RAFAEL MARTINELLI

Mesmo inelegível, Cristian prepara troca de partido e pode empurrar MDB para o apoio a Jussara em Cachoeirinha — com André Lima & tudo

Cristian Wasem pode trocar MDB pelo União Brasil

Mesmo inelegível por oito anos, após a cassação por impeachment em janeiro deste ano, o ex-prefeito de Cachoeirinha Cristian Wasem se movimenta na tentativa de ser um ‘Grande Eleitor’ na eleição suplementar e também garantir um mandato para seu grupo político nas eleições de outubro. Ele deve trocar o MDB pelo União Brasil (UB).

O ex-prefeito não respondeu ao contato do Seguinte: para confirmar a informação, mas a apuração indica que a decisão já foi comunicada a interlocutores próximos e está madura.

Não se trata de um gesto simbólico nem de mera troca de sigla. É uma jogada com efeitos eleitorais, partidários e administrativos — e que pode empurrar o MDB, hoje rachado, para dentro do governo da prefeita interina Jussara Caçapava (Avante).

Com André Lima & tudo.

A motivação central do movimento seria eleitoral. Mesmo fora do jogo como candidato, Cristian atua para garantir estrutura partidária, fundo eleitoral e palanque para candidaturas de seu campo político na eleição suplementar de 12 de abril e na eleição de outubro.

Comecemos pela eleição para Prefeitura de Cachoeirinha.

No sábado, o Seguinte: revelou articulações para que Claudine Silveira (PP), vereadora e esposa do vice-prefeito cassado Delegado João Paulo Martins (PP), seja a candidata a prefeita apoiada por Cristian na eleição suplementar de 12 de abril.

PP e União Brasil formam uma federação partidária desde 2025, o que obriga as siglas a terem definição única de candidatura ou apoio — como se fossem, na prática, um único partido.

A confirmação política de Claudine no jogo eleitoral, se ainda não veio em declaração formal, apareceu nas redes sociais. Após a publicação da reportagem, Cristian compartilhou postagem de página aliada projetando que ele e o vice cassado apoiariam conjuntamente uma candidatura.

Na imagem, ao lado deles, estava Claudine.

Avancemos para a eleição de outubro.

O plano A de Cristian seria viabilizar, pelo União Brasil, uma candidatura da esposa, Fabi Medeiros, a deputada estadual. Pelo UB, a disputa é objetivamente mais fácil do que pelo MDB. Pragmaticamente, são necessários menos votos.

Como plano B, Cristian teria sondado Neiva Bilhar, reeleita presidente do Centro das Indústrias de Cachoeirinha (CIC), nome com trânsito no meio empresarial e fora da polarização clássica da política local — apesar de, por obra de Neiva, a entidade ter se manifestado contra o impeachment ainda antes da aprovação da cassação em plenário pelos vereadores.

A entrada no União Brasil também garantiria cargos para aliados, em articulação direta com o deputado federal Luiz Carlos Busato, que seria o padrinho político de Cristian no partido.

Não por acaso, as conversas começaram ainda durante o processo de impeachment, após a admissibilidade das denúncias ter sido aceita com quatro dos cinco votos do MDB do então prefeito.

Busato, inclusive, foi convidado do então prefeito na assinatura da ordem de início das obras no Arroio Passinhos. No ato, em que também estava David Almansa, Paulo Pimenta e outros petistas, o impeachment foi tratado como “golpe”.

Para Busato, o movimento é igualmente estratégico: Cristian no UB significa palanque em Cachoeirinha para sua reeleição à Câmara Federal.

As consequências e o teste do ‘Grande Eleitor’

Mas a troca de partido não ocorre no vácuo — nem sem riscos.

Hoje, dos cinco vereadores do MDB, apenas Cleo do Onze, fiel a Cristian, não integra formalmente o governo Jussara. A eventual saída do principal líder político do partido tende a empurrar o MDB, de vez, para a base da prefeita interina.

E cria um dilema particular para André Lima, presidente municipal do MDB, ex-assessor especial de Cristian e ainda com um ano e meio de mandato partidário pela frente.

Antes da implosão da base do governo cassado, André foi um dos principais articuladores da eleição de Jussara como presidente da Câmara em 2025. Com Cristian fora do MDB, André restaria isolado — e o reencontro com a Família Caçapava deixaria de ser apenas possível para se tornar provável.

O problema é que o União Brasil tem hoje participação no núcleo duro do governo Jussara, em Cachoeirinha.

Cláudio Ávila — vereador de Gravataí e chefão do UB no município vizinho — foi um dos principais conselheiros jurídicos e políticos do impeachment e é hoje assessor especial de Jussara na Prefeitura.

Até pelo temperamento de Ávila, o ‘encantador de serpentes’, a reação interna à filiação de Cristian é uma certeza.

Ao fim, se confirmada, a filiação de Cristian ao União Brasil tem potencial de conectar pontos que estavam soltos: o apoio a Claudine, a federação PP–UB, o palanque para Busato e o redesenho das forças na eleição suplementar.

Mais do que trocar de partido, Cristian tenta trocar o eixo da eleição. Mesmo cassado, quer usar seu espólio para ser o ‘Grande Eleitor’, testando sua popularidade na eleição suplementar.


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