RAFAEL MARTINELLI

Do “meu Deus do céu” ao concreto: Canoas inaugura muro onde a água entrou — e testa se aprendeu com tragédia de 2024

Prefeito Airton Souza e vice Rodrigo Busato inauguram Muro da Cassol, primeira obra de reconstrução, ao estilo dique, concluída no RS

O Airton Souza vereador, em cima de um barco, ajudando nos resgates da enchente em Canoas, em 3 de maio de 2024, repetia, quase que incrédulo, olhando a força destrutiva das águas, “Meu Deus do céu… meu Deus do céu”. Dois anos depois, agora como prefeito, evocou o divino para agradecer a entrega do Muro da Cassol, primeira grande obra de proteção, ao estilo de dique, concluída no Rio Grande do Sul após as enchentes.

A cena — que mistura memória traumática e cálculo político — ajuda a entender o peso simbólico de uma estrutura de 100,88 metros de extensão, dois metros de largura, fundações que chegam a 12 metros de profundidade e cota de proteção de 6,75 metros. Mais do que concreto, a Prefeitura apresenta a ideia de que ali começa uma nova relação da cidade com a água.

– Mais do que uma obra, estamos entregando segurança e resposta concreta à população – disse Airton, ao inaugurar o muro que reforça o sistema do dique do Rio Branco e protege bairros como Rio Branco e Fátima, dois dos mais atingidos pela tragédia.

O chamado “Muro da Cassol” não é apenas mais uma obra. É, como esta coluna mostrou ainda em março no Seguinte:, o ponto exato por onde a água avançou sobre áreas residenciais em 2024 — e, por isso mesmo, transformado em vitrine da reconstrução.

Na prática, o município aposta em um raciocínio simples e potente: se o desastre teve uma porta de entrada visível, a reconstrução precisa ter um símbolo igualmente concreto de fechamento dessa porta.

O vice-prefeito Rodrigo Busato resume a narrativa.

– Estamos reconstruindo com planejamento e responsabilidade, priorizando áreas vulneráveis – disse, ao lado do pai e deputado federal Luiz Carlos Busato.

Busato também tem cumprido um papel de ir às ruas e responder à comunidade sobre os efeitos projetados na obra. Um vídeo didático, em conversa com moradora que acompanhou todo andamento da construção, você assiste clicando aqui.

A obra custou R$ 1,47 milhão, com recursos próprios, e integra um pacote mais amplo de cerca de R$ 500 milhões em intervenções, incluindo elevação de diques, novas estruturas e modernização de casas de bombas.

O problema é que Canoas não parte de um cenário comum. Parte de uma memória recente de colapso.

Em maio de 2024 180 mil pessoas ficaram fora de casa, 31 morreram, bairros inteiros ficaram submersos, com água acima de 5 a 6 metros, 26 mil estabelecimentos foram atingidos e o município registrou déficit direto de cerca de R$ 190 milhões.

Canoas não foi apenas mais uma cidade afetada. Foi o epicentro humano — e animal, com mais de 600 cães e gatos em abrigos — da maior tragédia climática da história recente do estado.

E isso muda tudo. Muda a régua de cobrança. Muda o significado de cada obra. E, principalmente, muda o grau de desconfiança.

Porque quem viu a água chegar até o teto não acredita facilmente em promessa — só em contenção.

Há um ponto técnico — e político — que separa o discurso da realidade: o Muro da Cassol é relevante, mas não resolve o problema sozinho.

Como já mostrado em reportagens anteriores, ele é apenas uma peça de um sistema que ainda está em construção não só em Canoas, mas em toda a Região Metropolitana. A lógica é de cinturão integrado de diques, muros, comportas e bombas.

E esse sistema só funciona completo.

Sem isso, o risco permanece: água entrando por outros pontos, pressão sobre estruturas antigas , falhas em cascata.

Por isso, enquanto a Prefeitura comemora o “primeiro grande marco”, técnicos lembram que o teste real não é a inauguração — é a próxima cheia.

O fantasma do próximo evento já tem nome. E ele pode estar no horizonte.

As projeções climáticas indicam probabilidade entre 60% e 85% de formação de um novo El Niño em 2026, com maior intensidade no segundo semestre e risco prolongado até 2027.

Para a Região Metropolitana de Porto Alegre, o diagnóstico é de possibilidade de mais chuva que a média, eventos extremos mais freqüentes, rios pressionados por mais tempo. E um detalhe fundamental: não é preciso repetir 2024 para causar estrago relevante.

Basta uma sequência de eventos médios com solo saturado. O cenário mais perigoso não é o excepcional — é o acumulativo.

Nesse ponto, a inauguração do muro dialoga — ainda que indiretamente — com um alerta mais profundo.

Em artigo publicado no Sul21, o engenheiro Luiz Antonio T. Grassi sustenta que a tragédia de 2024 deixou uma lição ignorada: enchentes não são eventos isolados, mas fenômenos de bacia hidrográfica.

Ou seja: o que chove no alto do vale determina o que alaga embaixo, decisões em um município impactam diretamente outro e apenas o planejamento por cidade é insuficiente.

A crítica é direta: faltou — e ainda falta — planejamento integrado por bacias, com uso coordenado do solo, gestão das águas e atuação efetiva dos comitês previstos na Lei das Águas do RS.

Na prática, o alerta é incômodo: obras isoladas, por mais robustas que sejam, têm eficácia limitada sem estratégia territorial integrada.

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Entre a obra visível e a obra invisível

Há, portanto, duas camadas na entrega do Muro da Cassol. A primeira é visível: concreto, engenharia e proteção localizada.

A segunda é invisível — e mais complexa: articulação institucional, planejamento sistêmico e coordenação regional.

É aquela que, como já observado em outra análise, talvez seja a principal obra da gestão Airton: a capacidade de dialogar com todas as esferas para viabilizar um sistema que o município, sozinho, não consegue financiar.

Porque a conta continua a mesma: Canoas não reconstrói sua proteção sozinha.

Ao fim, o Muro da Cassol inaugura mais do que uma estrutura. Inaugura uma narrativa de reconstrução, um símbolo político de resposta e um teste de credibilidade.

Se funcionar, vira prova de que a cidade aprendeu. Se falhar, vira lembrança de que aprender não é erguer muros — é mudar a forma de planejar o território.

Entre o “meu Deus do céu” de 2024 e o agradecimento de 2026, Canoas construiu um muro. Resta aguardar pelo sistema metropolitano completo. A água não reconhece fronteiras.


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