Sabe aqueles grupos de whatsapp da firma, da família, dos amigos, em que tudo é discutido, desde os planos para dominar o mundo até as passas no arroz das festas de fim de ano? Pois agora recorde os meados dos anos 1980 até o fim da década de 1990. Sim, a clássica Rádio Ipanema tinha o seu próprio grupo de whats, nos moldes que só aquela 94.9 poderia ter.
— Era um caderno, que eu inventei. Deixava no estúdio e, no final de cada programa, os comunicadores escreviam tudo o que rolava. Um show que haviam assistido, o som que rolou na programação, uma entrevista, um comentário. Tudo. Era a forma como conseguíamos conversar, porque eu, por exemplo, só chegava à noite na rádio. E naquele tempo não tinha celular, e-mail e até telefone fixo era artigo de luxo — lembra Katia Suman, que liderava e se tornou o símbolo de uma época única para o rádio e a música daqui.
No livro “Katia Suman e os diários secretos da Rádio Ipanema FM”, ela faz os saudosos viajarem no tempo de um modo delicioso. É impossível ler e não trazer à memória toda a agitação cultural de Porto Alegre e região metropolitana da retomada da democracia e do surgimento de bandas e novos sons como poucas vezes se viu por aqui. A Katia esteve na Feira do Livro de Gravataí para contar um pouco disso, mas como ela mesma diz, sem saudosismos.
— Não dá para ter esse tipo de nostalgia. O mundo era outro, era uma outra configuração. Foram décadas muito importantes para a produção musical daqui, era uma rádio de esquerda, que já não existe nenhuma parecida hoje. Naquele tempo, tudo se fazia pela primeira vez, e nós experimentamos tudo. Agora é outro momento, o próprio rádio não tem mais aquele protagonismo e precisa achar o seu espaço. Me orgulho muito de ter feito parte daquilo, mas não é saudosismo. Eu acho o Spotify, por exemplo, incrível. A minha filha, de 17 anos, nunca ouviu rádio. Hoje, a internet salva o mundo — diz.
Ao todo, foram 23 cadernos, com mais de duas mil páginas, escritas entre 1985 e 1997, compiladas no livro da Katia. E aí, é possível encontrar desde a realidade, tabulada, da rádio que realmente lançava e dava oportunidade às bandas locais até bate-bocas, no papel.
— É claro que a Ipanema lançou muita gente, porque era mais do que a programação de rádio, era todo um cenário que se criava. Quando tocávamos uma banda, desenvolvíamos a profissionalização daquilo. Os bares abriam espaço para elas, para apresentações. A Ultramen, por exemplo, apareceu assim. Mas onde foi parar aquele público? A Ipanema foi primeiro e segundo lugar em audiência durante todo o tempo. Mas e toda aquela gente que ouvia? Encaretou? — questiona.
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Para preparar o livro, que é parte da tese de mestrado, Katia procurou os colegas Jimmy Joe, Mauro Borba, Cláudio Cunha, Porã, Cagê… E as opiniões, para surpresa dela, eram unânimes:
— Eu tinha muito receio de escrever o quanto eu achava incrível o que fazíamos, o quanto aquilo foi positivo e transformou todo um cenário. Seria estranho, um elogio ao meu próprio trabalho. Mas aí, os guris falaram e era exatamente o que eu pensava. Foi incrível.
Se o livro é uma forma de recordar a todos que viveram a Ipanema FM — e, de fato, não se tratava só de ouvir —, também é uma maneira de mostrar a quem nunca ouviu rádio, como a filha adolescente da Katia Suman, o que acontecia por aqui naquele tempo.
Na frequência da 94.9, hoje, está a retransmissão da Rádio Bandeirantes, com mais futebol e nada de música. As demais FMs que costumavam tocar rock e música pop, hoje dedicam mais espaço a programas de conversa, piada ou futebol. Na sua visita à Feira de Gravataí, Katia Suman não fugiu ao questionamento que todos têm refletido por aqui:
— O mundo todo está tão careta. É uma onda à direita, um movimento que parece ser a reação daquele homem branco, macho alfa, metafórico, contra o crescimento que as ditas minorias tiveram durante muitos anos, naqueles anos em que a Ipanema surgiu. Os tempos são outros, a gente se adapta, a música se adapta. As bandas hoje não precisam do rádio para ganhar espaço, por exemplo.
No melhor estilo do que mantem no Bar Ocidente, em Porto Alegre, desde 1999, com o Sarau Elétrico, todas as terças, misturando literatura, poesia e música, Katia bateu um papo com a patrona da Feira, Fernanda Takai, na noite da última quarta, em Gravataí.
