RAFAEL MARTINELLI

“Não é uma aventura chinesa”: Jussara aposta em R$ 200 milhões para transformar Cachoeirinha — e enterrar de vez o Cachoeirinha 2050

Cachoeirinha aprovou uma decisão que pode redefinir seu futuro urbano, econômico e político pelas próximas décadas.

A Câmara de Vereadores autorizou a prefeita Jussara Caçapava a contratar uma operação de crédito de até R$ 200 milhões com garantia da União, valor que figura entre os maiores financiamentos já buscados pelo município.

Mas a discussão vai muito além de números, parcelas ou planilhas. O empréstimo tornou-se também um símbolo de que não há armistício entre o governo atual e o anterior, cassado após um impeachment.

De um lado, representa a tentativa do atual governo de acelerar investimentos estruturantes e aproveitar uma rara janela de crescimento econômico impulsionada por projetos bilionários como a fábrica de semicondutores da Tellescom e o Parque Logístico Cachoeirinha.

De outro, funciona como uma espécie de certidão de óbito política do chamado Cachoeirinha 2050, o ambicioso programa de US$ 78 milhões negociado pelo governo do então prefeito Cristian Wasem junto ao Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), instituição ligada à estratégia global chinesa de financiamento de infraestrutura.

A frase que resume essa ruptura veio do assessor especial da prefeita, Cláudio Ávila.

– O financiamento não é uma aventura chinesa.

A provocação não foi casual. Foi calculada. E revela como a disputa sobre o futuro da cidade continua mesmo após a eleição suplementar de 12 de abril.

Ao contrário do projeto internacional negociado pela gestão anterior, que concentrava investimentos dentro de um grande programa integrado de resiliência urbana, o financiamento agora aprovado pulveriza recursos em diversas áreas da administração municipal.

A justificativa enviada à Câmara prevê investimentos em saúde, educação, saneamento, drenagem, mobilidade urbana, prevenção de enchentes, georreferenciamento e desenvolvimento econômico.

Entre as principais obras anunciadas estão construção de uma nova UPA, uma escola de educação infantil e outra de ensino médio no Campo Belo, um centro de acolhimento para crianças e jovens com deficiência, obras de saneamento e drenagem, fechamento de trecho remanescente do Arroio Passinhos, modernização e ampliação da malha viária, prolongamento das avenidas Cruzeiro e Fernando Ferrari, obras de contenção de cheias e casas de bombas, além da requalificação completa do Parcão Municipal.

– Conquistamos um dos maiores recursos da história da cidade. São obras para esta e as próximas gerações – diz a prefeita.

Há uma influência evidente por trás da estratégia. E ela fica a poucos quilômetros. Gravataí. Segundo Ávila, que também é vereador no município vizinho, o modelo seguido por Cachoeirinha replica uma fórmula utilizada pelo governo Luiz Zaffalon nos últimos anos.

– Gravataí ensinou, o prefeito Zaffa mostrou como se faz.

O argumento é respaldado por um fato. Nos últimos cinco anos anos, Gravataí utilizou cerca de R$ 250 milhões operações de crédito para financiar uma série de obras estruturantes que ajudaram a modernizar a cidade, ampliar sua infraestrutura e consolidar a condição de principal polo logístico da Região Metropolitana.

A comparação é inevitável. Enquanto Gravataí usava financiamentos para abrir avenidas, ampliar parques, modernizar equipamentos públicos e preparar áreas industriais, Cachoeirinha atravessava sucessivas crises políticas, disputas administrativas e dificuldades fiscais.

Segundo Ávila, o ponto de virada foi a renegociação da dívida com o Iprec, o instituto de previdência municipal. O reparcelamento reduziu o desembolso mensal de aproximadamente R$ 4,3 milhões para R$ 1,3 milhão, sob garantia do Fundo de Participação dos Municípios.

Na prática, abriu espaço fiscal. Sem essa engenharia financeira, dificilmente o município teria capacidade para assumir novas parcelas.

Há outro elemento decisivo. Receita futura. E aqui entram dois nomes que se tornaram recorrentes no discurso econômico do atual governo. Tellescom. Parque Logístico Cachoeirinha.

A leitura do Executivo é que os investimentos privados já em andamento alteram completamente a perspectiva econômica do município.

– Só a parte construtiva e de licenciamento dos novos investimentos atraídos já corresponde a um terço do financiamento – resume Ávila.

Não é um argumento irrelevante. A Tellescom projeta investimento de R$ 1 bilhão na área de semicondutores. O Parque Logístico fala em até R$ 1 bilhão adicionais e potencial de milhares de empregos.

Se esses empreendimentos efetivamente se consolidarem, a arrecadação municipal poderá crescer de forma significativa nos próximos anos. É justamente nessa expectativa que o governo ancora sua confiança.

A morte política do projeto chinês

Mas talvez a história mais interessante não esteja no empréstimo. Está na comparação.

Há exatamente um ano, escrevi que Cristian Wasem estava “no lugar certo, na hora certa” ao negociar na China um financiamento que poderia transformar Cachoeirinha.

Naquele momento, a aposta era outra. O mundo falava de infraestrutura resiliente. O AIIB buscava ampliar sua presença global. E o município tentava se inserir nesse fluxo internacional de investimentos.

Hoje, a narrativa mudou. Ávila não esconde. Diz que o novo financiamento sepulta definitivamente as negociações com o banco chinês.

A justificativa também mudou.

– Contrair empréstimo dolarizado é coisa em desuso. Há muita imprevisibilidade geopolítica no mundo atual. Cachoeirinha não pode depender do humor do Trump – alerta.

A crítica possui fundamento técnico. Empréstimos internacionais expõem governos locais ao risco cambial. Uma valorização abrupta do dólar pode transformar prestações administráveis em um problema fiscal gigantesco.

Jussara escolheu um caminho que sua equipe técnica considera politicamente mais seguro.

Outra frase de Ávila ajuda a entender o momento político.

– Cachoeirinha deixou de ser uma ilha. Voltou a fazer parte do Brasil.

A declaração é uma crítica direta ao governo Cristian e à relação institucional com o governo federal. O atual governo aposta na aproximação com Brasília. Busca por recursos federais, como o aumento no teto da saúde.

O financiamento de R$ 200 milhões surge como parte dessa estratégia.

Ainda faltam etapas importantes. A operação precisa passar pela análise da Caixa Econômica Federal e pelos órgãos federais que validam operações de crédito com garantia da União.

Mas o governo demonstra confiança. Conforme Ávila, possui certidões negativas. Possui espaço fiscal. E possui, ao menos por enquanto, um discurso econômico coerente.

Ao fim, a aprovação da Câmara encerra a etapa política. Mas inaugura a fase mais difícil. Execução. Porque empréstimos não transformam cidades. Obras transformam cidades.

Gravataí não virou referência porque tomou financiamentos. Virou referência porque executou os financiamentos.

É exatamente essa régua que agora passa a medir Cachoeirinha. Os R$ 200 milhões podem representar o maior ciclo de investimentos públicos da história recente do município.

Ou podem virar apenas mais um capítulo da longa tradição brasileira de projetos grandiosos e resultados modestos. Principalmente na ‘Pobre Cachoeirinha’, que vive um ‘Dia da Marmota’ (como no filme), com uma década de crise política e institucional — e ‘loterias de toga’.

Se em reais ou dólares, o povo quer ver obras.


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