A apuração teve início em Santa Catarina após o Cartório de Registro Civil de Lages identificar pedidos considerados atípicos de certidões de nascimento, especialmente de pessoas já falecidas.

A partir da comunicação feita ao Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), as investigações avançaram e apontaram que a atuação criminosa ocorria em dois estados. Conforme surgiram indícios de que o núcleo principal do esquema estaria concentrado no Rio Grande do Sul, especialmente em Porto Alegre e Região Metropolitana, o caso passou a ser conduzido pelo GAECO gaúcho.

Faccionado é apontado como articulador

Segundo os investigadores, um integrante de facção criminosa gaúcha é apontado como responsável pela estrutura principal da fraude documental. A suspeita é de que existissem pelo menos dois núcleos de atuação: um dedicado à obtenção e manipulação de dados civis e outro ligado ao policial militar investigado.

Durante a operação foram apreendidos celulares, computadores, mídias digitais, documentos e registros financeiros. O Ministério Público também solicitou medidas como quebra de sigilos bancário, fiscal e telemático, interceptações telefônicas e eventual sequestro de bens.

As provas recolhidas serão analisadas para identificar outros participantes e verificar se houve obtenção de vantagem econômica com o esquema.

“A atuação do GAECO busca desarticular o esquema, responsabilizar os envolvidos e identificar outros possíveis participantes”, afirmou a promotora de Justiça Maristela Schneider, responsável pela investigação.

O coordenador estadual do GAECO, Rogério Meirelles Caldas, destacou que a operação integra uma estratégia nacional de combate às organizações criminosas.

Até o momento, não houve divulgação de prisões relacionadas à Operação Dupla Face. As investigações prosseguem.

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