Bacharel em Direito, servidora pública e primeira mulher com deficiência visual a ocupar secretaria municipal em Gravataí e no Brasil, Patrícia Lisboa escreve artigo para o Seguinte:.
O Festival de Cinema de Gramado chega à sua 54ª edição trazendo uma conquista que merece ser celebrada muito além do universo do cinema. Pela primeira vez, todos os filmes das mostras competitivas contarão com audiodescrição, legendas descritivas e janela de Libras.
Para muitas pessoas, isso pode parecer apenas um detalhe técnico. Para quem convive diariamente com as barreiras de acesso à cultura, significa algo muito maior: autonomia.
Como pessoa com deficiência visual, sei exatamente o que representa entrar em uma sala de cinema sabendo que poderei escolher o filme que desejo assistir, sem depender de uma única sessão acessível ou de uma programação paralela. Significa ter o direito de viver a mesma experiência que qualquer outro espectador.
A audiodescrição não descreve apenas cenas. Ela traduz olhares, expressões, movimentos, figurinos, cenários, emoções e silêncios. Ela permite que a pessoa cega construa mentalmente a narrativa visual e participe das conversas sobre o filme em igualdade de condições.
Da mesma forma, a presença da Libras garante que a comunidade surda tenha acesso às cerimônias, homenagens e conteúdos do festival com independência e respeito à sua língua.
Talvez o maior significado desse avanço seja justamente deixar de tratar a acessibilidade como exceção. Durante muito tempo, comemorávamos quando um único filme era acessível. Agora, comemoramos porque todos são. Parece uma pequena mudança de palavra, mas é uma enorme mudança de paradigma.
Isso significa reconhecer que pessoas com deficiência não são convidadas ocasionais da cultura. Somos parte do público. Compramos ingressos, consumimos arte, debatemos cinema, nos emocionamos e queremos exercer plenamente nosso direito de escolha.
É importante reconhecer também o trabalho de todas as pessoas que, ao longo dos anos, acreditaram que um festival de cinema poderia ser verdadeiramente acessível. Profissionais da acessibilidade, intérpretes, audiodescritores, consultores, organizadores, produtores, gestores e tantos outros dedicaram conhecimento, tempo e sensibilidade para que esse avanço se tornasse realidade. Conquistas como essa nunca são fruto do acaso; elas são resultado da persistência de quem acredita que a cultura deve ser um espaço de todos e para todos.
Ainda há muito a avançar. Precisamos que essa realidade alcance todos os cinemas, festivais, plataformas de streaming, peças de teatro, museus e eventos culturais do país. A cultura só é verdadeiramente democrática quando pode ser acessada por todas as pessoas.
Que a iniciativa do Festival de Cinema de Gramado inspire outros organizadores a compreenderem que acessibilidade não é um benefício destinado a poucos. É um compromisso com a cidadania.
Porque a verdadeira inclusão acontece quando a notícia deixa de ser que existe um filme acessível e passa a ser simplesmente que todos podem participar da mesma sessão.






