É ‘Dos Grandes Lances dos Piores Momentos’. Sob a assinatura do presidente da sigla e vice-prefeito do município, Luis Carlos Azevedo da Rosa — o Mano do Parque —, o PL de Cachoeirinha protocolou na Câmara de Vereadores uma representação por suposta quebra de decoro parlamentar contra o vereador Leo da Costa (PT), nesta sexta-feira (6). O processo tem potencial até de cassação do mandato e inelegibilidade por oito anos.
Reputo que se trata de um movimento absurdo em sua essência, hipócrita em sua origem e perigosamente inábil para o governo de Jussara Caçapava (Avante). Lembrou-me do atentado do Riocentro, ocorrido em 1981, quando os agentes da ditadura militar viram a própria bomba explodir no colo dentro daquele Puma no pátio do centro de convenções, onde queriam assassinar jovens que assistiam a um show e culpar ‘terroristas’ de esquerda. Mano do Parque e o vice-presidente do PL, Rafael Machado Pohaleski, acabam de acender um explosivo político que tende a detonar no próprio colo do governo municipal.
Vamos aos fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos.
A representação do PL se apega a um vídeo gravado por Leo da Costa após o segundo turno da eleição, no qual o parlamentar denuncia a circulação de infames ‘listas de boicote’ contra comerciantes, prestadores de serviço e trabalhadores que votaram em Lula em Cachoeirinha e Gravataí. Em sua manifestação, Leo chama os divulgadores do patrulhamento ideológico de “um bando de imbecil” e, historiador que é, lembra as analogias históricas com a perseguição nazista aos judeus nas décadas de 1930.
O pedido de cassação é absurdo porque Leo da Costa disse apenas a verdade.
Aqueles a quem a nota do PL se refere respeitosamente como “cidadãos de Cachoeirinha e Gravataí” que promovem e espalham listas de linchamento comercial e assédio político não são meros divergentes de opinião: são infratores das leis trabalhistas, penais e civis. Como já analisei detalhadamente nos artigos em que abordei esse verdadeiro ‘chá de revelação moral’ na aldeia, a criação e difusão dessas correntes configuram discriminação no emprego (Lei nº 9.029/1995), crimes contra a honra, stalking, ameaça e violação flagrante da LGPD e do Artigo 187 do Código Civil.
O adjetivo “imbecis” usado pelo vereador deveria ser a menor das preocupações para quem comete crimes e ressuscita o método sombrio da Lista Negra e da Lista Branca do nazismo ordinário. Detalhei nos artigos O ‘chá de revelação’ moral na aldeia: As listas de boicote, a falsa caridade e o nazismo ordinário em Gravataí e ‘Lista de petistas’: OAB de Gravataí repudia intimidação, aciona o MP e gabinetes viram canal contra a perseguição — e o Sindilojas?.
A nota do PL argumenta ainda que foram “estabelecidas associações entre integrantes e simpatizantes do Partido Liberal e a ideologia nazista”. Assisti repetidas vezes ao vídeo do vereador [assista clicando aqui]. Não há ali qualquer associação direta ao partido. O único gancho possível é o trecho em que Leo, ao criticar empregadores que promovem a retaliação econômica, faz uma analogia com aqueles que se posicionam contra o fim da escala 6×1 sob o mantra ilusionista do “negocia com o patrão”.
Parece-me ruim o PL e o vice-prefeito, salvo melhor juízo, vestirem o chapéu. Até porque, no caso, seria um ‘chapéu de alumínio’.
Superado o absurdo jurídico, entramos no terreno da hipocrisia em estado puro.
Para cobrar “decoro parlamentar” e acusar Leo de ter ferido a honra alheia por chamar propagadores de listas ilegais de “imbecis”, o presidente do PL precisaria ao menos ostentar um histórico de ilibada urbanidade nas redes sociais. Mas a memória digital é implacável.
