É uma bomba política, até então silenciosa, que o Seguinte: revela hoje.
Em reunião realizada na terça-feira (23), o diretório municipal do PT de Cachoeirinha decidiu fechar posição contra a cassação do prefeito Cristian Wasem (MDB) e do vice-prefeito Delegado João Paulo Martins (PP) nos dois processos que tramitam na Câmara: o Impeachment 1.0 e o Impeachment 2.0, ambos já na reta final antes do julgamento em plenário.
A orientação partidária é que os vereadores Gustavo Almansa e Leo da Costa devem votar contra as cassações.
A decisão, porém, nasceu cercada de cautela — e contradições.
Oficialmente, o partido optou por não publicizar a posição. Extraoficialmente, o Seguinte: apurou o resultado da votação interna e os bastidores com diferentes fontes, dentro e fora do município.
O placar no diretório foi de 10 votos a 4 contra os impeachments.
Gustavo Almansa, líder da bancada petista na Câmara e integrante do diretório, votou com a tese vencedora.
Leo da Costa, que não tem assento no diretório, não manifestou posição formal, mas levantou — segundo relatos convergentes — uma preocupação central: o custo político de o PT ser percebido como o partido que salvou Cristian.
O vereador, então, teria sido alertado de que o descumprimento da orientação partidária resultaria em abertura de processo na comissão de ética, com possibilidade de expulsão e até ação por infidelidade partidária — o que, no limite, poderia levar à perda do mandato.
Leo — o único a se manifestar em mensagem enviada ao Seguinte: — confirmou apenas parte do cenário.
“Sou a pessoa mais partidária que conheço. Dito isso, não comentarei decisões internas do diretório. As posições serão reveladas no dia da votação. Qualquer coisa além disso é especulação”, escreveu.
E arrematou, mirando a base social:
“O PT precisa voltar pra base. O Partido do Povo precisa entender o que o povo quer. Deixou de entender a comunidade? Já era”.
A presidente municipal, Patrícia Damasceno e os irmãos Almansa não retornaram os contatos feitos pelo Seguinte: até o fechamento da reportagem nesta sexta-feira.
A fé na ‘Oração a São PT’
A decisão do PT materializa, na prática, o que em artigos anteriores batizei de ‘Oração a São PT’.
Para cassar prefeito e vice, são necessários 12 votos entre os 17 vereadores. Teoricamente (e adiante explico), Cristian e Delegado contariam com os quatro votos que já foram contrários à admissibilidade dos impeachments: Claudine Silveira (PP), Cleo do Onze (MDB), Edison Cordeiro (Republicanos) e Uilson Droppa (Podemos).
Com os dois votos petistas, chegariam aos seis necessários para escapar — e, de quebra, evitar a inelegibilidade por oito anos.
Mas a política raramente admite projeções de aritmética pura.
Está mais para fé política aplicada.
Como detalhado anteriormente pelo Seguinte:, houve suspeitas de uma reaproximação entre o governo Cristian e figuras centrais do PT, simbolizada pelo anúncio da obra de revitalização do Arroio Passinhos, com a presença de pesos-pesados como Paulo Pimenta, Laura Sito, Maneco Hassen e David Almansa — ex-candidato a prefeito que enfrentou Cristian em 2022 e 2024 e que, no diretório, manteve posição contrária às cassações.
Naquele ato, no gabinete do prefeito, a liturgia política permitiu a Cristian acreditar no milagre da ‘Oração a São PT’: Lula citado como “nosso presidente”, a “democracia” evocada, tentativa do “golpe” bolsonarista lembrada — e o impeachment (com referências a Dilma Rousseff e a prefeita de Gravataí Rita Sanco, ambas petistas cassadas) enquadrado como “arma da ditadura” em alguns discursos, já que o Decreto 201, que rege os processos, data do ano de chumbo de 1967.
Leia mais em ‘Oração a São PT’ ganha fiéis: a manhã que aproximou Cristian de quem pode salvar seu mandato em Cachoeirinha.
Gustavo Almansa estava presente — apesar de horas depois ter soltado vídeo explicando que o anúncio conjunto da obra não tinha relação com a definição futura sobre o voto nos impeachments.
A ausência de Leo da Costa no evento, porém, foi notada.
A ‘Oração’ ainda restava uma profissão de fé, imaterial. Mas, inegavelmente, possível.
Do milagre à apostasia
O problema é que, em política, milagre de um lado costuma gerar apostasia do outro.
Dias depois do aparente estreitamento de inimizades entre MDB e PT no gabinete do prefeito, a inscrição para a eleição da Mesa Diretora da Câmara para 2026 trouxe um sinal oposto: além de Gustavo Almansa, o pastor Edison Cordeiro — que havia votado contra a admissibilidade dos impeachments — aderiu à chapa única de Jussara Caçapava (Avante), hoje principal adversária do prefeito; Cristian chegou a apresentar um pedido de cassação da presidente, derrubado pelos vereadores.
Reeleita, Jussara se tornou a terceira na sucessão municipal e, em caso de cassação do prefeito e vice, será prefeita até a realização de uma eleição suplementar, cujo prazo limite é de 180 dias conforme a legislação eleitoral.
Se Gustavo Almansa justificou a adesão como uma articulação para garantir a representatividade da bancada do PT na Mesa Diretora, o discurso de Edison, carregado de metáforas religiosas, instigou Cristian e Delegado a fazer o sinal da cruz.
O pastor falou em compromissos rompidos, em palavras não cumpridas, em consequências inevitáveis. Para muitos, foi o anúncio de um rompimento definitivo com o governo; leia em Eleição de Jussara Caçapava na Câmara antecipa eleição para prefeita de Cachoeirinha — e a futurologia da suplementar começou.
O resultado é um cenário paradoxal: Cristian pode ter conquistado os dois votos do PT — mas perdido o voto que não podia perder.
O santo da igreja sem santos
Os dois processos caminham para o desfecho.
O Impeachment 2.0, considerado o mais robusto e politicamente decisivo por envolver também o vice-prefeito, já encerrou a fase de instrução e aguarda as alegações finais da defesa.
O Impeachment 1.0, mais frágil juridicamente, avançou com o depoimento do prefeito e também está na fase final.
Os prazos permitem que os julgamentos ocorram até 15 de janeiro — mas não está descartada a realização ainda em dezembro, já que a Câmara manterá atividades nos dias 24, 26, 29 e 30.
Há ainda variáveis importantes.
Jussara não vota, por ser beneficiária direta da cassação. Claudine Silveira (PP), esposa do vice, pode ser considerada impedida. Entram os suplentes: Gelson Braga (Avante) — voto considerado certo pelo impeachment — e Fernando Medeiros (PP), com quem o governo conta.
Fato é que o placar voltou a ser tão impalpável quanto o endereço da fé de cada um.
A oração, agora, muda de santo. E a igreja de Edison Cordeiro não tem santos.
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