A reeleição de Lula foi um chá de revelação moral na aldeia, mais uma vez. Circulam nas redes antissociais e aplicativos de mensagens em Gravataí e por diversas cidades gaúchas e brasileiras as infames “listas de boicote” contra comerciantes, prestadores de serviços e profissionais liberais acusados do ‘crime’ da preferência política.
Uma reedição da Lista Branca e da Lista Negra da década de 30, quando organizações nazistas e simpatizantes publicaram listas comerciais para orientar os consumidores a favorecer estabelecimentos alinhados ao movimento e boicotar outros. A Lista Negra, por óbvio, incluía estabelecimentos que os simpatizantes eram incentivados a boicotar. A Lista Branca, estabelecimentos considerados favoráveis ao movimento nazista, cujos produtos deveriam ser prestigiados.
O movimento não é inédito na aldeia — é uma reedição requentada da falência moral observada em 2018 e 2022, nas campanhas de vitória e derrota do hoje presidiário Jair Bolsonaro. Trata-se, em essência, do exercício da “banalidade do mal”, conceituação imortalizada por Hannah Arendt ao analisar a mente de Adolf Eichmann. O carrasco não era um monstro de fita de cinema; era ordinário, burocrático, comum. O ‘cidadão de bem’ que espalha uma lista no WhatsApp com a frase “não compro mais nem uma bala”, ou “não contrate petistas”, repete a mesma lógica: abdica do discernimento e adota o método dos regimes autoritários que carimbavam no peito do divergente o seu ‘distintivo moral’ de exclusão.
A denúncia do linchamento virtual ressoou no plenário da Câmara de Vereadores de Gravataí. A vereadora Vitalina Gonçalves (PT) e o vereador Cláudio Ávila (Avante) levaram o tema à tribuna. Vitalina, que é a cara de Lula em Gravataí e apresentadora das atividades de campanha do presidente na Capital há quase uma década, investiga a autoria para acionar o Ministério Público. Advogado, Ávila também alertou para as pesadas sanções jurídicas que espreitam os incitadores. Até mesmo o vereador Áureo Tedesco (MDB), que apoiou Flávio Bolsonaro no segundo turno e mantém um tradicional e histórico comércio na Morada do Vale, fez questão de rechaçar o linchamento comercial: “Quem faz isso não é comerciante de verdade”.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Gravataí, por meio de seu presidente Luiz Fernando Rodrigues, classificou as listas como “absurdas” e confirmou ao Seguinte: que divulgará nota oficial.
E não faltam enquadramentos legais para dar nome ao gado chucro. Como ensina e pondera o advogado Silvio Almeida no artigo “Punidos pelo voto”, sobre a retaliação pós-eleitoral, a invocação da “liberdade econômica” não é um salvo-conduto para o arbítrio e a perseguição: a Constituição Federal e o Código Civil (Artigo 187) estabelecem limites claros ao exercício abusivo de direitos que agridam a dignidade humana e a função social da propriedade.
Na esfera penal e trabalhista, especialistas ressaltam que as condutas associadas a essas listas podem configurar: Crimes contra a honra e perseguição: Difamação (art. 139 do CP), injúria (art. 140 do CP) e perseguição/stalking (art. 147-A); Ameaça e constrangimento ilegal: Previstos nos artigos 146 e 147 do Código Penal quando há intimação explícita ou velada; Discriminação e assédio nas relações de trabalho: A Lei nº 9.029/1995 proíbe expressamente práticas discriminatórias no emprego, assegurando ao trabalhador demitido por motivação política a reintegração com ressarcimento integral ou o pagamento em dobro da remuneração, além de reparações civis por danos morais; e LGPD e Concorrência Desleal: O tratamento e difusão não consentida de dados pessoais e posicionamentos políticos (considerados dados sensíveis) ferem a Lei Geral de Proteção de Dados e podem incitar concorrência desleal e infração concorrencial investigável pelo CADE.
Uma deputada recém-eleita tocou o ‘apito de cachorro’ e, após a repercussão negativa, as denúncias legais e, possivelmente, orientação jurídica, já gravou o tradicional vídeo de blusinha branca dizendo ter exagerado e justificando estar “com os nervos à flor da pele”. Faltou só o “quem me conhece sabe…”.
A segunda classe e as aspas morais — e a bolsa de sangue vermelho
Há um elemento ainda mais cruel no comportamento de quem adere ou divulga esses panfletos de linchamento: o verdadeiro ‘chá de revelação’ da falsa caridade e da arrogância patronal.
Nas redes sociais da região, multiplicam-se relatos de pessoas e supostos benfeitores — alguns inclusive ligados à causa animal — postando sem qualquer pudor que “não vão mais ajudar ninguém” e que os necessitados ou divergentes que “vão buscar benefícios com o governo”.
É a máscara da benemerência caindo. A caridade instagramável que essas pessoas praticavam nunca foi solidariedade ou empatia; era instrumento de dominação, pedágio moral para manter o outro de joelhos. Quando o cidadão exerce sua soberania no voto democrático, esses ‘patrões’ do bem e da moralidade expõem as garras e deixam claro o que pensam: enxergam a classe trabalhadora e os divergentes como uma subcategoria, uma segunda classe moral e de cidadãos, cuja dignidade só é tolerada enquanto for submissa. A segunda classe moral, em verdade, é justamente essa que divulga, comemora e se alimenta dessas listas de boicote.
Trata-se de uma cegueira lógica elementar. Como já escrevi anteriormente ao analisar diatribes de reacionários locais que bradavam “na minha casa petista não entra”, ou questionaram mães de petistas sobre o porquê de não tê-los abortado, o mundo real não funciona sob a ótica da suposta pureza ideológica da seita.
O feijão que essa gente asquerosa come, alguma mão de esquerda ajudou a plantar, colher e ensacar. O asfalto que sustenta o seu carro, a luz que acende a sua casa, o remédio que alivia a sua dor passaram pelo trabalho de alguém que ele preferiria descartar. E o frasco de sangue no hospital — de que tomara nunca precisem — não vem com carimbo ideológico. O sangue não é de esquerda nem de direita, apesar de vermelho.
Essa sanha de desumanização apoiava-se, inclusive, em uma evidente agenda oculta. Muitos dos entusiastas do boicote e fortões do mercado apostaram na candidatura derrotada de Flávio Bolsonaro sabendo — ou fingindo não saber — que o seu plano de ajuste fiscal sem mexer no salário mínimo ou nos pisos da saúde e da educação era uma aritmética mística, uma farsa de alucinações contábeis. Apostavam na mentira. Sabiam que a plataforma real era um cheque em branco que seria sacado diretamente do lombo dos mais vulneráveis e dos trabalhadores. O fim da escala 6×1 — aprovado quase unanimemente pelos congressistas de diferentes lados da ferradura ideológica — talvez seja o exemplo existencial.
Ao fim, a democracia não exige que se goste do vizinho, do comerciante do bairro ou do funcionário da empresa. Exige algo mais básico e essencial: que se reconheça o outro como cidadão legítimo.
Quando a convivência pacífica é substituída pela tentativa de asfixia econômica e pela criação de ‘distintivos morais’, a sociedade dá um passo perigoso rumo à barbárie. Contra o arbítrio dos que se acham donos da cidade, resta a firmeza das leis, a denúncia do povo e das autoridades e o julgamento moral da história. “Nazistas ordinários”. As aspas no texto são minhas. As aspas morais são de vocês.






