JEANE BORDIGNON

Muito mais do que um Zé: 70 anos de histórias e 50 anos de canções

“Me faz pequena, Asa Morena, me alivia a dor. Aliviando a dor que mata, me faz ser teu amor….” Esses versos ficaram conhecidos pelo Brasil inteiro na voz da cantora Zizi Possi. E o autor da canção, você conhece? Zé Caradípia, gaúcho nascido em Canoas e crescido em Viamão. Um artista que está celebrando 70 anos de vida e 50 de carreira com o lançamento de um songbook cuidadosamente elaborado.

Tivemos a honra da Biblioteca Pública Municipal Monteiro Lobato, onde eu trabalho, ser o local escolhido para apresentar esse trabalho em Gravataí, no dia 2 de setembro. Se por um lado, parece um espaço muito simples para a grandeza do artista, por outro, Caradípia tem a simplicidade no jeito de ser e de se comunicar com o público. 

Acompanhado de seu violão, Zé contou histórias de cada canção como se estivesse numa roda de amigos. Como se estivéssemos em volta de uma fogueira, numa noite estrelada. Apresentou até uma canção que não entrou no livro. Foi uma noite de partilha: de vida e música. Fechada com todos cantando juntos a Asa Morena tendo seu autor como maestro, como se fosse uma oração.

E o songbook é muito mais do que um livro de partituras e letras. Mesmo para quem é inepta ao violão como eu, trata-se de uma obra rica, com textos muito bem escritos sobre a vida, trajetória artística e importância cultural de um artista como Zé, visto aqui “como arquétipo – figura que representa todos aqueles que criam, resistem e seguem adiante, mesmo quando o reconhecimento tarda”. Sei que não apenas eu, mas muitos amigos que também estão nessa caminhada, compreendem muito bem cada uma dessas palavras. 

Como explicar que um compositor com mais de 300 criações carregadas de sensibilidade e poesia não tenha o reconhecimento que merece? Que bom que a Rosane Furtado, sua produtora e companheira de vida, persistiu no projeto desse songbook, que deixará registrada para a posteridade a grandeza de Zé Caradípia. 

Na leitura, descubro que o artista tinha um motivo especial para escolher a biblioteca para seu evento, além de estar lançando um livro. O jovem José Luiz, nos intervalos do trabalho como office boy, corria para a Biblioteca Pública de Porto Alegre, onde mergulhava em novos mundos na leitura e se aprofundava no encanto das palavras. Foi ali, entre os livros, que começou a nascer o compositor. “A biblioteca tornou-se refúgio e horizonte.” Sei tão bem como é esse sentimento! 

Encantador também saber que o Zé, em 2023, participou do álbum da banda Faela, da Suécia! Adoro como a arte encurta distâncias e promove encontros improváveis. Ainda mais quando é feita com o coração. “Ali se revelava algo essencial: a obra de Zé Caradípia ultrapassa fronteiras geográficas porque sempre partiu de um lugar humano. E o humano é universal.”

Esse olhar humano também transparece nos cuidados para tornar o songbook o mais acessível possível. Ele traz um QR Code de acesso à versão em audiobook (com narração da cantora lírica Elisa Furtado, filha de Zé e Rosane) e o sucesso Asa Morena ganhou uma partitura em Braille. Cada música também possui um QR Code de acesso à gravação. E o show de lançamento, no Teatro Simões Lopes Neto, teve tradução em Libras e audiodescrição ao vivo. Um exemplo de projeto!

Como poeta que sou, claro que as letras das canções me chamam a atenção. Sei bem que, por mais que a gente escreva algo universal, colocamos muito de nós nos versos. E passear pelo songbook depois de uma tarde/noite encantadora com o artista faz com a gente enxergue como são verdadeiras palavras como da canção Paz e Novidade:

“Sei que sou

Uma pessoa boa

Sempre dou de mim

O melhor que tenho pra dar”

E como a arte não segue o tempo do relógio, uma canção composta em 1978 parece retratar o Zé de hoje, com seus 70 anos de histórias e ainda carregando a luz do rapaz com cara de piá:

“Olha moço vivo a muito

E ainda sonho, por que não?

De menino trago o intuito

E um mesmo coração” 

Por falar em coração… tem uma música do Gonzaguinha, Caminhos do Coração, que eu cito muito para explicar o quanto os encontros transformam a vida da gente. E trabalhar com cultura, seja como artista ou “por trás do pano” é encontrar muitas pessoas, ter muitas trocas e construir uma rede que até perdemos a dimensão do tamanho.

“E é tão bonito quando a gente entende

Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá”

O Zé é desses que entendeu, e traz com ele, tanto no songbook quanto no palco, todos que fizeram parte de sua estrada. Que entende que às vezes, sua canção se completa em outra voz. Ou as palavras de outro encontram melodia em seu violão. Mas é lindo quando, ao comentar sobre Asa Morena, o compositor reflete que “a gente é autor, a gente é intérprete, e as pessoas gostam tanto que a música torna-se delas também, isso é maravilhoso.”

Para saber dos próximos eventos desse projeto lindo e adquirir seu songbook, siga @caradipia no Instagram 

E o álbum do songbook também está disponível nas plataformas de áudio. Ouça aqui:

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