Moradores de Cachoeirinha atingidos pela enchente de 2024 entregaram uma carta-compromisso aos vereadores, nesta segunda-feira. A mobilização, que reuniu mais de 70 moradores na Câmara, acontece dias depois das mesmas reivindicações terem sido apresentadas à prefeita Jussara Caçapava.
No documento, a comunidade desenhou uma verdadeira estratégia de guerra contra os eventos extremos. Não se trata apenas de pedir assistência, mas de exigir engenharia, planejamento, transparência e, acima de tudo, a preservação daquilo que a natureza já nos deu de graça.
Reputo um dos pontos mais importantes e urgentes da carta-compromisso a exigência de manutenção do Mato do Júlio como uma ‘floresta urbana’ intocável. Por que considero este o ponto central de qualquer debate sobre resiliência no município? A resposta é simples: porque o Mato do Júlio é a única grande ‘obra’ de proteção contra cheias que já está pronta e em pleno funcionamento.
Na histórica enchente de 2024, a teoria científica transformou-se em evidência prática incontestável. Enquanto engenheiros calculavam diques, a vegetação nativa da área atuou como uma gigantesca ‘esponja natural’, absorvendo cerca de 35% da água que fatalmente inundaria Cachoeirinha. Se o Parque da Matriz e bairros vizinhos não ficaram completamente submersos, foi porque a floresta segurou o repique do Rio Gravataí.
Olhar para o Mato do Júlio hoje não é mais uma discussão puramente ecológica ou uma ode ao gato-do-mato-pequeno, espécie ameaçada que ali reside e que busca virar patrimônio municipal. Proteger os mais de 250 hectares da especulação imobiliária no novo Plano Diretor tornou-se uma questão de segurança climática, urbana e econômica. Seja viabilizando recursos federais e estaduais para transformá-lo em um ‘Central Park gaúcho’, ou simplesmente travando a monção do mercado imobiliário, a floresta precisa continuar de pé.
O contraste com as obras de engenharia cinza deixa isso muito claro. A reforma do atual dique, a modernização das casas de bombas na Avenida Nilo Peçanha e na Rua João Pessoa, e a tão sonhada extensão da proteção até Canoas ainda habitam o terreno dos projetos e anteprojetos. O cinturão de diques que envolve Cachoeirinha, Gravataí, Canoas, Alvorada e Porto Alegre tem uma projeção de conclusão otimista que mira o ano de 2030. Até lá, a principal barreira é a terra, o banhado e as árvores do Mato do Júlio.
A carta-compromisso entregue aos vereadores vai além da pauta verde. Ela expõe uma preocupação com os prazos fiscais e a execução orçamentária. Os moradores exigiram que os vereadores garantam emendas e dotações na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027 para bancar as obras estruturais que o anteprojeto do Governo do Estado apontar para o Parque da Matriz e para conter o Arroio Passinhos.
Há também um fantasma cronológico rondando o município: o Funrigs (Fundo do Plano Rio Grande). Esse mecanismo de financiamento emergencial tem previsão de extinção para meados de maio de 2027. Sabendo disso, a comissão de moradores cobrou agilidade máxima na fiscalização do anteprojeto municipal do dique existente e das casas de bombas.
A comunidade também demonstrou que não aceitará mais o papel de espectadora passiva. Uma das exigências prevê que, a cada seis meses, o Executivo envie relatórios técnicos detalhados sobre as condições estruturais das casas de bombas e do dique. Além disso, os moradores exigem que o novo Plano Diretor proíba sumariamente a liberação de áreas de risco de inundação para fins de urbanização.
O documento também apela para a necessidade urgente de estruturar uma Defesa Civil Municipal permanente. O que os atingidos alertam é para o fim do “amadorismo” ou do “uso político” do setor: querem profissionais concursados, com formação técnica e capacidade real de gerenciar um Plano de Contingência moderno e intersetorial para enfrentar os extremos climáticos.
Ao fim, como bem resume o lema que fecha a carta dos moradores: “Quem viveu a enchente não pode esperar pela próxima para que as soluções aconteçam”.
O dique de concreto vai demorar anos; cabe à política local garantir que as linhas do orçamento e as árvores do Mato do Júlio segurem as pontas até lá.
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