RAFAEL MARTINELLI

Entre Lula e Bolsonaro, o significado de Leite na corrida presidencial; o ‘extremo centrismo’

Caso seja o azarão escolhido por seu partido para ser candidato à Presidência da República, Eduardo Leite (PSD) — que nesta sexta-feira dá início a obras de escola-modelo para mais de mil alunos em Gravataí — é a representação mais coerente de um projeto de centro e centro-direita liberal sem romper com a democracia e nem se render ao antagonismo permanente entre lulismo e bolsonarismo.

É o ‘extremo centrista’. E isso, longe de ser ironia, pode ser definição política.

Após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, Leite não ficou atrás do muro.

Condenou publicamente os ataques às sedes dos Poderes. Classificou-os como inaceitáveis e antidemocráticos. Participou da cerimônia de um ano dos atos e reforçou que não estava ali por alinhamento eleitoral, mas por defesa do Estado Democrático de Direito.

Subiu a rampa do Planalto ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva no gesto institucional que reuniu governadores após a tentativa de ruptura.

Disse, à época, que democracia não pertence a uma ideologia. Para o eleitor liberal, isso deveria ser cláusula pétrea.

Sobre o debate da anistia aos condenados do 8 de janeiro, Leite foi claro: não cabe anistia irrestrita. Eventual revisão de penas deve ocorrer dentro de diálogo institucional. Mas também afirmou que nem a prisão de um ex-presidente pacifica o país.

É posição desconfortável para ambos os polos. E talvez por isso seja politicamente relevante. O liberalismo democrático não deveria operar por vingança nem por indulgência automática, e sim por regras.

Estado de Direito não é negociável. Golpe não é narrativa. Instituição não é instrumento.

Leite não relativizou vandalismo. Não flertou com anistia irrestrita. Não se escondeu.

Em tempos de radicalização, isso é posição, não omissão.

Em 2018, declarou apoio a Jair Bolsonaro no segundo turno. Em 2022, não apoiou nem Lula nem Bolsonaro. Pagou preço por isso.

“Eu não apoiei o Lula nem o Bolsonaro”, repetiu mais de uma vez ao defender sua disposição de ser candidato ao Planalto.

Independência, no Brasil polarizado, custa voto. Mas constrói de verdade a tal “terceira via”.

Hoje, Leite afirma que é o único entre os pré-candidatos competitivos que não abraçou nenhum dos dois polos na última eleição presidencial.

Leite faz críticas ao governo federal na pauta fiscal, na velocidade das concessões, na previsibilidade regulatória. Mas não transformou divergência em boicote institucional.

Durante as enchentes históricas no Rio Grande do Sul em 2024, governo estadual e federal atuaram de forma coordenada na reconstrução.

Houve tensão política. Não houve sabotagem.

Quando foi vaiado por petistas em Rio Grande, reagiu lembrando que aquele era um ambiente institucional, não um comício. Perguntou: “Este é o amor que venceu o medo?”

Quando foi vaiado por bolsonaristas na Expointer, respondeu que já havia sido vaiado antes — e continuou governando.

Ser vaiado pelos dois lados pode parecer fragilidade. Mas pode significar coerência. Ele não se converteu a nenhum dos ‘lados’. Nem rompeu pontes com nenhum dos dois.

Leite construiu sua marca com agenda reformista num Rio Grande do Sul que herdou quebrado, com salários parcelados: reforma da Previdência estadual, ajustes administrativos, privatizações, como a da CEEE, busca por equilíbrio fiscal e redução do tamanho da máquina.

Seu discurso combina três pilares do liberalismo democrático: responsabilidade fiscal, Estado enxuto e eficiente e respeito às instituições

Não é liberalismo retórico. É liberalismo de gestão, goste-se ou não — do discurso ou dos resultados.

O ‘extremo centrista’

O termo pode soar paradoxal. Mas talvez seja definição precisa.

Num país onde lulismo e bolsonarismo se retroalimentam, ocupar o centro exige sair não de cima, mas de trás do muro. Ao menos no discurso, é o que Leite tenta comunicar.

Ser liberal na economia. Democrático nas instituições. Pragmático na governabilidade.

Ao fim, reputo incompatível com o ideário liberal a direita comprar a ‘escolha difícil’ e, de garfo e faca à mesma mesa, engolir o extremismo do bolsonarismo familiar de Flávio.

Identifico em Leite o único liberal de conceito e prática que pode restar na corrida presidencial.

Não tem meu voto, mas há de se reconhecer seu papel didático.

E este é um artigo para desagradar a todas as vias.

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