Na noite da última quarta-feira (18), a Casa de Cultura de Gravataí deixou de ser apenas um espaço cultural para se transformar em território de encontro. Lotada, pulsante, atravessada por vozes, afetos e expectativa, foi palco de uma celebração rara — daquelas em que a cultura não apenas acontece, mas se faz sentir.
No centro dessa noite estava Isabella Andrade de Menezes, 12 anos, que apresentou ao público o livro Amarelinha: Passos que unem. Mais do que uma estreia literária, a obra se revelou como um gesto: delicado na forma, firme na intenção — incluir.
A proposta parte de algo simples e universal: a amarelinha. Mas o que poderia ser apenas uma lembrança de infância ganha novos contornos ao longo das páginas.
Inspirado em diferentes culturas, o livro apresenta variações da brincadeira ao redor do mundo, resultado de pesquisas realizadas pela jovem autora. A partir desse percurso, Isabella desenvolveu um modelo de amarelinha inclusiva — em que o brincar se adapta, acolhe e se reinventa.
A ideia é direta, mas potente: garantir que todas as crianças tenham lugar no jogo.
Um dos diferenciais da obra está na forma como a diversidade é incorporada. O leitor pode escolher entre oito personagens para acompanhar a história — bonequinhos que representam diferentes realidades.
Entre eles, crianças com óculos, com Síndrome de Down, autistas e personagens típicos convivem de maneira natural, sem hierarquias ou explicações didáticas.
A inclusão aparece no gesto mais simples: todos brincam juntos.
Uma noite que foi além do lançamento
O evento reuniu autoridades, familiares e comunidade. Estiveram presentes o secretário municipal de Cultura, Patrick Silva, o secretário adjunto Giulliano Pacheco e a coordenadora da Casa de Cultura, Ângela Xavier.
Ao destacar o significado da obra, Patrick Silva apontou para o papel essencial da cultura quando se propõe a alcançar a todos. Segundo ele, trata-se de um livro verdadeiramente inclusivo, capaz de acolher diferentes infâncias e ampliar horizontes.
Já Giulliano Pacheco conectou o momento ao recente passado. Lembrou que Isabella foi homenageada na última Feira do Livro de Gravataí, marcada pelo tema do tradicionalismo, como símbolo de uma nova geração que não apenas herda a cultura — mas a reinventa.
Visivelmente emocionada, Isabella resumiu a noite com a simplicidade que atravessa sua obra. Disse que aquele era um sonho realizado — e que seu maior desejo é que todas as crianças possam se ver e se sentir parte da história.
A fala ecoa o que já havia sido percebido na reportagem publicada anteriormente: mais do que contar uma história, a autora propõe um olhar. Um modo de entender o mundo a partir da infância — onde brincar também é incluir.
A noite terminou, mas deixou algo suspenso no ar. Não apenas aplausos ou registros, mas a sensação de que algo foi inaugurado. Porque, quando uma criança escreve, não nasce só um livro. Nasce um caminho.
E, entre páginas, saltos e encontros, Gravataí assistiu a alguns deles começarem — casa por casa.






