Há disputas políticas duras. Há disputas políticas feias. E há aquelas que simplesmente deixam de ser política.
O que se vê no caso envolvendo Marcelo Mello Piton, em Cachoeirinha, é exatamente isso: o momento em que a linha é atravessada — e não por pouco.
A representação apresentada pelo filiado ao PP Vinicio Costa da Luz, pedindo a expulsão do também suplente e diretor da Prefeitura Piton por infidelidade partidária, até poderia seguir o roteiro conhecido: divergência interna, acusações de campanha para adversários, disputa por espaço. Nada disso é novo. Nada disso, por si só, escandaliza.
O problema começa quando o documento resolve ir além. Ou melhor: resolve descer.
Entre os argumentos, aparece a acusação de que Piton teria “utilizado” sua filha — uma jovem de 18 anos, autista — em atividades de campanha. E não apenas como menção lateral. O processo inclui prints, registros, exposição direta.
É aqui que a política deixa de ser disputa e vira constrangimento.
Porque não se trata de estratégia. Trata-se de escolha.
E a escolha foi arrastar para dentro de um processo partidário alguém que não é agente político, não é candidata, não é parte da disputa. É filha.
Mais do que isso: é uma jovem com Transtorno do Espectro Autista, cuja presença nas atividades do pai — como mostram os próprios registros — se dá num contexto que qualquer leitura minimamente honesta reconheceria como inclusão, convivência, vida normal.
Transformar isso em acusação não é só desproporcional. É revelador.
Revelador de uma visão que ainda enxerga a pessoa com deficiência como alguém que deve ser invisível, afastada, retirada do espaço público. Como se participar de uma campanha ao lado do pai fosse, por si só, uma irregularidade.
Não é. E não há base legal para sustentar que seja.
A defesa de Piton acerta ao chamar isso pelo nome: capacitismo.
E vai além. Aponta, com razão, a contradição central do caso — a de que a mesma participação nunca foi questionada quando servia a outros interesses políticos. Só virou problema agora.
Conveniente. Antes do impeachment, Piton apoiava o prefeito e vice cassados, Cristian Wasem e Delegado João Paulo Martins; hoje, apoia a prefeita interina Jussara Caçapava e não Claudine Silveira, vereadora e esposa do ex-vice, na eleição suplementar à Prefeitura.
Mas se a denúncia já seria grave por si, o que vem depois aprofunda o problema.
O despacho que recebe e dá andamento ao processo é assinado pelo Delegado João Paulo Martins — que além de presidente do PP e vice-prefeito cassado no impeachment de janeiro, é delegado de polícia, ex-chefe da Polícia Civil gaúcha.
No documento, além de validar o prosseguimento da representação, ele reforça a narrativa de que Piton estaria “se utilizando de sua filha AUTISTA e de outros AUTISTAS” para promoção política, chegando a sugerir comunicação ao Ministério Público.
Aqui, a questão deixa de ser apenas política e passa a ser institucional.
Porque não se espera de um militante comum um refinamento técnico. Mas se espera — ou se deveria esperar — de um delegado, alguém com trajetória na segurança pública, um mínimo de discernimento sobre limites.
E esse limite foi ignorado.
Não se trata de concordar ou discordar de Piton. Trata-se de compreender que há coisas que simplesmente não entram no jogo.
Arrastar familiar já é questionável. Fazer isso usando a condição de uma pessoa com deficiência como argumento é inaceitável.
É o tipo de expediente que empobrece o debate, contamina o ambiente político e, no fim, expõe mais quem acusa do que quem é acusado.
Piton reagiu com a contundência que o caso exige. Em declaração ao Seguinte:, desabafou:
– Querem invisibilizar as pessoas com espectro autista? Querem devolver ao isolamento, a um hospício? O mundo mudou, as leis mudaram. Autistas têm seus desejos, suas manifestações e o direito de estar onde quiserem estar. Não podemos tolerar o intolerável, que é usar isso numa disputa política.
A defesa, conduzida por Hendrix Gavião, já anunciou que deve buscar reparação civil pela exposição.
Porque há um ponto que precisa ser dito de forma simples: participação não é exploração. Visibilidade não é irregularidade. Inclusão não é infração.
E tentar transformar isso em argumento jurídico é, no melhor dos cenários, ignorância. No pior, má-fé.
Há disputas que se resolvem no voto, no debate, na divergência. Outras deveriam, ao menos, respeitar limites básicos de decência. Porque, se vale tudo, então não é mais política. E se não é mais política, alguém precisa dizer: passou do ponto.
Como “o segredo de aborrecer é dizer tudo (Voltaire)”, resta dito.
O Delegado — uma pessoa que reputo decente, pelo qual tenho admiração — errou feio nessa.






