RAFAEL MARTINELLI

O acerto político do fim da greve em Canoas: às vezes, continuar é perder

As aulas da rede municipal de Canoas foram retomadas nesta segunda-feira (18) após a assembleia de sexta-feira que decidiu encerrar a greve dos professores iniciada em 22 de abril. Foram mais de três semanas de paralisação, impacto em cerca de 30 mil alunos e um conflito que ultrapassou a discussão salarial para se transformar numa disputa política, social e narrativa.

O retorno ocorre sem acordo integral entre sindicato e prefeitura.

A categoria decidiu encerrar a greve, mas manter as negociações abertas com o Executivo. E isso ajuda a explicar o desfecho: a greve terminou não porque todas as reivindicações foram atendidas, mas porque o custo político e social da continuidade começava a crescer rapidamente.

E, nesse ponto, o sindicato acerta. Porque greve longa raramente termina bem para trabalhadores — especialmente quando atinge diretamente serviços essenciais e a rotina das famílias. Tratei disso nos artigos anteriores, que listo ao fim deste texto.

Isso não é uma tese antigreve. É uma leitura clássica do próprio sindicalismo brasileiro, inclusive do Lula sindicalista das décadas de 1970 e 1980.

A lógica sempre foi simples: greve precisa ter começo, meio e fim.

Movimentos prolongados demais correm o risco de perder apoio social, deslocar o desgaste para os próprios trabalhadores e transformar uma pauta legítima em fadiga coletiva. Em vez de ampliar pressão sobre governos, passam a produzir irritação difusa na sociedade. Foi exatamente esse ponto de inflexão que Canoas começava a alcançar.

De um lado, o Sindicato dos Profissionais em Educação Municipal de Canoas (Sinprocan) mantinha reivindicações legítimas: retirada do mecanismo de gratificação vinculado ao Ideb, aumento real de 2% nos salários, reposição de perdas, valorização profissional e enquadramento funcional de trabalhadores da educação infantil.

Do outro, a prefeitura endurecia o discurso e afirmava ter chegado “ao limite da capacidade financeira” do município. A gestão Airton Souza insistia que já havia avançado em medidas como pagamento do piso nacional do magistério, reposição salarial parcelada, concurso público, contratação de monitores de inclusão e manutenção de benefícios.

O impasse permaneceu praticamente intacto até o fim. Mas o cenário político ao redor dele começou a mudar. Pais reorganizando jornadas de trabalho, alunos sem rotina estável, escolas funcionando parcialmente, risco de aulas avançando até janeiro de 2027 e desgaste emocional crescente nas famílias.

A prefeitura já confirmou calendário alternativo para escolas afetadas, com sábados letivos, férias de inverno reduzidas e possibilidade de atividades até pelo menos 12 de janeiro.

É nesse ambiente que nasce aquilo que defini dias atrás como o ‘sindicato invisível dos alunos’. Ele não tem direção formal nem assembleia. Mas aparece quando milhares de famílias passam a cobrar respostas simultaneamente de todos os lados.

Toda greve longa produz esse fenômeno.

No início, a pressão política recai principalmente sobre o governo. Com o tempo, ela começa a migrar para o cotidiano social. E, quando isso acontece, o conflito deixa de existir apenas entre prefeitura e sindicato. Ele passa a ocupar cozinhas, trabalhos, rotinas domésticas e a vida prática das pessoas.

É justamente aí que movimentos paredistas começam a correr risco político. O próprio placar apertado em assembleias anteriores já mostrava que parte da categoria parecia perceber esse dilema. Porque chega um momento em que a pergunta pública deixa de ser “a pauta é justa?” — e continua sendo — para virar “a continuidade da greve ainda produz resultado favorável?”.

Nem sempre insistir significa avançar. E o sindicalismo historicamente mais eficiente sempre compreendeu isso. O próprio Lula, ainda líder sindical no ABC paulista, repetia frequentemente que greve não pode virar um fim em si mesma. Ela precisa preservar apoio social para continuar sendo instrumento de pressão legítima.

Quando a sociedade começa a enxergar apenas o prolongamento do conflito — e não mais suas causas — o movimento entra numa zona perigosa.

Por isso, o encerramento da greve talvez tenha sido a decisão politicamente mais inteligente para o sindicato neste momento. Isso não significa derrota da categoria. Significa leitura de cenário.

Os professores preservam legitimidade nas reivindicações salariais e na crítica ao modelo de gratificação vinculado ao Ideb. Muitos docentes enxergam esse tipo de mecanismo como forma de meritocracia educacional que ignora desigualdades estruturais, condições reais de trabalho e diferenças sociais entre escolas.

Mas a prefeitura também percebeu algo importante: a sociedade passou a cobrar não apenas valorização profissional, mas também resultados educacionais concretos. E talvez esse seja o debate mais profundo que emergiu da greve.

A discussão deixou de ser exclusivamente sobre folha de pagamento. Indicadores de aprendizagem, desempenho escolar e qualidade da educação pública entraram definitivamente na arena política dos municípios. Canoas começa a experimentar isso agora.

O fim da paralisação não encerra a crise. Apenas muda sua natureza. A partir desta segunda-feira, a disputa sai das assembleias e entra na reconstrução prática da rede: reposição de aulas, recuperação pedagógica, reorganização do calendário e reconstrução da relação entre governo, professores e famílias.

Mas existe uma conclusão política difícil de ignorar. O sindicato possivelmente percebeu algo essencial: greve longa demais quase nunca termina fortalecendo trabalhadores. Em algum momento, ela começa a corroer exatamente o capital social que sustentava sua legitimidade inicial.

Encerrar agora talvez tenha evitado que Canoas atravessasse esse limite.


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