A 32ª Feira do Livro de Gravataí encerra neste domingo,. Vá à praça e curte as últimas atrações.
CONFERE A PROGRAMAÇÃO DO FIM DE SEMANA
Sábado (dia 1º)
10h às 21h – Troca de Livros – Espaço Cultural SMCEL
10h às 21h – Exposição A Música e suas Tecnologias – Espaço Cultural SMCEL
10h30min – Apresentação musical: Banda Marcial do Follmann – Espaço da Feira
11h – Sessão de Autógrafos: Experimentações, políticas culturais e patrimônios, de Hilda Jaqueline de Fraga, Claudira do Socorro Cirino Cardoso, Vera Lúcia Maciel Barroso e Renata Andreoni (Orgs.); e Patrimônio no Plural: práticas e perspectivasinvestigativas, de Hilda Jaqueline Fraga, Carmen G. BurgetSchiavone Carla Rodrigues Gastaud (Orgs.)
13h – Apresentação Musical: Banda No Beco- Espaço da Feira
13h30min – Sessão de Autógrafos: Estrela-Guia, de Luís Carlos Lacerda – Café
14h às 18h – Mesas de RPG – Coordenação de Alex Cuenca, do ColetiveArts – Casa Coletive
14h – PainelO Mundo de Harry Potter – Alexandre Pauli – Casa Coletive
14h – Teatro Estudantil na Feira:Teatro Fernanda Takai
15h – Sessão de Autógrafos: Cordas ao Vento, de Karin Fonseca Kestering – Café
15h30min – Apresentação de K-Pop/K-World – Casa Coletive
16h – Sarau Clube Literário de Gravataí – CaféInventor do Vento
17h – Banda Municipal/ Banda Fundação Bradesco – Espaço da Feira
18h – 30 anos do FanzineTchê – Denílson Reis- Casa Coletive
18h – Sessão de Autógrafos – Tópicos das Ciências Humanas, de Sebastião Medeiros e André Melo – Espaço da Feira
18h – Sarau Descascando Manoel de Barros – Simone Castiel e Cláudio Levitan – Café Inventor do Vento
19h – Apresentação de K-Pop/K-World – Casa Coletive
19h30min – Sessão de Autógrafos: Rota Poesiae Alma, de Rosane Castro – Café Inventor do Vento
20h – Apresentação Musical: Renata Pires- Teatro Fernanda Takai
Domingo (Dia 2)
10h às 21h – Troca de Livros – Espaço Cultural SMCEL
10h às 21h – Exposição A Música e suas Tecnologias – Espaço Cultural SMCEL
11h – Manhã de Jogos/RPG – Christopher Kastendsmidt – Casa Coletive
12h30min – Apresentação de K-Pop/K-World – Casa Coletive
14h às 18h – Mesas de RPG – Coordenação de Alex Cuenca, do ColetiveArts – Casa Coletive
13h – Sessão de Autógrafos: Amor em Nova York, de Fernanda Schmitt
14h – Sessão de Autógrafos:A Boneca da Nina, de Raissa Scheeren
14h – Painel Quadrinhos e Educação: um caminho possível -Patrícia Maciel, Jean Pico, Israel Santiago e Jorginho – Casa Coletive
13h30min – Mostra de Dança:Teatro Fernanda Takai
15h – Sessão de Autógrafos: Longe de Casa e Limites da Segurança, de Borges Netto – Café Inventor do Vento
16h – Painel:Do Épico ao Fantástico: o início de uma jornada literária – Fábio da Silva Barbosa, Abraham Kirquin, Beatrice Santos Witt e Christopher Kastensmidt – Casa Coletive
16h – EspetáculoTeatral Junho: uma aventura imaginária – Coletivo Nômade de Teatro e Pesquisa Cênica – TeatroFernandaTakai
17h – Conselho Jedi: 16 anos de uma Paixão Estelar – Conselho Jedi do RS- Casa Coletive
17h – Roda de Conversa com Lorena Eltz- Café Inventor do Vento
17h30min – Apresentação Musical: OMAF – Teatro Fernanda Takai
17h45min – Sessão de Autógrafos: Hey, Lorelys – Lorena Eltz-Café Inventor do Vento
18h15min – Desfile e premiação de Cosplay – Espaço da Feira
19h15min – Apresentação de encerramento: 50 Tons de Pretas – Teatro Fernanda Takai






