Há uma diferença importante entre defender alguém de acusações e reconhecer que essa pessoa pode estar submetida a um julgamento contaminado por preconceitos históricos.
Faço essa distinção logo na primeira linha porque ela parece cada vez mais difícil de ser compreendida no ambiente político brasileiro, dominado pela lógica binária das redes antissociais: ou se absolve integralmente alguém, ou se participa do linchamento. Não há meio-termo. Não há nuance. Não há espaço para talvez.
Pois bem: não escrevo para oferecer um habeas corpus preventivo à prefeita de Cachoeirinha, Jussara Caçapava. Se houver ilícitos, irregularidades ou responsabilidades políticas, suas ou de pessoas ligadas a seu governo, que sejam apurados pelas instituições competentes, com todas as garantias constitucionais e o devido processo legal.
O que me chama atenção é outro fenômeno.
Comungo, nesse aspecto, da avaliação feita pelo assessor especial da prefeita, Cláudio Ávila, em entrevista ao programa Raio X, do Porto Alegre 24 Horas (assista clicando aqui). Segundo ele, os ataques dirigidos contra Jussara começaram ainda durante a campanha e carregam um componente que ultrapassa a disputa política tradicional: “Ataques levianos acontecem desde a campanha. Contra uma mulher, mãe, avó, 18 anos como vereadora, de base popular…” e, posteriormente, afirmou que seria fruto do preconceito contra “uma mulher pobre ter sido eleita para o paço municipal”.
Naturalmente, essa é uma interpretação política de alguém ligado ao governo. Não precisa ser aceita como verdade absoluta. Mas descartá-la automaticamente é um erro. Porque ela dialoga com algo muito maior do que a conjuntura de Cachoeirinha. Dialoga com o Brasil.
Há anos o sociólogo Jessé Souza procura demonstrar que nossa sociedade construiu mecanismos sofisticados de humilhação das classes populares. Em suas obras, especialmente A Elite do Atraso e, mais recentemente, em O Pobre de Direita, ele sustenta que o sentimento permanente de humilhação constitui um dos principais organizadores das relações sociais brasileiras. A exclusão não é apenas econômica. Ela é simbólica. Ela define quem merece respeito antes mesmo de abrir a boca. Em entrevista ao Extra Classe, Jessé afirma que milhões de brasileiros vivem submetidos diariamente a esse processo de desvalorização, buscando desesperadamente reconhecimento social.
É justamente aí que o caso de Jussara começa a extrapolar a política municipal. Não importa se alguém gosta de sua administração. Não importa se alguém votou nela. Importa perceber que determinados personagens públicos parecem carregar uma marca invisível de origem social que condiciona a maneira como parte da sociedade os enxerga.
Tenho insistido nisso desde antes de sua posse.
Quando escrevi que Jussara estava sendo transformada em meme, procurei mostrar que boa parte dos ataques pouco dizia respeito à gestão pública. Falava-se do corpo, da aparência, dos trejeitos, da estética, como se o debate político pudesse ser substituído por uma sessão permanente de humilhação pública. O problema nunca foi apenas uma prefeita. O problema era a naturalização da desumanização como método de fazer política.
Mais tarde, quando tomou posse, voltei ao tema.
Observei que sua chegada ao Executivo carregava um simbolismo poderoso: uma mulher de origem popular chegando ao principal cargo político da cidade. Naquele texto recordei uma frase que o próprio Cláudio Ávila me disse na noite da vitória: “Rafa, é bom ver alguém do povo chegar lá, né?”. Concordei, mas acrescentei uma advertência: o desafio seria proporcional ao preconceito que inevitavelmente enfrentaria.
Infelizmente, continuo achando que aquele alerta permanece atual. Porque existe um velho hábito brasileiro de transformar origem social em defeito moral. Talvez o exemplo mais eloquente continue sendo Luiz Inácio Lula da Silva.
Goste-se ou não de Lula, há algo que impressiona qualquer observador minimamente honesto: depois de ocupar a Presidência da República por três mandatos, discursar nas maiores tribunas internacionais, ser recebido por chefes de Estado de praticamente todo o planeta e tornar-se uma das figuras políticas mais conhecidas do século XXI, permanece sendo reduzido, por muitos de seus adversários, ao “cachaceiro”, ao “nove dedos”, ao retirante nordestino que jamais deveria ter ultrapassado a porta da fábrica.
Repare-se no mecanismo. Os insultos atacam-se sua origem, seu corpo, sua biografia. Não é coincidência. É classe social convertida em linguagem política.
Lembro editorial da CartaCapital que produziu uma das melhores interpretações desse fenômeno ao observar que ninguém costuma ofender alguém chamando-o de “uísqueiro”. O termo escolhido é “cachaceiro”. Porque a cachaça, historicamente, foi transformada em marcador simbólico das classes populares. O insulto não está propriamente na bebida. Está na classe social que ela representa. Como sintetiza o editorial, trata-se de preconceito de classe.
É uma observação brilhante. Porque revela como o preconceito brasileiro raramente aparece de maneira explícita. Ele costuma vestir roupas elegantes. Surge como piada. Como meme. Como comentário espirituoso. Como “brincadeira”. Como preocupação moral. Como análise técnica.
Reputo, porém, continua sendo preconceito.
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