O lançamento da candidatura de Claudine Silveira (PP) à Prefeitura de Cachoeirinha, na eleição suplementar marcada para 12 de abril, confirmou algo que a política local já intuía — e o Seguinte: antecipava.
Mais do que uma candidata, o que entrou oficialmente em campanha foi o projeto político do prefeito cassado Cristian Wasem (União Brasil).
O ato ocorreu na noite desta quarta-feira no Onze Unidos. E o protagonismo foi evidente.
O vídeo divulgado nas redes sociais foi publicado pelo próprio Cristian. Ele aparece conduzindo o evento, puxando os presentes em coro e estabelecendo o tom da campanha.
– O golpe tá aí, cai quem quer – entoaram participantes na abertura.
Cristian e sua esposa, Fabi Medeiros (UB), vestiam camisetas com a frase.
A narrativa do “golpe” — como o grupo define o processo de impeachment que levou Jussara Caçapava (Avante) ao comando da prefeitura — permeou discursos, imagens e a estratégia política apresentada.
Não é apenas uma eleição. É uma disputa sobre qual versão da história recente da cidade vai prevalecer.
Inelegível por oito anos após a cassação, Cristian tenta ocupar outro papel: o de ‘Grande Eleitor’.
A aposta é clara: transferir capital político para Claudine, vereadora, professora, policial civil aposentada, advogada e esposa do vice-prefeito cassado Delegado João Paulo Martins (PP).
A campanha assume a lógica de um plebiscito político. De um lado, a prefeita interina que governa com ampla base parlamentar. Do outro, o grupo político que afirma ter sido retirado do poder por um “golpe”.
Cristian sintetizou o momento no discurso.
– Não teremos uma nova chance. Teremos uma oportunidade em 12 de abril.
Fabi Medeiros seguiu na mesma linha:
– Não seremos calados, silenciados. Onde houver uma voz de vocês, nós estaremos. E nós voltaremos.
A narrativa da reparação
Claudine assumiu o discurso de quem encarna uma causa.
– Acredito que caráter, moral e ética não estão à venda. Todo mundo quer fazer valer seus direitos. Lutamos muito pelo voto direto. Não podemos deixar que nos tirem esse direito – afirmou.
O Delegado João Paulo Martins endureceu o tom político.
– Vamos pedir votos de cabeça erguida. Eles que traíram o povo.
A palavra traição, aliás, aparece como elemento recorrente na narrativa do grupo. É uma forma de traduzir politicamente o impeachment. E transformar a eleição em julgamento popular da decisão tomada pela Câmara.
No palco do lançamento, um detalhe chamou atenção.
Entre os 17 vereadores da cidade, apenas Cleo do Onze estava ao lado da candidatura da colega vereadora.
Ele manteve o apoio mesmo após o MDB, partido ao qual pertence (e ao qual Cristian estava filiado até segunda-feira), decidir em convenção apoiar Jussara por 29 votos a 24.
– Estamos juntos – disse o vereador.
A presença solitária de Cleo evidencia uma das fragilidades do projeto: a falta de base parlamentar. Do outro lado, Jussara reúne nove partidos e doze vereadores, sustentando a narrativa de governabilidade.

O ‘vou de Fusca’
Cristian também mantém na campanha o estilo performático que marcou sua gestão.
Claudine agora percorre a cidade ao lado dele em um Fusca amarelo, visitando obras realizadas pelo governo cassado.
A estratégia é óbvia: materializar o legado. Transformar obras em argumento eleitoral.
É a mesma linguagem política que já apareceu em vídeos com bolas rolando, metáforas esportivas e mensagens diretas ao eleitor — uma estética que contrasta com o discurso da adversária: popular no jeito de ser, mas administrativo e pragmático nas ações.
Ao fim, resta esta a guerra de narrativas da eleição suplementar de Cachoeirinha.
De um lado, Jussara Caçapava afirma representar a gestão que “organiza a casa” após o impeachment. Do outro, Cristian Wasem tenta provar que seu capital político continua vivo — mesmo fora da urna.
Claudine coloca-se, nesse roteiro, como a candidata da reparação. Cristian, o fiador político.
A aposta já está feita. E ela passa por um nome só: Cristian Wasem.
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