Minutos depois do Seguinte: publicar a desistência, o ex-prefeito José Stédile ligou para confirmar: está fora da eleição suplementar de 12 de abril em Cachoeirinha. E quis explicar.
A política suplementar de Cachoeirinha perdeu um candidato — mas ganhou versão oficial.
Stédile corrigiu uma informação da reportagem anterior. Disse que se licenciou da direção da Fase após a convenção do PSB, como exige a legislação eleitoral, mas que agora retornará ao cargo.
A candidatura, portanto, existiu formalmente. Politicamente, não resistiu.
A palavra que moveu — e encerrou — a candidatura foi a mesma: unidade.
– Busquei uma unidade por Cachoeirinha. Um grupo que apresentasse os melhores quadros para cada secretaria – afirmou.
Segundo ele, havia demanda social:
– Conversava com o funcionalismo e pediam: ‘volta’. Nunca atrasamos salários. Falava com empresários que diziam: ‘Que saudades do teu governo, onde para receber a gente não precisava falar com ninguém, recebia’. E a gente sabe que os atrasos têm um motivo.
O discurso é econômico antes de ser eleitoral. Stédile tenta reconectar seu legado administrativo ao cenário atual:
– Em meus governos Cachoeirinha estava entre os 10 municípios que mais cresciam. Crescemos 80% acima da inflação. O PIB subiu e era maior que muitos municípios maiores que nós. Hoje a cidade deixou de ser atrativa para investimentos.
É a narrativa da previsibilidade. A cidade que crescia. A máquina que pagava em dia. O planejamento que estruturava.
O ex-prefeito detalha realizações como quem presta contas a um eleitor que já decidiu não disputar.
– Recuperamos financeiramente a Prefeitura. Conseguimos um financiamento de 10 milhões de dólares, um bom investimento na época. E usamos para melhorar a infraestrutura em locais que poderiam atrair investidores. Duplicamos a Ritter, fizemos a ligação da Papa João XXIII. A cidade tinha planejamento para crescer. Não adianta só gastar e não fazer crescer a arrecadação”.
O argumento central é este: crescimento não é despesa: é estratégia. A desistência, nesse contexto, não é recuo ideológico. É avaliação de viabilidade política.
Como escrevi mais cedo, a candidatura já nascera com vírgula. Chapa pura no papel, porta entreaberta nos bastidores.
A vírgula virou ponto.
O silêncio de Cristian
Perguntei diretamente se o prefeito cassado Cristian Wasem (MDB) e o segundo colocado na eleição David Almansa (PT) poderiam ter feito mais para construir uma candidatura única da oposição.
Stédile respondeu com cautela e franqueza.
– Eu acreditava na unidade. Não precisava ser meu nome. Poderia até ser vice. Mas cada partido lançou o seu. Não sei se Cristian e Almansa conseguiriam algo diferente.
Mas acrescentou um dado político relevante:
– Tudo ficou mais difícil com Cristian perdendo o MDB. Cristian nunca falou comigo.
É um fato político chocante para quem acreditou em uma unidade da oposição. É Dos Grandes Lances dos Piores Momentos.
Na reportagem anterior, registrei que interlocutores apontavam frustração de Stédile com a falta de articulação de lideranças que poderiam ter operado convergência.
Agora, o próprio ex-prefeito confirma o distanciamento.
Sem diálogo, não há unidade. Sem unidade, não há candidatura competitiva.
O plebiscito que sobra
Com a saída de Stédile, o cenário permanece fragmentado.
A prefeita interina Jussara Caçapava (Avante) mantém base robusta na Câmara e estrutura de governo.
Claudine Silveira (PP) sustenta candidatura com apoio de Cristian como ‘Grande Eleitor’.
O PT optou por chapa pura.
PSOL e Rede também.
A eleição suplementar, que já foi descrita como laboratório político, inscreve-se cada vez mais como plebiscito entre cassados e cassadores.
– Busquei unidade – repete Stédile.
O contato não veio.
E, como ele próprio advertira em áudio vazado dias atrás, “a Jussara deve estar rindo de nós”.
Como favorita. São os fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos.






