RAFAEL MARTINELLI

Não romantizem a tragédia da morte do gravataiense na Ucrânia

“A melhor coisa para quando se está triste é aprender algo*”. O mago Merlin tenta consolar o jovem Arthur, em O Único e Futuro Rei, de T.H. White. Reproduzo, ao fim do artigo, o trecho que lembro para, com todo cuidado, analisar uma tragédia que não deve ser transformada em espetáculo épico: a notícia da morte de Tiago Rodrigues Marques, gravataiense de 41 anos vitimado por um ataque de drone na região de Donbas, no leste ucraniano. Apelo, aqui: não romantizem a morte de um vizinho em uma guerra distante que nunca foi sua.

Conforme apuração dos jornalistas Diego Nuñez, Vítor Rosa e Duda Romagna no G1 RS, o morador de Gravataí foi empurrado de volta ao front por desespero financeiro. Ele buscava custear o tratamento da filha de 5 anos, diagnosticada com transtorno do espectro autista. Vendeu a ilusão de uma promessa de salário de 50 mil — acreditando tratar-se de euros ou reais, quando na verdade eram 50 mil Grívnias ucranianas, quantia dez vezes menor que sequer chegou a ver. Embarcou escondido da própria esposa, saiu de casa como se fosse para um dia comum de trabalho e tomou o rumo da tragédia no dia do próprio aniversário.

Trata-se de uma história devastadora, mas cujo enredo não é isolado; é o modus operandi de uma engrenagem perversa. Como bem analisa a historiadora Magide Vieira em artigo publicado pelo Brasil 247, existe uma hierarquia velada e cínica na guerra europeia: a vida de um soldado latino-americano ou africano vale menos do que a de um ucraniano fardado. Enquanto o combatente nacional tem o Estado e a comunidade cobrando por suas garantias, o voluntário do Sul Global muitas vezes se reduz a uma mensagem em grupo de WhatsApp de parentes desolados tentando localizar um corpo. Trata-se de uma verdadeira terceirização da morte, onde a vulnerabilidade social de países periféricos é capturada e transformada em insumo descartável para o front.

A dimensão dessa armadilha se confirma nos dados da reportagem de Albert Steinberger e Gustavo Basso para a Deutsche Welle Brasil. O Brasil já aparece entre os países com o maior número de mortos na Ucrânia, ultrapassando a marca de uma centena de óbitos e com dezenas de desaparecidos. Os próprios veteranos ouvidos pela DW são categóricos ao desmistificar as redes sociais: ninguém fica rico naquelas trincheiras. O que se encontra é o que os próprios combatentes chamam de “moedor de carne”, onde a chance de retorno com vida é mínima e a obtenção de indenizações pelas famílias é um calvário burocrático quase impossível, agravado pela ausência de corpo.

Tiago já havia passado 11 meses na Ucrânia entre 2024 e 2025. Sabia dos riscos, mas caiu na armadilha da ilusão financeira montada para atrair homens sem alternativas em momentos de aflição. A maquiagem jurídica de Kiev, que incorpora estrangeiros às forças regulares para não chamá-los formalmente de mercenários, não esconde o fato brutal: o uso da pobreza alheia como munição de reserva. E a omissão ou limitação de órgãos como o Itamaraty — que frequentemente alerta para que brasileiros recusem tais ofertas — apenas ratifica a solidão de quem decide ir.

Ao fim, a história do gravataiense que perdeu a vida em Donbas deve servir de alerta, e não de hino de glória. Transformar essa tragédia em conto de heroísmo militar é mascarar a perversidade de um sistema que — usando das redes antissociais — atrai os vulneráveis para alimentar máquinas de guerra estrangeiras. Tiago é vítima do desespero de um pai e do cinismo de uma vilania internacional. Que sua memória seja respeitada na exata dimensão da sua humanidade e da sua dor.

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*“A melhor coisa para quando se está triste”, respondeu Merlin, dando um suspiro profundo, “é aprender algo. É a única coisa que nunca falha. Você pode ficar velho e trêmulo na sua anatomia, você pode passar a noite acordado ouvindo a desordem das suas veias, você pode perder o seu único amor, você pode ver o mundo que costumava conhecer devastado por lunáticos demoníacos, ou ter a sua honra rolando no esgoto de mentes apequenadas. Há apenas uma coisa para isso então — aprender. Aprender porquê o mundo gira e o quê o faz girar. Essa é a única coisa da qual a mente nunca ficará exausta, nunca se alienará, pela qual nunca será torturada, nunca temerá ou desacreditará, e nunca sonhará em voltar atrás. Aprender é a única coisa para você. Olhe quantas coisas temos para aprender”. (O Único e Futuro Rei, de T.H. White)

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