Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura, sempre foi apresentado como exemplo de jornalista amordaçado pelo fascismo. Mas Herzog, de quem nos resta a memória, está sendo substituído por um blogueiro do Maranhão como modelo da luta pela liberdade de imprensa contra poderosos do sistema de Justiça.
E um ex-delegado da Polícia Federal, que monitorava o ministro Flávio Dino para abastecer o blogueiro, é o modelo exemplar de fonte a ser preservada a qualquer custo. Mesmo que ambos sejam investigados por suspeitas de envolvimento em crimes e vigarices.
A fonte que a Globo exalta como modelo a ser seguido é Raimundo Cutrim, sob investigação por obstrução de Justiça no caso de um homicídio no Maranhão. O blogueiro é Luis Pablo Conceição Almeida.
Ambos já foram elevados à condição de heróis por Andréia Sadi e Malu Gaspar, por terem sofrido busca e apreensão determinadas pelo STF. Só não ganharam powerpoint sobre seus dramas porque esse é um recurso gráfico que se tornou perigoso na Globo.
São celebridades do momento, a partir das posições de grandes nomes do jornalismo das corporações. É neles que devemos nos agarrar para defender a vida de repórter? É no blogueiro suspeito de pilantragem a serviço de um delegado que persegue Flávio Dino para amedrontá-lo por ser relator de um caso que o envolve?
Um delegado que se transforma em araponga e um blogueiro que deve colocar suas informações na rua, a pretexto de denunciar o uso irregular de carros oficiais por familiares de Flávio Dino – esses são os heróis da hora do jornalismo opinativo de Globo, Folha e Estadão.
Tratados como heróis pelo colunismo e em editoriais, mas desmascarados pelo jornalismo que teima em sobreviver no mesmo ambiente das grandes redações. Nesta sexta-feira, Daniela Lima, no UOL, e José Marques, na Folha, mostram o que está por trás da perseguição a Dino.
Uma gangue envolvida num homicídio provocado, entre outros motivos, pelo desvio de dinheiro de emendas parlamentares e de cobrança de propinas. É o que explica os ataques a Dino.
Em um dos despachos que tornou público nesta sexta, Flávio Dino informa: “Há no Estado do Maranhão um ecossistema empresarial criminoso, destinado ao desvio de recursos públicos, abrangendo inclusive emendas parlamentares federais”.
A reportagem de Daniela Lima acrescenta: “Dino aponta que as medidas obstrutivas de interesse da organização criminosa envolveriam policiais federais e civis, advogados, políticos, entre os quais um senador da República”. O senador é Weverton Rocha, do PDT.
Um dos agentes federais é o ex-delegado da PF Raimundo Cutrim, em prisão domiciliar por obstrução de Justiça no caso do homicídio do empresário João Bosco Pereira Oliveira Sobrinho, em 2022. O assassinato mobiliza os que tentam encobrir tudo e todos que nele estão envolvidos.
Cutrim é a fonte que Malu Gaspar e Andréia Sadi exaltam como exemplo de informante a ser protegido, depois de ter sofrido busca e apreensão. O blogueiro que Cutrim abastecia, o destemido Luis Pablo, está sob investigação da PF pela suspeita de ter recebido R$ 100 mil para atacar Dino.
A Folha abriu manchete, na quarta-feira, para que Pablo defendesse a liberdade de imprensa. O Jornal Nacional dedicou mais de 10 minutos ao seu caso, apresentado como exemplo de perseguição a fontes e repórteres.
Para a Folha, para a Associação Nacional dos Jornais, para o JN e para alguns ‘especialistas’ em liberdades, Cutrim e Pablo se dedicavam à nobre missão de denunciar desmandos de Flávio Dino e mereciam ser protegidos: Cutrim como fonte exemplar do bom jornalismo, e Pablo como repórter fora do eixo Rio-São Paulo, que os jornalões adotaram como modelo de jornalista destemido.
Mas colegas dos colunistas dos jornalões – e também de veículos independentes –, que teimam em fazer reportagem, publicam nos próprios jornais dos admiradores de Cutrim e de Pablo informações que desmontam textos de colunas e de editoriais. O jornalismo às vezes vence o colunismo sustentado por vazadores de informações contra ministros do STF e contra as esquerdas.
É o que pode acontecer nesse caso em que viciados em vazamentos, como são os colunistas das corporações, agarram-se ao arame farpado de uma dupla suspeita. Buscam o suporte romântico da fonte preocupada com a moralidade e de um repórter que se engaja à sua empreitada ética. Tudo vigarice.






