RAFAEL MARTINELLI

A candidatura de Teté Caçapava é oficial: o ‘pragmatismo implacável’ vai ao teste das urnas para devolver a Cachoeirinha R$ 250 milhões de protagonismo

A Justiça Eleitoral deu o carimbo que faltava: a candidatura de Paulo Cesar Agliardi, o Teté Caçapava (Avante), a deputado federal está oficialmente homologada para o pleito de outubro. A transição da pré-candidatura — apresentada durante a plenária estadual da sigla, na Câmara de Vereadores — para o registro oficial chancelado pelas urnas transforma a intenção em fato político consumado. O projeto de Teté carrega o peso de tentar devolver a Cachoeirinha um protagonismo perdido em Brasília desde a saída do ex-prefeito José Stédile do Congresso Nacional.

Os tempos, porém, são outros. Diferente da época em que Stédile cumpriu seus dois mandatos, a engrenagem do poder na capital federal inflou. Hoje, a chave do cofre atende pelo nome de emendas parlamentares: são R$ 250 milhões garantidos a cada deputado federal ao longo de quatro anos de mandato. Uma dinheirama vital para qualquer município, especialmente para uma cidade que ainda cura as feridas das cheias e busca fôlego fiscal.

Com o nome devidamente deferido pela Justiça Eleitoral, as prioridades de Teté ganham contorno de compromisso oficial. Assim como a mãe, a prefeita Jussara Caçapava, o candidato move-se por uma obstinação pela saúde pública. Contudo, mantém os olhos fixos na infraestrutura e, fundamentalmente, na resiliência climática — uma urgência dramática para Cachoeirinha. O alvo central das futuras articulações já está desenhado: o PAC do governo federal, que reserva R$ 6,5 bilhões para obras contra enchentes na Região Metropolitana.

Pesa a favor do agora candidato oficial uma característica moldada especialmente durante a complexa engenharia que resultou no impeachment do ex-prefeito Cristian Wasem e do vice Delegado João Paulo: aquilo que chamo de ‘pragmatismo implacável’.

Apesar de carregar um DNA popular e progressista bem definido, Teté não calça a ferradura ideológica antes do interesse público. Hábil na mesa de negociações e respeitado no meio político como um “cumpridor” de acordos — virtude celebrada publicamente por Jussara Caçapava —, ele entende que a política das portas abertas traz mais resultados do que o espetáculo vazio das redes sociais.

Foi essa capacidade de transitar entre opostos que permitiu construções aparentemente contraditórias, mas milimetricamente calculadas para o município.

No plano estadual, sustenta o apoio a Gabriel Souza (MDB) ao Palácio Piratini, um legítimo ‘extremo centrista’, herdeiro do projeto de Eduardo Leite (PSD), costurado em parceria com o ex-deputado Dimas Costa (PSD) — o ‘embaixador’ do governador na região e principal dobradinha de Teté no território regional. No plano nacional, mantém o apoio ao lulista de centro-esquerda Paulo Pimenta (PT) para o Senado.

Na capital federal, onde a Realpolitik é tão seca quanto o clima do Planalto Central, esse jogo de cintura não é apenas útil, é vital. O dia é para os do dia, a noite é para os da noite, afinal. Teté já demonstrou ter estômago e competência para esse cenário ao costurar a megacoligação de nove partidos e 11 vereadores que garantiu a vitória de Jussara na eleição suplementar, além de assinar a engenharia da nominata do Avante, que inclui o vereador Gelson Braga, e bancar a audácia de trazer para o solo gaúcho o escritor Augusto Cury, candidato do partido à Presidência da República.

O vendedor de sonhos e a cartografia do voto

Apostar que a eleição de Teté é uma impossibilidade matemática significa desconhecer a atual geografia política do Rio Grande do Sul. O Avante concentrou suas forças exclusivamente nas candidaturas à Câmara Federal, jogando todas as fichas na eleição de um deputado para romper a cláusula de barreira e garantir sua sobrevivência institucional.

Como Cachoeirinha tornou-se, na prática, a capital do Avante no Estado — abrigando a única prefeitura controlada pela sigla em solo gaúcho —, o município deixa definitivamente a condição de mero coadjuvante nas articulações estaduais.

Ao fim, se a política exige mais pragmatismo do que coração de mãe, Teté decidiu que é hora de testar seu tamanho, já demonstrado nos bastidores, diretamente no julgamento do voto popular. Com a homologação judicial assegurada, a campanha ganha as ruas para saber se as urnas chancelarão o pragmatismo implacável que, até aqui, recolocou a cidade no mapa do poder estadual.

“Vendedor de Sonhos” é o nome de uma das obras de Cury, o presidenciável do partido. Resta saber se o sonho de devolver a Cachoeirinha uma representação direta em Brasília se converterá em realidade concreta a partir de outubro.

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