RAFAEL MARTINELLI

O cão Orelha, a Disney e a pedagogia da impunidade dos ricos

Confesso: choro — copiosamente — a cada nova informação que leio sobre o caso do cão Orelha. E não é um choro lírico, desses que lavam a alma. É um choro que vem acompanhado de raiva, de impulsos nada nobres, de uma dificuldade real de ser razoável. Porque o que está em jogo ali não é “apenas” a morte brutal de um cachorro comunitário na Praia Brava, em Santa Catarina. É, mais uma vez, a pedagogia da impunidade dos ricos sendo aplicada diante de todos nós.

Orelha tinha cerca de dez anos, era dócil, cuidado coletivamente por moradores, dormia em uma casinha com outros cães e fazia parte da paisagem afetiva da comunidade. Foi espancado por quatro adolescentes em uma das regiões mais ricas de Florianópolis. Apareceu dias depois agonizando, com múltiplas agressões e uma pancada na cabeça. Não resistiu. Teve que ser submetido à eutanásia.

Como se não bastasse, a Polícia Civil apura que o mesmo grupo tentou afogar outro cachorro, o Caramelo, que só escapou porque conseguiu fugir.

Até aqui, o horror. Mas é o depois que escancara o abismo moral do país.

Nenhum dos adolescentes está preso — a legislação só prevê institucionalização e restrição de liberdade em crimes contra a pessoa. Dois estão na Disney, em uma viagem “pré-programada”, segundo a polícia.

Familiares — entre eles empresários e um advogado — foram indiciados por coagir testemunhas. Celulares foram apreendidos, imagens analisadas, dezenas de depoimentos colhidos.

E a sensação coletiva, legítima, é de que nada acontecerá. Ou, no máximo, algo protocolar, simbólico, incapaz de ensinar qualquer coisa — se é que ainda existe ensino possível quando a psiquiatria aponta a crueldade contra animais como traço clássico de psicopatia e risco concreto à convivência social.

Essa certeza íntima da impunidade é o que torna o caso Orelha ainda mais insuportável.

A sociedade reage como reage porque não acredita mais na Justiça. Divulgam-se fotos dos adolescentes — o que também é crime, segundo o ECA. Pede-se linchamento moral, morte, vingança. Há quem clame por facções criminosas para “cumprirem a sentença”.

Um crime para reparar outro crime. Um atalho bárbaro que revela uma doença social profunda: quando o Estado falha, a barbárie se oferece como alternativa.

Nada disso nasce do nada.

O roteiro é conhecido. Basta lembrar do piloto de Brasília que neste janeiro, por causa de um chiclete, deu um soco em um adolescente de 16 anos, jogando-o em um coma irreversível. Depois do vídeo viralizar, surgiram outras denúncias: agressões anteriores, tapas em um homem de 49 anos após acidente de trânsito, um mata-leão em outro jovem, e um episódio estarrecedor em que forçou uma adolescente a beber vodca enquanto outras pessoas seguravam seus braços.

Playboy, carros de luxo, fiança paga, liberdade provisória. O padrão se repete.

Ou viajar um pouco mais no tempo, até 1997, quando cinco jovens de famílias ricas atearam fogo no indígena Galdino Pataxó enquanto ele dormia em um ponto de ônibus, em Brasília. Disseram que era “brincadeira”. Cumpriram penas reduzidas. Hoje, são servidores públicos concursados, pagos por todos nós.

A crueldade ficou no passado. O privilégio, não.

O mesmo mecanismo opera nos grandes escândalos econômicos.

A fraude bilionária das Lojas Americanas, estimada em R$ 25 bilhões, prendeu CEO por 24 horas, investigou funcionários, mas blindou os acionistas bilionários.

O caso do banco Master escancarou como funciona a corrupção real no Brasil: mercado saqueando o Estado, comprando política, justiça e imprensa, enquanto o discurso oficial aponta o dedo apenas para a política, jamais para os donos do dinheiro. Invisibilidade é poder. E poder, aqui, quase sempre significa impunidade.

Já a impunidade dos pobres é uma mentira. Uma fake news histórica. O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, mais de 850 mil pessoas presas. Majoritariamente pobres, majoritariamente pretas.

Como canta Elza Soares, a carne mais barata do mercado é a carne negra. Essa vai de graça para o presídio, para o subemprego, para o caixão. Enquanto isso, a sentença dos ricos costuma ser uma temporada na Disney.

O caso Orelha dói porque concentra tudo isso em um único episódio. Violência extrema, indícios de psicopatia, tentativa de acobertamento, famílias influentes, viagens internacionais, ausência de punição imediata. E uma sociedade que já não acredita que a Justiça seja capaz de proteger nem os mais frágeis — sejam eles cachorros comunitários, adolescentes, indígenas ou pobres anônimos.

A Declaração Universal dos Direitos dos Animais afirma que o respeito aos animais está ligado ao respeito entre os próprios humanos. A criminologia confirma: a violência contra animais é frequentemente o primeiro degrau de uma escada que termina em violência contra pessoas. Ignorar isso não é ingenuidade. É cumplicidade estrutural.

O perigo maior, no entanto, talvez seja outro. Quando a sociedade passa a julgar, condenar e sentenciar por conta própria, não porque gosta da barbárie, mas porque perdeu a fé no Estado de Direito, algo muito grave está em curso. A Justiça deixa de ser instituição e vira aposta. E apostas, como sabemos, nem sempre dão certo.

Orelha morreu. Mas o que realmente está sendo exposto, mais uma vez, é um país que naturalizou a crueldade dos de cima e criminalizou a sobrevivência dos de baixo. Um país onde a impunidade não é exceção: é método.

Ao fim, encerro com outra realidade, socorrendo-me da amiga ativista da causa animal: “a solução para maus tratos de cães comunitários é ADOÇÃO”.

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