O segredo de aborrecer é dizer tudo. É inegável que, com a assinatura da concessão do Mercado Público de Gravataí à Mercados Urbanos S.A., o prefeito Luiz Zaffalon (PSD) começa a transformar a percepção sobre aquilo que parecia um ‘mico’ de seu governo.
O Mercado Público foi concebido como uma das apostas mais ousadas da atual administração, não só para revitalização da região central, mas para criar pertencimento aos gravataienses.
Instalado no antigo Ginásio Aldeião, recebeu investimento público de R$ 8,8 milhões e nasceu com a proposta de se transformar em um polo de gastronomia, comércio, cultura e convivência.
O problema é que obras públicas não são julgadas apenas por suas intenções. São julgadas pelos resultados. E o que a população via até agora era uma estrutura praticamente pronta, mas sem funcionamento, envolvida em questionamentos sobre a concessão e sem uma data concreta para abrir as portas.
Soma-se a ‘memória afetiva’ de alguns com o antigo Aldeião.
Nesse cenário, o empreendimento começava a se transformar em munição política para adversários e em fonte de desconforto para o governo. A assinatura da concessão tem potencial para mudar esse quadro.
Pelos próximos 19 anos, a Mercados Urbanos S.A. ficará responsável pela administração do espaço. O projeto prevê restaurante, açougue, peixaria, outras 24 operações comerciais e uma área destinada a eventos culturais e apresentações artísticas.
A expectativa da Prefeitura é que o contrato gere aproximadamente R$ 20 milhões em repasses ao município ao longo da concessão, num teto de 4%, valor superior ao investimento realizado na construção.
Ainda existem etapas pela frente. Será necessária a adaptação do segundo pavimento para receber a cozinha industrial do restaurante e a concessionária segue prospectando empreendedores para ocupar os espaços disponíveis. Por isso, ainda não há data oficial de inauguração.
Mas o principal obstáculo já foi vencido: a insegurança sobre o destino do empreendimento.
O caminho até aqui esteve longe de ser simples.
A primeira concessão acabou interrompida após auditoria do Tribunal de Contas do Estado e manifestação do Ministério Público de Contas. Os órgãos apontaram irregularidades no processo licitatório, entre elas a realização de concorrência presencial sem justificativa adequada e sem gravação em áudio e vídeo, além de questionamentos relacionados à revogação de uma licitação anterior.
Diante do cenário, a Prefeitura optou por rescindir amigavelmente o contrato e construir um novo edital.
Segundo o prefeito, a administração entendeu que o Tribunal aplicava critérios de análise que não vinham sendo exigidos em processos semelhantes realizados anteriormente no Rio Grande do Sul.
Ainda assim, a decisão foi não entrar em confronto com o órgão de controle. O município preferiu adequar integralmente o edital às orientações recebidas, sem contestar o parecer, eliminando qualquer risco jurídico para a continuidade do projeto.
O novo certame foi elaborado, passou novamente pela análise técnica e culminou na escolha da Mercados Urbanos S.A. como concessionária.
Nas últimas semanas, porém, persistia uma dúvida importante: a empresa seguiria adiante ou desistiria da operação diante do longo período de indefinição?
Nos bastidores, Zaffa atuou pessoalmente para buscar uma definição. O prefeito manteve contatos com representantes da concessionária para que a empresa decidisse definitivamente pela implantação do negócio ou, alternativamente, abrisse mão do projeto.
Havia uma preocupação objetiva por trás dessa movimentação. O governo não queria correr o risco de ver o Mercado Público permanecer pronto e fechado por tempo indeterminado. Caso a concessionária desistisse, uma das alternativas cogitadas era a própria Prefeitura assumir a gestão do espaço.
A decisão pela assinatura do contrato afasta esse cenário.
Agora, o governo deixa para trás a etapa burocrática e entra na fase em que os resultados começam a ser cobrados.
Porque o Mercado Público não será avaliado pelo tamanho do investimento, pela arquitetura do prédio ou pela quantidade de páginas dos editais. Será avaliado pelo movimento que gerar, pelos empregos que criar, pelos empreendedores que atrair e pela capacidade de transformar uma região importante da cidade.
Se alcançar esses objetivos, poderá se consolidar como um dos principais legados urbanos da gestão Zaffa. Se fracassar, continuará sendo lembrado como uma obra cara que demorou para encontrar sua finalidade.
Ao fim, a política costuma ser implacável com projetos inovadores. Quase nunca existe meio-termo. Eles acabam celebrados como visão de futuro ou criticados como desperdício de recursos.
“Aguardemos a conclusão e aceitação do Mercado Público ao longo dos anos, para saber o quão visionário é Zaffa”, escrevi, ainda em 2024, em A polêmica sobre investir 8,8 milhões no Mercado Público de Gravataí para entregar à exploração privada.
Fato é que, no caso do Mercado Público, a história ainda está sendo escrita. Mas a assinatura da concessão permite afirmar que o governo começou a virar uma página que parecia cada vez mais difícil de ser superada.
Porque, na política, é tênue a linha que separa a coragem de criar algo novo da responsabilidade por um mico.






