O Instituto de Saúde dos Servidores de Gravataí (ISSEG), que alertei há pouco mais de um ano parecer caminhar para o “início do fim”, apresentou na quarta-feira (20) um balanço que o governo Luiz Zaffalon trata como virada de chave política, administrativa e financeira do plano de saúde dos municipários.
Em reunião com o prefeito, o Conselho Administrativo do instituto apresentou o Relatório de Avaliação Atuarial ISSEG (0076/2026), referente ao período entre abril de 2025 e março de 2026.
O dado mais simbólico veio junto com o anúncio político: não haverá reajuste nas mensalidades em 2026.
A decisão ocorre pouco tempo depois de o instituto enfrentar uma crise que chegou a projetar um aumento de 73,68% nas contribuições dos servidores — e em meio a um cenário em que planos privados devem registrar reajustes estimados entre 11% e 20% no próximo ano.
– Saio com a sensação do dever cumprido. As projeções quando assumi eram de um aumento de mais de 70% – disse Fábio Pereira, que deixou a presidência do ISSEG para assumir, a convite do prefeito, a Secretaria Municipal de Assistência Social.
O encontro reuniu ainda o atual presidente do instituto, Tanrac Saldanha; o diretor administrativo-financeiro, Ilson Roberto Cezar Américo; o assessor jurídico Bruno Kologeski; o presidente do Conselho Administrativo e diretor de saúde, Paulo Ricardo Bairros; além da presidente do sindicato dos professores, Silvina Peres.
A fotografia atual contrasta com o cenário vivido pelo ISSEG no final de 2024. Na época, como revelei em uma série de reportagens no Seguinte:, o plano enfrentava um déficit crescente, com despesas mensais chegando perto de R$ 3 milhões, arrecadação insuficiente e um cálculo atuarial que inicialmente apontava necessidade de reajuste de até 212%.
Após revisão das contas e medidas de gestão, o percentual acabou reduzido para 73,68% — ainda assim considerado explosivo politicamente e financeiramente para os cerca de 3 mil usuários do plano entre servidores e dependentes.
O temor era real: uma debandada de associados poderia tornar inviável o sistema criado em 2019 após a crise e praticamente a falência do antigo IPAG Saúde.
Naquele momento, o próprio prefeito admitia preocupação com a sustentabilidade do instituto.
“Pode ser o início da extinção do plano”, reconheceu Zaffa em entrevista ao Seguinte: em novembro de 2024.
A sobrevivência do ISSEG passou então a depender de uma combinação de fatores: cortes de custos, reorganização de cirurgias, campanhas para adesão de novos associados e negociação política entre governo e sindicatos.
Um acordo costurado entre Executivo e entidades parcelou o reajuste e criou uma espécie de força-tarefa para salvar o plano.
A melhora financeira ganha peso ainda maior porque ocorre depois de outra decisão polêmica tomada pelo governo Zaffa 2.
Em 2025, a Câmara aprovou uma mudança na Lei Orgânica retirando a obrigatoriedade de repasses anuais da prefeitura ao ISSEG — hoje na casa de aproximadamente R$ 10 milhões.
O governo sustentou que o instituto precisava caminhar para autossustentação financeira. Já sindicatos e oposição alertaram para o risco de desfinanciamento e até de colapso do sistema de saúde dos servidores.
Na prática, a nova lógica criou uma pressão permanente: sem a garantia constitucional dos aportes municipais, o ISSEG precisa provar capacidade de sobreviver sozinho — ou corre o risco de virar um plano caro demais para os servidores ou financeiramente inviável.
Por isso, o relatório apresentado nesta quarta-feira tem valor que vai além do técnico. Ele serve também como resposta política.
Além da estabilização atuarial, o instituto anunciou ampliação de serviços — tentativa clara de tornar o plano mais competitivo frente ao mercado privado e aumentar a percepção de valor entre os servidores.
Entre os novos atendimentos previstos estão psicoterapia infantojuvenil e para adultos, terapia ocupacional infantojuvenil e psicomotricidade infantojuvenil.
O instituto também negocia a inclusão de novos hospitais considerados estratégicos para a rede credenciada. Exemplos são o Hospital Nora Teixeira e o Instituto de Cardiologia.
A estratégia busca enfrentar um dos principais desafios históricos do ISSEG: manter atratividade sem explodir custos.
Politicamente, a estabilização do ISSEG representa uma boa notícia para o governo.
A crise do plano de saúde dos servidores era tratada como uma potencial bomba-relógio do segundo mandato de Zaffa — especialmente porque envolve diretamente professores, funcionalismo e sindicatos tradicionalmente organizados.
O congelamento do reajuste em 2026 permite ao governo apresentar um discurso de eficiência administrativa em um momento no qual também enfrenta debate público sobre endividamento, ajuste fiscal e contenção de despesas, além de uma negociação que abre nesta sexta-feira com sindicato dos professores pressionada por índices educacionais constrangedores.
Ao fim, o ISSEG parece ter conseguido algo que há pouco mais de um ano parecia improvável: sair da UTI sem aumentar a conta para os servidores.
Agora começa outra etapa. A de provar que a recuperação não é apenas uma melhora momentânea, mas sustentabilidade de longo prazo para um plano que, se não é o ideal, ao menos sobrevive.
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