Às vésperas do segundo turno das eleições, o próprio Mano do Parque publicou em suas redes sociais um vídeo com a legenda “Cheiro de merda. Ah, peraí! Kkkkkk”. No registro, o vice-prefeito e seus apoiadores encenavam um esquete bizarro, parados no canteiro da avenida principal e perguntando uns aos outros: “E esse cheiro de merda aí?”, “Bah, um fedorão”. A cena encerrava com o vice-prefeito olhando a sola dos próprios tênis até encontrar, caído no chão, um adesivo da campanha de Lula. “Ah, aqui ó!”, concluía Mano, aos risos. [assista clicando aqui]
Se fôssemos aplicar a rigorosa ‘régua moral e institucional’ da nota oficial do PL, teríamos que concluir que Mano do Parque foi indecoroso e, ao menos por analogia, chamou de “merda” os 33.857 eleitores de Cachoeirinha, habitantes da cidade governada por sua chapa, que votaram em Lula no segundo turno.
Nem vou adentrar no migué da ‘liberdade de expressão’, defendida por alguns apenas quando convém.
O Riocentro político no colo de Jussara
Mas é na metafísica da política local que o ato do PL transborda para a mais pura falta de juízo estratégico.
A prefeita Jussara Caçapava passou meses sangrando na incerteza jurídica até finalmente alcançar a estabilidade para governar, após vencer todas as AIJES que tentavam a sua cassação — e a do próprio Mano do Parque. Quando a poeira finalmente baixava, permitindo que a gestão focasse em entregas e na reconstrução da cidade, o seu vice-prefeito resolve fabricar uma crise artificial de proporções estaduais.
Mano do Parque interfere desnecessariamente nas relações do Poder Legislativo e provoca um constrangimento no poder alheio e também dentro da base. A reação foi imediata e cruzou as fronteiras partidárias. Não veio apenas do PT gaúcho, que emitiu nota de repúdio denunciando a perseguição ao vereador. A solidariedade mais emblemática veio de dentro do próprio ecossistema do governo: o advogado Cláudio Ávila — assessor especial a quem a prefeita Jussara já disse ter “dez cérebros” — e vereador em Gravataí pelo Avante — o mesmo partido da prefeita —, veio a público em nota oficial defender o arquivamento imediato da representação.
Advogado, com a vivência de quem conhece os atalhos do Direito e da política, Ávila apontou que não existem fundamentos regimentais ou jurídicos para a denúncia e deu o recado que Cachoeirinha inteira talvez gostaria de dar: “A eleição acabou! É hora de governar!”. Ao demonstrar confiança no presidente da Comissão de Ética, vereador Paulinho da Farmácia, Ávila escancarou que o circo criado pelo PL não encontra respaldo sequer entre os aliados da prefeita.
É preciso lembrar quem é o alvo da provocação. Léo da Costa não é uma figura periférica da política. Nas urnas de 2024, emergiu como o vereador mais votado da cidade com 3.117 votos em sua estreia aos 26 anos. Nas eleições gerais de 2026, consolida-se como um fenômeno regional de mobilização e redes sociais, obtendo 8.260 votos (11,74%) para deputado estadual somente dentro de Cachoeirinha — superando, de longe, o desempenho dos próprios candidatos apoiados por Mano do Parque no município (como Adri Cherini, que fez apenas 1.727 votos na cidade).
Léo da Costa é uma liderança em franca ascensão, um ambientalista que transformou a pauta do Mato do Júlio e a denúncia da crise climática em capital político real, postando-se como a grande estrela da oposição para a sucessão de 2028. Provocar um fenômeno das redes sociais e um campeão de urnas em pleno momento de estabilidade do governo é de uma inépcia monumental. É dar a Léo a estátua de mártir, a vitrine estadual e o palanque perfeito que ele jamais conseguiria sozinho.
Ao fim, tomo a liberdade de cometer aqui uma recomendação pública a Mano do Parque, com quem mantenho uma relação de respeito de longo tempo, muito embora calcemos a ferradura ideológica em pés completamente diferentes: és o vice-prefeito de Cachoeirinha!
Se é para se perder em um personagem da vida pública, que seja no de gestor. Cachoeirinha tem problemas complexos, demandas represadas na saúde, infraestrutura e educação, e precisa de um vice-prefeito focado na administração da cidade, e não de um tiktoker alimentador de crises institucionais. Para ficar fazendo ‘polarização’ e lacração já existem puxa-sacos em quantidade mais do que suficiente nas redes antissociais para representá-lo.
Resta esta polêmica toda como uma (desnecessária) grande m… Desculpem-me a expressão, mas eu posso ser indecoroso. Não sou o vice-prefeito de lugar algum.





