A Polícia Civil do Rio Grande do Sul deflagrou, na manhã desta terça-feira (13), a Operação Mirage, uma das maiores ofensivas recentes contra golpes de falsos investimentos no ambiente digital e que serve de alerta para investidores de toda Região Metropolitana.
A ação, conduzida pela Delegacia de Polícia de Investigações Cibernéticas Especiais (Dicesp/Dercc), teve como alvo uma organização criminosa especializada em estelionato eletrônico, associação criminosa e lavagem de dinheiro, com ramificações em diferentes estados brasileiros e no exterior.
Ao todo, foram cumpridas 125 ordens judiciais, incluindo cinco mandados de prisão preventiva, 13 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo e Goiás, bloqueio de contas bancárias de 85 pessoas físicas e jurídicas, sequestro de veículos de luxo e o bloqueio de carteiras de criptoativos mantidas em 17 exchanges.
Até o momento, três pessoas foram presas. Milhares de chips de telefonia, celulares, computadores e veículos foram apreendidos.
Segundo a delegada Isadora Galian, responsável pela investigação, o esquema causou prejuízo superior a R$ 4,3 milhões a uma única vítima gaúcha, em menos de um mês, e há indícios de que ao menos outras 40 pessoas tenham sido lesadas em diferentes regiões do país.
O golpe: do lucro real à miragem digital
As investigações começaram após o registro de ocorrência por uma vítima do Rio Grande do Sul, que relatou ter sido enganada por um grupo que se apresentava como empresa de consultoria especializada em investimentos. O primeiro contato ocorreu por meio de anúncio patrocinado em rede social, prometendo alta rentabilidade no mercado de ações.
A vítima foi então inserida em um grupo de aplicativo de mensagens, com cerca de 65 a 88 participantes, onde supostos investidores experientes e “professores” compartilhavam dicas. O líder se apresentava como um professor americano de investimentos, com formação em universidade dos Estados Unidos e dono de uma empresa internacional. Uma mulher atuava como “assessora”.
Inicialmente, as orientações envolviam operações reais em plataformas nacionais, com ganhos efetivos, estratégia usada para criar credibilidade. Na sequência, os criminosos induziram a migração para criptomoedas, direcionando a vítima a uma plataforma fraudulenta, controlada pela própria organização.
“O capital da vítima era transferido via Pix para contas de diversas empresas e, supostamente, convertido em criptoativos. Os saldos e lucros exibidos eram artificialmente inflados para estimular novos aportes”, explicou a delegada. Após ciclos de lucros fictícios, surgiam perdas repentinas, sempre atribuídas a erros da própria vítima.
Para “recuperar” o dinheiro, os golpistas ofereciam acesso a um suposto grupo VIP, com promessas irreais de rentabilidade que chegavam a 6.000%. O resultado: R$ 4.378.000 transferidos em menos de 30 dias, apenas no mês de maio de 2025.
Organização criminosa e divisão de tarefas
A investigação revelou uma estrutura criminosa altamente organizada, com divisão de funções.
Captação de vítimas: uso de linhas telefônicas registradas em nome de terceiros, ativadas remotamente, com dados vazados na internet.
Ativação de chips — o “chipeiro”: um investigado de São Paulo habilitava até mil novos números por dia, permitindo que golpistas no Camboja utilizassem números brasileiros para operar os golpes.
Gestão e lavagem de dinheiro: empresas de fachada, criadas recentemente, com movimentações milionárias incompatíveis com a renda declarada dos sócios. Uma delas movimentou R$ 2,2 milhões em menos de um mês.
Conversão em criptoativos: valores rapidamente transformados em stablecoins e pulverizados para dificultar o rastreamento. Houve registro de mais de R$ 7 milhões convertidos em criptomoedas em um único dia.
Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) apontaram fracionamento sistemático de valores, circularidade entre empresas semelhantes e uso de “laranjas”, inclusive jovens de baixo poder aquisitivo.
Prisões e rastreamento de ativos no exterior
Cinco investigados tiveram prisões preventivas decretadas, incluindo o chamado “chipeiro”, operadores financeiros, responsáveis pela conversão em criptomoedas e pela lavagem do dinheiro. Um dos alvos, apontado como autor intelectual, ostentava vida de luxo nas redes sociais e se apresentava como empresário digital em Goiás.
De acordo com a delegada Isadora Galian, a Operação Mirage é apenas o início. A Polícia Civil trabalha agora na identificação de todas as vítimas, no rastreamento de ativos enviados ao exterior, na cooperação internacional e na criação de mecanismos de reparação dos prejuízos.
O diretor da Divisão de Repressão aos Crimes Cibernéticos, delegado Filipe Bringhenti, destacou que o grupo adotou a lógica do “crime as a service”, contratando especialistas em diferentes países para viabilizar o golpe. “A operação mostra que o ambiente digital não é terra sem lei”, afirmou.
A Polícia Civil alerta: promessas de lucros extraordinários, especialmente no mercado de criptomoedas, devem ser vistas com extrema desconfiança. Antes de investir, é essencial verificar se a empresa possui registro na CVM e no Banco Central.
Por que “Mirage”?
O nome da operação faz referência a algo que parece real e promissor à distância, mas desaparece quando se tenta alcançá-lo. Exatamente como o esquema que transformou a expectativa de lucro rápido em prejuízo milionário.






